Caro Bernardo

Por Vivian Wyler
29 de junho de 2018


Caro Bernardo,

Falar com você sobre Variações Goldman foi um prazer. Em parte estragado pela timidez. Mas acho que consegui disfarçar.

Por escrito fica muito mais fácil.

Esta carta é, na verdade, para confirmar tudo aquilo que você ouviu. Ler seu livro seria uma tarefa de férias, e se tornou uma das boas coisas dessas férias. É muito difícil se elogiar, sem que o elogiado desconfie do teor e da qualidade do elogio, o que pode nele estar embutido. Mas neste ponto, tenha certeza: cada palavra que segue é sincera. Descendente de suíços, nada nem ninguém pode me obrigar ao estilo derramado, se ele não for o que exige a situação.

Variações Goldman é um livro maduro, de um escritor que firma seu estilo. Nada ali é obra de diletante, tudo é calculado, pensado – perdi horas pensando em como você o fez – e passado por um delicadíssimo filtro de emoção.

Estão ali as influências de uma geração e uma indisfarçável predileção pela literatura alemã de autores como Bernhard, Handke e Botho Strauss, mas também a boa literatura judaica de Mallamud, Roth e Bellow. São Influências que me marcaram também e, por isso, acho que soube interpretá-las como bússolas a mais, a guiar a literatura.

Temperar o trágico com humor, usar a ironia, na composição de retratos de profunda humanidade, compor personagens com detalhes que só a fina observação e a experiência autobiográfica podem alicerçar são características de bom escritor. Esperei encontrar na tua obra o jornalista – e ele está ali, em detalhes como o encontro com Orlando Orfei – mas adorei perceber que ele (O jornalista) ficou no lugar que é só dele: o de pesquisar os dados, os fatos, para ajudar a ficção e não deixou sua voz intrometidamente sintética atrapalhar o tempo (no sentido musical) da literatura.

Este é um livro de personagens que são universais em sua miséria: a esfíngica Dorieta, com sua vagina dentada (é esse o mito, não é?) e o complexo Silvio, em sua ambiguidade diante da vida. Ao fundo, uma São Paulo, ao mesmo tempo peculiar e igualmente universal. Mágica. Um pouco como Nova York de Paul Auster. Guardo imagens do livro, após sua leitura, e, para mim, são elas a prova maior de sua eficácia: os mosquitos sendo mortos a toalhadas, a cena teatral na maternidade, a compulsão de Dorieta de ser uma espécie de Anne Sexton tropical, a presença intermitente e tão machadiana de Dario ou de Caio, o amigo tão próximo e do qual se são tão pouco…

Por tudo isso, o que eu queria lhe dizer, e já disse, é simples. Eu feliz de você nos ter escolhido para publicar uma obra em que você se colocou tanto, de forma tão elaborada e visceral. É uma prova de confiança que espero estar a altura de corresponder nos meses que virão.

Receba o abraço de

Vivian

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