Cartas aos leitores: I

por Lúcia Bettencourt
8 de outubro de 2015


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O-regressoQueridos leitores

Talvez alguns de vocês já tenham experimentado arrebatamento igual ao que, às vezes, a leitura de um livro me proporciona. Nem todos os livros me deixam assim envolvida, é verdade, mas as cartas do poeta francês Arthur Rimbaud me provocaram uma paixão fora do habitual.

Cheguei a essas cartas por acaso. Estava me preparando para orientar o grupo de leitura que mantenho, há algum tempo. Geralmente lemos clássicos da literatura mundial. Desta vez, no entanto, tínhamos acabado de fazer uma leitura longa, não literária. Tratava-se da biografia de Henrique VIII, escrita por Antonia Fraser. Estava, portanto, faminta por alguma coisa indiscutivelmente literária, algo que me desse um prazer rápido e intenso, que não demorasse a engrenar. Pensei em poesia, só que não costumo trabalhar com poesia. Aos poetas sempre me achego com respeito e devoção, sem discuti-los, para não acontecer comigo o descrito por Machado de Assis, em seu poema “A mosca azul”. Ao deparar-se com a mosca de asas de ouro e granada, o homem curioso quis saber a causa de seu mistério, e assim:

“Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,

Rota, baça, nojenta, vil,

Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela

Visão fantástica e sutil.”

Foi então que, numa livraria, encontrei um pequeno livro (em tamanho, mas não em conteúdo) chamado Rimbaud, o filho, de Pierre Michon. Era justamente o que precisava: um livro curto, de transição, que me desse a ocasião de ler poemas fascinantes de um poeta absolutamente enigmático. O romance e os poemas me levaram às cartas, sua única produção escrita após abandonar, radicalmente, a literatura. Descobri, assim, que o final da vida do jovem e lindo adolescente rebelde tinha sido solitário, e que, enquanto ele expirava, enlouquecido de dor num leito de hospital em Marselha, seus poemas, finalmente, começavam a ser publicados.

Aquele fim de vida tão doloroso e angustiado, sem o consolo de ilusões, nem o amparo da família, me deixou enlutada. E também indignada. Por que o talento tinha recebido apenas o desprezo de seus contemporâneos? Por que tantas provações, tantos fracassos? Como testemunhar, daqui, das margens dos livros lidos, o meu respeito por esse viajante que rompeu todos os limites e ousou todos os desafios? Obedeci ao impulso e resolvi recriar sua viagem de volta à França. Ele mostrou-me seu lado de herói falhado, tal como Odisseu, outro náufrago, que nos dá a maior das lições de todas: falhar é permitido, pois nossa história é a narrativa de nossos naufrágios, desvios e descaminhos. E que o regresso é encontrar o caminho de volta para nosso verdadeiro eu.

Neste mundo de “paraísos artificiais”, palavras de outro poeta, Baudelaire, que já anunciava a modernidade, Rimbaud nos mostra todas as cores do inferno em nosso caos de cada dia, em nossas inevitáveis falhas, em nossos desregramentos morais que nos põem a nu num planeta que, assim como nós, mostra os sinais de sua própria destruição. Rimbaud resgata nosso direito à falha, à imperfeição, à incoerência e ao erro. Ele nos leva ao desafio e ao desespero. Ele nos traz, de volta, o zumbido da mosca que, apesar de azul e linda, ainda se deixa atrair pelo lixo.

Terei muito prazer caso desejem me acompanhar nesta viagem. E, sobretudo, neste novo funeral que organizo com o respeito e a emoção devida a Arthur Rimbaud.

 

Lúcia Bettencourt é escritora e ensaísta. Recebeu o Prêmio SESC por seu livro de contos A secretária de Borges (Record, 2005), o prêmio de ensaio da Academia Brasileira de Letras pelo volume O Banquete: uma degustação de textos e imagens (Vermelho Marinho, 2012), além dos prêmios Josué Guimarães e Osman Lins pelas histórias depois incluídas em Linha de Sombra (Record, 2008). O regresso é sua estreia na Rocco.

 

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