Caleidoscópio de referências

Por: Samir Machado de Machado
16 de setembro de 2016


homens-elegantes3

A primeira vez que entendi as possibilidades de uma narrativa pós-moderna foi jogando Fallout 2, quinze anos atrás. Dentro da trama pós-apocalíptica do jogo, inspirada em Mad Max, havia uma miríade de citações e referências entrecruzadas a livros, filmes, séries de TV e outros jogos, que era como uma forma não só de reconhecer todas as histórias que vieram antes, e que ajudaram a compor a atual, como também de assumir a influência direta que algumas delas trazem. E escrever um romance de aventura histórica como Homens Elegantes é impossível sem que eu também traga uma bagagem de referências que, de um modo ou de outro, ajudam a estruturar e fundamentar a historia.

post3_amadeusEm alguns casos, eu admito: copiei descaradamente. Quando Érico, meu protagonista, encontra uma sala fechada com uma suntuosa “biblioteca de doces”, e rouba em segredo um macaron da mesa, ele está copiando o gesto de Salieri roubando um bombom, em cena semelhante, em Amadeus; já quando o castrato Farinelli surge cantando na trama, seria impossível não referenciar o filme homônimo de 1994.
O tenso jogo de cartas entre meu herói e seu antagonista funde momentos de uma passagem semelhante em Barry Lyndon, tanto o filme de Kubrick quanto o livro de Tackeray, somados à uma infinidade de duelos nas cartas entre James Bond e seus inimigos. E se for para começar a falar em referências a 007, eu poderia seguir ao infinito.
Como um aficcionado pela obra de Fleming, só digo que há um motivo específico pelo qual Érico compra seu chapéu na Lock & Co., suas roupas na rua Conduit, ou prefere ovos marrons a brancos – motivos que talvez só outro leitor detalhista de Fleming perceba, mas que para mim eram essenciais que estivessem lá.

post3_assassinscreedMas nesse caleidoscópio de referências, preciso reconhecer também o quanto video-games me impactaram, em especial jogos de mundo aberto. Há uma razão pelo qual há um mapa no livro. Já disse Michael Chabon que toda história de aventura precisa de um mapa, pois nada mais são do que histórias da relação de personagens com o cenário que atravessam.
O mapa, no caso, é o mapa de Londres feito por John Rocque, em 1746, quinze anos antes da época em que se passa meu livro. Nele estão marcados os pontos principais da trama – que, se fosse um jogo, provavelmente seriam “missões”. Alguém poderia dizer, até com certa razão, que este autor jogou demais Assassin’s Creed (o que não deixa de ser verdade, a Ubisoft lança jogos demais, num ritmo anual que consumo como se fossem novas temporadas de um seriado ora irregular, ora genial).
Mas, da parte que toca a um vidrado por pesquisas históricas como eu, a possibilidade de flanar, no ambiente virtual do jogo, por uma reprodução quase exata de uma cidade europeia no exato período histórico em que se passa minha trama é de uma riqueza ímpar. Não é por acaso que o clímax do meu livro, uma grande batalha naval, envolve um navio chamado Joy Stick.

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