Água por toda parte

Por Alice Sant’Anna
28 de agosto de 2014


© Carol Bennett

© Carol Bennett

Qual é o seu poema preferido? Ele pergunta a ela. Para responder, ela pede sua mão. Com uma caneta de tinta preta, escreve: E-S-T-Á-C-H-O-V-E-N-D-O, uma linha vertical, sobreposta às outras linhas da mão, a própria chuva. Diz que seu poema preferido é do Apollinaire. “Está sempre chovendo se você está triste”, ela explica.

Nadando de volta para casa, de Deborah Levy, é um livro curto e estranho. Cheio de elipses, repetições, cortes secos, idas e voltas no tempo. Dois casais vão passar as férias na Riviera francesa. Quando chegam à casa alugada, há algo boiando na piscina. No primeiro momento, não conseguem identificar: é um urso? Um corpo? Está vivo? Depois veem que é uma menina ruiva, unhas pintadas de verde. Nua. Ela sai da água e diz que é botânica. De onde veio, por que está ali e, sobretudo, por que diabos eles aceitam que ela passe a temporada na casa, com eles?

Kitty Finch foi parar lá porque é obcecada pelo poeta Joe Jacobs. Ela quer de qualquer jeito lhe mostrar um poema que escreveu. “Meu poema é uma conversa com você e com ninguém mais.” O poema longo, dentro do envelope, não instiga Jacobs, que protela ao máximo a hora em que lhe dará o veredicto. Enquanto isso, Kitty morre de ansiedade à espera de uma resposta. O tal poema, é claro, se chama “Nadando de volta para casa”.

 

Nadando de volta para casaA água está por toda parte: na piscina, na chuva, no choro. Chegar em casa, a nado. Difícil não lembrar do espetacular conto de John Cheever, “O nadador”, em que o protagonista se desafia a ir para casa pulando nas piscinas das casas dos vizinhos, nos subúrbios de Nova York. O dia está lindo e o exercício pode celebrar a sensação boa. A rota incomum de um explorador, de um “homem com um destino”, feliz e cansado, com o “coração alto”.

Aos poucos, uma tempestade se arma e uma vizinha se diz preocupada ao saber das notícias recentes. Outro casal, que costumava ser muito gentil, o recebe com alfinetadas. Tudo parece ruir lentamente, de piscina em piscina, até que o desastre se confirma na chegada ao seu destino final, onde ele supunha que encontraria as belas filhas, a mulher, num dia de domingo.

A casa está fechada, vazia.

 

Talvez o livro de Deborah Levy seja sobre a ansiedade, a chuva caindo lentamente, letra por letra, como no poema do Apollinaire, os pingos esparsos no vidro da janela. Um poema vertical, que despenca. Que pede para ser visto, e não só lido: a sua forma é também o que quer dizer, cada gota tem forma de letra.

Ou talvez o livro seja sobre a tal volta pra casa. Kitty, que passou recentemente por uma clínica psiquiátrica e às vezes tem recaídas, repete em diferentes momentos do livro que “a vida só é digna de ser vivida porque temos esperança de que vai melhorar e de que vamos chegar em casa são e salvos”. Ela consegue chegar em casa, afinal? Chegar em casa é que são elas.

 

Il pleut (Está chovendo), de Guillaume Apollinaire:

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“Chovem vozes de mulheres como se estivessem mortas mesmo na recordação. Chovem também vocês maravilhosos encontros de minha vida ó gotinhas, e estas nuvens empinadas se põem a relinchar todo um universo de cidades minúsculas. Escuta se chove enquanto a mágoa e o desdém choram uma antiga música. Escuta caírem os laços que te retém embaixo e em cima.”

☛ Leia um trecho de Nadando de volta para casa, de Deborah Levy
☛ Um exercício de risco: a agente literária Sophie Lewis revela os bastidores da publicação de Nadando de volta para casa

 

Alice Sant’Anna é carioca, autora do livro de poemas Rabo de baleia (Cosac Naify, 2013).

 

TAGS: Alice Sant’Anna, Deborah Levy, Guillaume Apollinaire, Nadando de volta, poesia,

Comentários sobre "Água por toda parte"

  1. Acabei de ler o livro “Nadando de volta para casa” e fiquei com algumas duvidas sobre o fim de alguns personagens e também algumas questões do livro não foram resolvidas…
    Que livro louco e obscuro…
    Afinal o que falava realmente no poema da Kitty, porque o tema do poema era “Nadando de volta para casa” Porque o Joe se matou??

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