Canção do exílio

Fábio Flora escreve sobre Rio-Paris-Rio, novo romance de Luciana Hidalgo
9 de fevereiro de 2017


“Espécie rara de colecionador, pouco liga para o que o objeto é em sua origem e sim o que se torna ao ganhar outra vida, estraçalhado, em seguida ressuscitado.”

O trecho se refere a certa personagem do romance Rio-Paris-Rio dada a provocar acidentes com qualquer bibelô apenas para, em seguida, juntar seus cacos e reconstruí-lo. Mas bem que poderia se referir à sua autora, Luciana Hidalgo, que oferece ao leitor uma passagem em primeira classe até o mundo de Maria, cuja vidinha pretensamente quadrada e simétrica – tal qual o quarto em que se refugia na capital francesa – derrete de vez em meio às manifestações estudantis de maio de 1968.

À maneira de uma restauradora singular – nem um pouco dedicada a recuperar a forma original da peça fraturada, mas a realçar o que deriva da fratura –, Luciana esculpe em doze capítulos a odisseia de renascimento da jovem que deixa o Brasil dos militares para estudar filosofia na Sorbonne e, ao mesmo tempo, ordenar o caos dos últimos anos, marcados não só pelo golpe que instaurou uma ditadura no país, mas também pela morte do irmão em circunstâncias trágicas.

Frase-2

Como seu ancestral literário (o herói Ulisses), Maria conta com uma Ítaca a lhe servir de bússola nessa travessia. Não uma Ítaca fixa, porto seguro, xis previsível no mapa, como a da epopeia. Uma Ítaca, ao contrário, móvel, ambulante, flutuante: o também jovem Arthur. Um poeta, um artista de rua, um brasileiro igualmente foragido – que ocupa o quartel-general da moça com versos jogados por baixo da porta.

Viajar é sentir, diz um deles (extraído de Fernando Pessoa). Sentir tudo de todas as formas, excessivamente – aí está o passaporte para se aproveitar ao máximo o roteiro planejado por Luciana. Não deve o turista que enveredar pelo bulevar de papel e tinta da autora esperar uma narrativa cheia de peripécias, feito um poema homérico ou aquela excursão que corre os mil pontos turísticos da Cidade-Luz em apenas um fim de semana.

A viagem aqui é flanar entre personagens das mais sortidas nacionalidades que, direta ou indiretamente, foram atingidos pela truculência da História (como Maria, Arthur e tantos outros); é se deixar (co)mover por corpos e mentes que, de repente, se viram jogados na sarjeta de um período histórico e tiveram de aprender a cuspir fogo no autoritarismo ou fazer uns malabarismos para sobreviver a ele.

É sobretudo compreender que qualquer revolução – inclusive a que atravessa a protagonista e a concilia com as assimetrias ao seu redor – é um ato de violência.

Frase-1A violência, aliás, extrapola o enredo e (numa decisão estética que ecoa a temática tratada) invade a linguagem: a poesia frequentemente rompe a sequência de parágrafos, inquietando a prosa; e os fragmentos de cartas que trazem notícias das mortes e prisões e lutas no Brasil, com letras em caixa-alta e texto que desrespeita a mancha gráfica, soam como um grito que não se submete mais aos limites da página – assim como as infinitudes vivenciadas por Maria, que aos poucos vencem os contornos (até então) bem definidos de seu esconderijo na rua Cujas.

Em tempos de tantas agressões à democracia – nos quais os interesses de poucos delineiam, com a régua da tirania, um horizonte nada promissor para a maioria dos brasileiros –, não poderia ser mais atual, infelizmente, esse retorno a uma época em que as liberdades individuais e coletivas experimentaram um exílio tão profundo.

É um alento, no entanto, que o itinerário proposto por Luciana acompanhe justamente aqueles personagens que não se deixam imobilizar pela barbárie e continuam caminhando contra o vento – heróis anônimos que, como cactos no deserto, se destacam na aridez da realidade e nos mostram o quanto é importante resistir. Sempre.

Fábio Flora é autor de “Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa” (Quartet, 2008) e mantém o blog Pasmatório, onde este texto foi originalmente publicado.

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