Carta aos leitores: IV

por Lúcia Bettencourt
29 de outubro de 2015


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Queridos leitores.

Volto com minhas reminiscências da escrita do romance:

A segunda viagem que influenciou a escrita foi uma deliciosa visita ao Marrocos, em que fui infiltrada, quase clandestina, numa excursão de astrogeólogos. Tenho uma amiga que é especialista em meteoritos, e foi na companhia dela e de seus colegas que visitei o deserto. Sabem por que o deserto é tão importante para eles? Porque é o lugar mais fácil de se encontrar os meteoritos. Naquela enorme extensão de areia, as rochas, pequenas ou grandes, que aparecem, são obviamente estrelas cadentes. Sem contar que não existe lugar melhor para observar o céu: sem luzes, sem umidade, o deserto é o palco privilegiado para as estrelas. Mas o deserto é surpreendente. Exerce uma atração e um magnetismo quase hipnótico sobre quem o contempla. É majestoso e indiferente. É surpreendente e vivo.

É preciso atravessar um longo caminho para chegar até o deserto propriamente dito. O país é seco, mas tem climas variados. Cortado por uma grande cadeia de montanhas, os Atlas, tem lugares onde até neva. Isso cerca de uma hora de carro de uma região de temperaturas elevadas, dignas do verão carioca.  Nosso ônibus deslocou-se com a pachorra própria dos ônibus, igual em todo o mundo, pelas estrada que subia e depois descia por entre acidentes geológicos que deixavam a turma de costas para a paisagem deslumbrante, examinando um paredão de pedra, ou catando minerais pelo chão.

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Quando protestei porque não olhavam para a paisagem, um deles, tão simpático, veio sentar-se ao meu lado e me explicar aquilo que meus olhos destreinados não viam.  Sua primeira frase foi: “Nós, geólogos, podemos ler a terra como se fosse um livro que nos conta as histórias mais fantásticas.” Fui aprendendo a olhar com ele, e vi todo o fundo do mar, a assinatura das placas que, vagarosamente, empurraram todas aquelas terras para cima, a história das fraturas e tremores, as rochas que tinham sido plantas, um dia. Fascinada, não queria que ele parasse de me “traduzir” aquele livro, mas chegamos a um marmoraria fantástica, e descemos para visitá-la.

Num fundo escuro como o do mar mais profundo, nadavam, solidificados em fósseis, uma fauna fantástica, e algumas plantas. Pedras e mais pedras, como instantâneos da infância na Terra. Íamos de sala em sala, e as pedras, expostas como painéis, me fascinavam. Claro que nos demoramos mais do que o previsto e, depois de trocarmos o ônibus por algumas camionetes 4X4, partimos numa corrida desabalada para o hotel que nos abrigaria às margens do Saara.

Foi então que o mundo acabou de repente. Não havia mais estradas, nenhuma sinalização, e a escuridão solidificou-se a nosso redor. Tudo o que víamos era alguns metros à frente do carro, graças ao farol de nosso 4X4. Os outros faróis se mantinham afastados, muito longe de nós, e todos corríamos, desabalados, provocando gritos nos mais assustados, e uma sensação de perigo misturada à exaltação nos outros. O prédio do hotel, maravilhoso ,mas de aparência misteriosa e deserta, estava iluminado apenas por luzes rasteiras, mostrando o caminho e nada mais. Nas salas havia luz, mas era pouca, amarelada, comprimida pela escuridão lá de fora que não nos deixava ver nada. Já era tarde, fomos para nossos quartos, pois no dia seguinte, às 4 da manhã, viriam nos buscar para, enfim, passear no deserto.

Acordei às 3:30 e a noite estava ainda mais escura. Agasalhei-me bem (o deserto, à noite, é gelado) e saí, à procura dos companheiros. Não conseguia ver ninguém. O hotel parecia um palácio encantado, lindo e desabitado. Mas em breve senti a presença de outras pessoas, que iam se reunindo à frente dos faróis dos 4X4, únicos pontos de luz na escuridão. Outra vez a corrida desabalada no escuro. Outra vez o medo e a euforia fazendo o sangue correr mais depressa em nossas veias. No ponto onde nos levaram, uma cáfila nos esperava. Os camelos, deitados, esperavam por nós. Montei num branquinho, que logo foi instruído, pelo tuaregue que nos guiava, a se levantar.

Quando esses animais se levantam temos uma espécie de vertigem, ficamos tão inclinados que parece que vamos cair, despencar de uma altura considerável, pois são mais altos que um homem.  Ainda era escuro, e nos apressávamos para chegar ao alto das dunas antes do nascimento do sol. Não víamos nada, só escutávamos os swish, swish das patas dos camelos, afundando na areia. De vez em quando o animal perdia o pé, nos balançávamos perigosamente e, depois de alguns segundos, retomávamos a marcha, em direção a um fio de luz intensamente laranja que começava a aparecer no horizonte. Quando chegamos no ponto combinado, os camelos se abaixaram para que saltássemos, os tuaregues retiraram de cima dos animais as suas mantas e nos colocaram sentados ali. Um amanhecer majestoso, mas, inesperadamente nublado, nos presenteou com cores lindas, intensas. Descobri o deserto, que não tinha nada a ver com as ideias que fazia dele. Mergulhei minhas mãos nas areias frescas, tão frescas que pareciam água. Guardei montinhos de areia nos bolsos, nas dobras das mangas, lamentei não ter uma garrafa para enchê-la daquela “água” seca e cor de laranja, deslumbrante. Entendi que é muito fácil amar aquele mundo enorme, e passar horas acocorado contemplando as areias que estão em eterno movimento, nunca param, com desenhos de luz e sombra de uma intensidade como não existe em outro local da terra. Entendi o que manteve Rimbaud nos altiplanos do Harrar durante tantos anos.

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Quando retomamos a estrada, já outra vez no ônibus, as nuvens que encobriam o céu subitamente transformaram-se em chuva. Muita chuva, intensa, rápida, alagando as estradas e as ruas, pois não existem sistemas de drenagem no deserto. E, tão repentinamente como começou, ela se foi. Mas deixou centenas de arco-íris nos céus. A cada lado do ônibus, à frente ou atrás dele, surgiam arcos duplos ou triplos, que se estendiam de um lado a outro da estrada, ou se alinhavam com ela. Um deslumbre.

Quando voltei ao Rio, refiz tudo o que tinha escrito sobre o deserto, mas, mesmo assim, acho que estou longe de revelar sua magia e seus encantos.

O romance já estava quase terminado.

Lúcia Bettencourt

 

Lúcia Bettencourt é escritora e ensaísta. Recebeu o Prêmio SESC por seu livro de contos A secretária de Borges (Record, 2005), o prêmio de ensaio da Academia Brasileira de Letras pelo volume O Banquete: uma degustação de textos e imagens (Vermelho Marinho, 2012), além dos prêmios Josué Guimarães e Osman Lins pelas histórias depois incluídas em Linha de Sombra (Record, 2008). O regresso é sua estreia na Rocco.

Leia também:
Carta aos leitores: I, por Lúcia Bettencourt
Carta aos leitores: II, por Lúcia Bettencourt
Carta aos leitores: III, por Lúcia Bettencourt

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