As distopias de Margaret Atwood

por Kelvin Falcão Klein
16 de outubro de 2018


A autora canadense Margaret Atwood disse ao jornal The Guardian, em uma entrevista dada em 2013, que sua literatura é uma “ficção especulativa”, mais do que uma “ficção científica”. A definição se aplica especialmente aos seus dois romances que buscam a visão de um futuro possível, O conto da aia e Oryx e Crake (que forma uma trilogia com outros dois livros de Atwood, O ano do Dilúvio e Maddadão). Atwood justifica que “especulativo” indica algo que poderia de fato acontecer, que está dentro do campo do plausível, ainda que não respeite totalmente o realismo restrito do romance tradicional.

No caso de Oryx e Crake, romance que conta a história de um ser isolado no mundo denominado Homem das Neves, o especulativo caminha lado a lado com o imaginativo. Isso porque Atwood trabalha constantemente a partir de elementos já conhecidos – engenharia genética, armas biológicas, reprodução assistida – e também em direção a novas possibilidades de vida e novos cenários de existência: “Se ao menos ele conseguisse encontrar uma caverna com teto alto e boa ventilação e, quem sabe, água corrente, estaria bem melhor. É verdade que existe um riacho com água fresca a menos de meio quilômetro dali; em um determinado local, ele forma um lago”.

Tanto O conto da aia como Oryx e Crake trabalham nesse registro tão peculiar de Atwood que é a mescla do hiperfuturista com o arcaico, o confronto de duas distâncias no tempo, opostas mas complementares. O primeiro livro busca as raízes da República de Gilead, a teocracia instaurada depois de uma revolução no século XXI, no puritanismo do século XVII, nascido na Inglaterra após a Reforma Protestante e levado para os Estados Unidos com os imigrantes. No caso de Oryx e Crake, o cenário arcaico do Homem das Neves na caverna foi alcançado depois de um longo percurso tecnológico, um processo de engenharia genética e uso de medicação que redunda em uma epidemia e uma mortandade generalizada. O ambiente do romance é o de uma “bioperversidade”, como denominou a escritora Lorrie Moore em um ensaio sobre Oryx e Crake publicado na New Yorker.

Uma das partes mais interessantes de entrar em contato com o mundo distópico ou especulativo de um escritor é encontrar elementos que evocam nossa própria cultura conhecida. Nesse aspecto, Atwood é meticulosa, desde a referência mais básica às lendas dos monstros híbridos (o homem das neves, Ieti ou Pé-grande), mas também, no caso de O conto da aia, seu uso do clássico de Geoffrey Chaucer do século XIV, Contos da Cantuária, ou, no caso de Oryx e Crake, uma série de usos de momentos e citações de peças de Shakespeare.

As distopias de Atwood, portanto, oferecem várias camadas de sentido durante a leitura, desde aquela mais imediata do reconhecimento do gênero (o cenário pós-apolíptico ou totalitário, por exemplo) até as camadas mais profundas que levam o leitor em direção a outros textos, autoras e autores. O ponto central, reiterado nos diferentes livros de Atwood, é que uma sociedade que recusa as diferenças e os distintos pontos de vista sempre acabará mal, por vezes tomando o rumo da violência e do autocancelamento.

Kelvin Falcão Klein é crítico literário e professor de literatura na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO.

TAGS: artigo, Distopias, Margaret Atwood,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados *