“A urgência de si” em Lima Barreto e Arthur Bispo do Rosario

por Luciana Hidalgo
29 de junho de 2017


O escritor Lima Barreto sobrecarregou sua obra de um eu pleno de urgências, transparente demais para críticos de seu tempo. Essa literatura da urgência nada mais foi do que a expressão da urgência de si, de um eu que extrapolava todos os padrões intelectuais, sociais e literários do Rio de Janeiro da belle époque.

Ao ignorar as tradicionais fronteiras entre verdade e ficção, o autor trafegou entre gêneros sem cerimônia nem respeito a cânones, como se a emergência da sua condição tudo consentisse. Assim, essa literatura não camuflava o peso das questões pessoais. Pelo contrário, provocava uma repetição de si que tocava traumas, individuais e nacionais, provavelmente na tentativa desesperada, idealista, de resolvê-los – o que, para parte da crítica, soou como artifício trôpego, mal-acabado.

E essa insistência autobiográfica desencadeada pela urgência é igualmente patente na obra de Arthur Bispo do Rosario. Autor de uma obra de múltipla semiologia, encomendada, segundo ele, pelo Todo-Poderoso, Bispo dizia cumprir uma missão: a confecção de um catálogo do mundo, a representação de tudo o que havia na Terra, feita para Deus, sob ordens de anjos. Ao se afirmar, a certa altura, Jesus Cristo, tentava uma reinvenção de si mesmo, a serviço dos céus, num cubículo com capacidade para um paciente deitado e uma latrina cavada no chão, situado no mais violento pavilhão da Colônia Juliano Moreira (antigo hospício do Rio de Janeiro).

Foi na retidão dessa cela que Bispo desfiou o uniforme azul do manicômio para reaproveitar os fios que cerziriam seus bordados. Do emaranhado de linhas, despontou, em forma de arte, a sua biografia – uma parte autêntica, outra forjada. Compunha-se de uma mistura de escrita de si (anotações pessoais) e ficção de si. Era uma fabulação em torno do eu que prenunciava a sua grande utopia – a criação de um mundo novo: “No meu reino tudo será feito de ouro e prata, brilhante” (ele dizia).

Bispo entrelaçou vida e obra como elementos indissociáveis, mesmo quando, além dos dados reais, acrescentou autoficções aos bordados, estandartes, assemblages e objetos. Pode-se pensar que todo esse trabalho cotidiano, meticuloso, recheado de palavras, nomes, extratos poéticos, funcionou como uma escrita plástica, de sobrevivência ao hospício, assim como Diário do hospício exerceu essa função para Lima Barreto.

No caso de Bispo, a obra, além da motivação claramente religiosa, pode ter surgido e se fortalecido como mecanismo de alforria de um eu partido, de um pensamento cindido – para usar expressão próxima à etimologia da esquizofrenia (do grego: cisão do pensamento). Esse eu, ainda que em fendas, está no epicentro da obra produzida para Deus e mais se assemelha a um enorme caderno pessoal pontuado por notas autorreferentes. Ao pretender englobar representações da Terra, ele deixou entrever fragmentos da sua história. Algo como um livro de vida em forma de bordados.

Trata-se de uma escrita assombrada pelo passado (a memória), com o norte apontado para o futuro (a sua apresentação a Deus no dia do Juízo Final). Um de seus estandartes é todo tomado por uma espécie de planta baixa da Colônia Juliano Moreira, constando o pavilhão Egas Muniz (onde se realizavam lobotomias), o Bloco Médico, a casa do diretor do hospício, os rios e inúmeros detalhes do pequeno vilarejo rural onde funcionou o manicômio nas cinco décadas em que Bispo lá residiu. Percebe-se como a obra é inevitavelmente contagiada pela hierarquizada rotina de psiquiatras, enfermeiros, guardas e pacientes do manicômio. Contém traços da mesma relevância documental-histórica apresentada pelo diário de Lima Barreto.

Importante sublinhar que ambos nutriam altos ideais, aparentemente pouco compatíveis com a realidade, cada qual em sua utopia privativa. Os diagnósticos, entretanto, diferem. Lima chegou a ter delírios alcoólicos, mas não apresentava quadro psiquiátrico, apenas aproximando-se da loucura. Bispo, esquizofrênico-paranoico, teve suas visões rotuladas de delírios místicos e desfiava um discurso em que, por vezes, a fronteira entre fantasia e realidade quase se apagava. Parecia, em vida, habitar o mundo paralelo, criado e miniaturizado por ele.

O que une Arthur Bispo do Rosario e Lima Barreto é, sobretudo, a utilização de
narrativas-limite para a subversão de suas situações-limite. Bispo, ao salpicar bordados e objetos com o fio azul do uniforme do hospício, desconstruía o poder estabelecido, simbolizado pela vestimenta padronizada, e reutilizava a matéria-prima destituída de seu significado psiquiátrico para construir seu ideal. Em boa parte da obra utilizou as mantas da Colônia como suporte (dos estandartes) e as des-simbolizou, assim como num estágio anterior o uniforme havia perdido a sua significação primeira – a imposição de uma regra homogeneizadora da instituição – para ganhar novo sentido.

As assemblages também reúnem materiais institucionais reapropriados: os tênis tipo Conga usados pelos pacientes, as canecas de alumínio surrupiadas do refeitório e todo tipo de sucata do manicômio. A obra era realizada na instituição e extraída da instituição, isto é, do refugo da psiquiatria.

A escrita de si e signos do entorno confundiam-se em harmonia, conferindo à obra, entre outros valores, o de importante documento histórico do hoje obsoleto sistema de hospital para alienados. Uma obra institucional – produzida dentro da instituição – que se traduzia dialeticamente como antídoto à instituição. Uma função similar à de Diário do hospício.

Depois da morte de Bispo, em 1989, sua obra saiu do domínio da instituição psiquiátrica para o circuito internacional das artes plásticas, sendo exposta na França, Estados Unidos, Reino Unido, Itália etc. Foi quando o crítico de arte Frederico Morais o aproximou de movimentos de vanguarda como a Pop Art e o Novo Realismo, comparando-o, por exemplo, a Marcel Duchamp. Isto porque Bispo criou uma Roda da Fortuna que se relaciona com a famosa Roda de Bicicleta do artista.

Pode-se especular que, assim como as vanguardas históricas e as neovanguardas testaram a autoridade repressora da cultura tradicional do museu, desafiando-a – a exemplo das latas de fezes exibidas como arte por Piero Manzoni nos anos 1960 – Bispo acumulou objetos da rotina do hospício em seu quarto-forte e confrontou o poder opressor do manicômio ao representá-lo sucateado, reconstruído a partir do lixo institucional.

Ao utilizar a sucata do hospício para reorganizá-la num inédito universo de signos, Bispo aproveitou a própria natureza daquilo que o feria. Se não era possível combater o mal-estar no manicômio, devia mergulhar nele totalmente, flagrando rotinas, leis, uniformes, para expô-lo e até mesmo, quem diria, refazê-lo.

Inevitável a analogia com Lima Barreto, capaz de empunhar o próprio corpo, doente, desapropriado, como base do testemunho literário contra o poder, quando esteve internado no Hospital Nacional dos Alienados (primeiro hospício oficial do Brasil, situado no Rio de Janeiro). No embate com o universo manicomial, mergulhou totalmente nele, para depois explicitá-lo, documentá-lo, denunciá-lo.

Ao escrever Diário do hospício, o autor também se aproveitou da natureza daquilo que o feria como uma defesa mimética contra o agressor. Ia além do choque, tocava o trauma e produzia uma obra inédita com dados, informações, comportamentos, enfim, com todo o universo de signos da própria psiquiatria. Daí a literatura da urgência revelar-se invariavelmente autorreferente e repetitiva.

A proximidade entre Lima e Bispo pode enfim ser resumida na urgência das frases-sínteses: se o primeiro sentenciou Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que peço dela (em Diário do hospício), o segundo enunciou: Eu preciso destas palavras – escrita (frase bordada num estandarte de Bispo). Para ambos, as palavras eram prementes, utilitários emergenciais. Num estado de exceção, ambos compuseram obras que esgarçaram os limites do cotidiano e o transcenderam.

Luciana Hidalgo é autora da biografia Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto, Lançada em 1996 e vencedora do prêmio Jabuti na categoria Reportagem, e “O passeador”, um romance sobre a vida de Lima Barreto, grande homenageado da Flip deste ano. Luciana é uma das convidadas da Festa Literária Internacional de Paratry e estará na mesa ” Moderno antes dos modernistas”, que acontece no dia 28 de julho, às 12h.

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