Carta aos leitores: III

por Lúcia Bettencourt
22 de outubro de 2015


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Queridos leitores,

O segundo dia em Charleville começou chuvoso, ainda mais triste que o anterior.

Passeei pela praça da estação, olhei mais uma estátua em homenagem a Rimbaud e não pude me impedir de achar que todas aquelas estátuas (algumas muito feiosas) eram uma grande ironia. A cidade o havia rejeitado, repelido, e desamado em vida. Ele tinha sido alvo de zombaria quando resolveu deixar o cabelo crescer, chegando até a cintura.  Provocaram-no, chamaram-no de Senhorita Rimbaud. Para fugir a tudo isso, ele saiu de casa, a pé, e caminhou até a Bélgica, onde foi acolhido pelas velhas tias de um professor, e para elas escreveu o poema “As catadoras de piolho”.

Segui pelas ruas mais movimentadas de Charleville. Automóveis passando velozes, com pressa de chegarem a seus destinos.  Transeuntes: uma brasileira, caminhando lentamente, procurando em placas os vestígios do poeta. Cinema fechado há muitos anos. Lojas fechadas, quase abandonadas. Uma livraria grande, bonita, chamada Rimbaud. Um cabeleireiro  chamado Rimbaud. As lojas repetem o nome do poeta, na esperança de atraírem clientes, mas estes são escassos. No melhor restaurante da cidade, as paredes estão cobertas por trechos de seus poemas, mas a pintura está meio encoberta pela gordura que, durante os anos, foi se grudando às paredes. Tudo tem uma aparência decadente, um pouco abandonada.

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Continuo a caminhada, para um dos extremos da cidade, passo por uma zona de comércio popular, uma praça onde o mercado (uma feira que vende de roupas a gêneros alimentícios) acaba de encerrar suas atividades. Clientes e comerciantes vão sumindo com a rapidez de pessoas cansadas, doidas para chegar em casa. O dia está esquentando e, quando chego na longa ladeira que me levará ao meu destino, já faz sol. Vejo, ao longe, o portão gradeado, imponente. Me apresso, atravesso com respeito o portal olhando a meu redor para ver se descubro alguém que me dê alguma informação, mas o local está deserto. A sinalização, porém, é clara. Quase em frente ao portão, do lado direito, estão os túmulos de Rimbaud e de sua irmã Vitalie. À direita , antes da pequena subida, uma caixa de correio, convidando “Coloque aqui suas cartas para Rimbaud”. Prometo a mim mesma que voltarei, um dia, para colocar lá o livro que já comecei a escrever. Depois para diante dos túmulos. Limpos, mas sem sinais de visitas recentes., Atrás de um cercadinho,  uma tumba única, com duas lápides brancas.

Volto atrás e procuro uma floricultura. Já quase no meio da longa descida, descubro uma pequena loja de flores e escolho um arranjo com uma borboleta. Na verdade, há muito pouco o que escolher. As flores quase não variam, o que muda é o enfeite que acompanha cada arranjo. Fico com a borboleta, numa oferta de asas para quem sempre amou a liberdade.

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Volto para o hotel. Tento conseguir um carro que me leve até Roche, mas desisto ao descobrir que nem no escritório de Turismo da cidade sabem me indicar onde ficava a fazenda (hoje inexistente) onde ele passou seus últimos dias em família. Nada. Visito, então, o museu de marionetes. Na praça em frente, vejo algumas pessoas. Um rapazinho brinca com seu cachorro. Atravesso a praça, mas não o alcanço. E volto mais uma vez para o hotel, depois de comprar passagem no primeiro trem do dia seguinte.  Charleville valeu a visita, mas me entristeceu ainda mais. E intensificou meu desejo de compreender e de homenagear o mais ilustre dos carolopolitanos.

Voltei a Paris, caminhei pelas ruas por onde Rimbaud ostentou seu escandaloso comportamento. Fui atrás de endereços e de bares. Encontrei livros. Encontrei exposições. Encontrei uma cadeira vazia, numa recriação de um desfile de moda, reservada para Arthur Rimbaud.  Mas os traços do poeta pareciam se desvanecer pelo ar.

 

Lúcia Bettencourt é escritora e ensaísta. Recebeu o Prêmio SESC por seu livro de contos A secretária de Borges (Record, 2005), o prêmio de ensaio da Academia Brasileira de Letras pelo volume O Banquete: uma degustação de textos e imagens (Vermelho Marinho, 2012), além dos prêmios Josué Guimarães e Osman Lins pelas histórias depois incluídas em Linha de Sombra (Record, 2008). O regresso é sua estreia na Rocco.

Leia também:
Carta aos leitores: I, por Lúcia Bettencourt
Carta aos leitores: II, por Lúcia Bettencourt

 

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