Um livro sobre o tempo

por Flávio Izhaki
16 de junho de 2014


O segundo romance do escritor carioca Flávio Izhaki – autor que se destacou como um dos mais talentosos de sua geração ao lançar o elogiado De cabeça baixa, em 2008 – é finalista do prêmio Prêmio Portugal Telecom. Amanhã não tem ninguém costura as histórias de seis personagens com idades e características diversas, a partir de um eixo em comum: o peso da finitude e da incomunicabilidade.

Flávio Izhaki conta como nasceram os personagens e revela algumas etapas da publicação deste romance sobre o tempo. Confira:

“Cada livro nasce de um local desconhecido. No meu primeiro romance eu tinha uma cena, um autor que encontra seu livro num sebo, todo anotado. Dessa vez não foi tão mastigado, o romance nasceu do nada, em vários lugares, e daí foi crescendo. Uma filha que espera seu pai morrer no hospital, um médico que não consegue lidar com a morte de seus pacientes, um adolescente que não consegue se adequar aos grupos e sub grupos no recreio, um outro adolescente, da mesma idade (e sempre soube que era outro, em outro tempo), que pendula entre a religião e as descobertas que não entende, a culpa que isso traz a reboque.

O livro nasceu fragmentado, mas se amalgamou naturalmente: família. Em certo ponto uma personagem, mãe, fala para o filho, “Ainda somos uma família”, e o eco daquela frase perdura, mesmo para o autor.

Escrevi esse livro em um momento da vida em que as doenças se aproximaram demais e foi inevitável pensar sobre o fim. Inconscientemente, fui arrastado para o assunto, até que percebi que precisava entender essa ausência – mesmo enquanto ainda presença – que chegaria, inexorável.

Esse é um livro sobre o tempo. O dos personagens distendidos ao longo de anos, décadas, ou comprimidos em dias, horas. De quanto tempo é preciso para se entender uma vida? Será que é possível explicar uma pessoa por um momento chave?

Mas nesse livro cada personagem não é apenas sua história, narrada em primeira pessoa. Ele é também contado por outros olhos, interpretações, cacos de memória, confiáveis ou não.

O tempo também é o do autor. O livro começou a ser escrito em 2008 e só foi terminado em 2011. O tempo da demora para a edição também é fator. Descanso. Releitura. Faltava uma semana para entregar o último arquivo do livro. Minha editora me chamou para uma reunião para tirarmos as últimas dúvidas. Ao ver as minhas personagens ganharem peso nas palavras dela, até mesmo numa entonação diferente do nome de uma delas, me assustei. Não são mais meus.

Um dos pontos da conversa foi sobre uma questão sobre o nascimento de uma personagem. A editora achava que era preciso esclarecer uma situação, eu não tinha tanta certeza. Pelo menos na hora.

No dia seguinte, revisando, cheguei ao ponto do livro em questão. E bastou que eu abrisse o caderno para que uma nova cena, necessária, sim, jorrasse. Foi como o que ali fora descrito já tivesse de fato ocorrido, e estava tão claro na minha cabeça como teria sido, que dali para o papel foi quase um copiar/colar de uma memória.

Paradoxalmente, ter acontecido isso me deu a certeza de que o livro estava pronto. Escrever é fracassar, sempre, deixar de fora alguns fatos, escolher os ângulos, editar a história escrevendo. Publicar é fracassar, o seu leitor ideal nunca existirá. Mas quando o autor consegue essa intimidade com as personagens em que parece saber de muito mais do que colocou no livro, sinal de que ali estão vidas possíveis.

Agora, xô, vão para o mundo.”

 Leia um trecho de Amanhã não tem ninguém

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