Bernardo Kucinski e o ofício de escritor

Autor da Flip fala sobre o lançamento Alice
29 de julho de 2014


Brnardo Kucinski

Com Alice, Bernardo Kucinski realiza um antigo projeto: criticar a universidade. Entre os muros da USP, relações superficiais, cheias de disputa e intrigas compõem a trama labiríntica de sua primeira incursão na literatura, o romance policial que acaba de chegar às livrarias sob o pseudônimo B. Kucinski.

Alice é importante para mim por me ter levado ao ofício de escritor”, declara o aclamado jornalista e cientista político.Convidado da Festa Literária Internacional de Paraty, Kucinski fala ao blog da Rocco sobre o papel da ficção policial em sua trajetória como leitor e escritor, definida por ele como “a melhor leitura para quem viaja muito e sofre horas de espera em aeroportos”. “Acredito que o estilo fluente, direto e jocoso dessas histórias influenciou meu modo de escrever”, admite.

 

Vários dos escritores mais célebres do último século foram fãs de literatura policial — como, por exemplo, Roberto Bolaño e Jorge Luis Borges. Como a narrativa policial esteve presente em sua trajetória como leitor?
No meu caso, comecei com a revista Mistério Magazine, muito respeitada nos anos 60 e 70. Lia todas as edições e procurava em sebos edições antigas ou perdidas. Na mesma época, lia muito histórias de espionagem. Mas curiosamente, no caso dos relatos de espionagem não gosto de ficção, só de histórias reais. Acho que os leio como interessado na história e não pelo prazer da narrativa. Mesmo assim não deixam de ter elementos de tensão e suspense similares às ficções policiais. Mais tarde descobri que a ficção policial é a melhor leitura para quem viaja muito e sofre horas de espera em aeroportos. Creio mesmo que essa é a razão pela qual muita gente que precisa viajar vicia-se em histórias de detetives. Acredito que o estilo fluente, direto e jocoso dessas histórias influenciou meu modo de escrever.

AliceAlice é, de alguma forma, uma homenagem a autores do gênero?
Não deixa de ser uma homenagem a eles, mas esse não foi o móvel inicial da novela. A ideia de homenagear os autores de novelas e contos policiais surgiu depois, quando senti a necessidade, a partir de algumas críticas de amigos, de dar mais substância à figura do detetive, dar a ele hábitos, vontades, cacoetes, traços de personalidade. Transferi a ele a minha admiração por esses autores, assim como a minha admiração pelo cinema.

Todo detetive é um grande leitor (ou mesmo um grande cinéfilo, no caso de Alice)?
Não. O único detetive leitor contumaz que me lembro é o nosso inspetor Espinoza, do Garcia-Roza. A maioria é caracterizada pelo prazer de comer bem, como o Maigret, do Simenon, e em especial o Nero Wolf, do Rex Stout. Nero Wolf é culto e aparece lendo muitas vezes, mas não sai de casa e não assiste a filmes, nem pela TV. Maigret, ao contrário, não se notabiliza por ler, mas leva a senhora Maigret regularmente ao cinema do bairro. Sherlock Holmes era culto sem ser mostrado lendo. Não ia ao cinema por não existir no seu tempo. Perry Mason também não era um grande leitor, e assim vai.

Este livro se diferencia, em estilo e estrutura, de suas obras anteriores de ficção. Como foi a construção desse novo modo de narrar?
Essa novela na verdade foi escrita antes das outras, foi minha primeira investida na ficção. Senti muita facilidade na construção da trama (o que se repetiria em outros textos). Quanto a estilo, creio que já se manifesta o estilo claro e direto. Quanto ao nível geral da escritura, creio que nesse tipo de narrativa não é de importância fundamental, embora sempre desejável a melhor qualidade e em especial a fluência. Alice é importante para mim por me ter levado ao ofício de escritor. Não fosse Alice, talvez não tivesse escrito K.

A história de Alice passeia com desenvoltura por questões do universo científico, com citações sobre tecnologia nuclear e o roubo de areias monazíticas, por exemplo. Que inspirações o levaram a esse tema? A construção do enredo envolveu muita pesquisa?
Sim, essa parte envolveu muita pesquisa, facilitada pelo fato de eu ter me formado em Física, e pela ajuda de amigos e professores da USP, em especial a professora Emico Okuno, que eu menciono nos agradecimentos, talvez a brasileira que mais entende do tema tratado no livro (que não vou revelar para não estragar o suspense).

Por fim: em seu livro, o universo acadêmico aparece em relações superficiais, cheias de disputas, intrigas e promiscuidade. Foi apenas um recurso ficcional ou o meio científico no Brasil está, de fato, muito contaminado por características como essas?
Essa foi a razão principal da novela, o motivo que me levou a escrevê-la. Eu tinha um antigo projeto de fazer a crítica da universidade através de um paper acadêmico ou reportagem jornalística. Descobri que era mais fácil através da ficção policial, em que você postula os problemas e não precisa provar nada. Sob esse aspecto, essa novela se aproxima de K e de meus contos, pois a ficção em Alice reflete uma realidade e se vale de episódios reais, embora a trama central seja totalmente inventada. Em parte, poderia estar na categoria de romance-à-clef, como dizem os críticos. O cientista que ajuda o detetive a elucidar o crime é facilmente reconhecível e identificado com um grande físico brasileiro.

TAGS: Alice, B. Kucinski, Bernardo Kucinski, Flip, literatura policial, Rocco na Flip,

Comentários sobre "Bernardo Kucinski e o ofício de escritor"

  1. Quero dar os parabéns ao Bernardo Kucinski. Eu li os três últimos livros que ele escreveu, e os achei ótimos. Eles não estão mais comigo, pois já os passei para frente. Gosto da forma como ele escreve e também da abordagem que ele dá sobre a ditadura, pois essa realidade trágica que ele viveu e que nós todos vivemos não pode ser esquecida. Sou seu leitor e o leio com o mesmo prazer com que leio Graciliano Ramos, por exemplo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados *