A rejeição em estado bruto

Entrevista com Natália Nami
11 de junho de 2014



A escritora Natália Nami cria uma protagonista marcada pela perda e pela ausência de amor em seu segundo romance, A menina de véu. Para Natália, que foi finalista do concurso Contos do Rio, é a necessidade de buscar sentido para a dor que move a sua produção literária. No livro, a autora usa o véu como metáfora da perda e do abandono ao narrar a história de Ligia, uma mulher de classe média que se esforça para atender às expectativas da sociedade, casando-se e formando uma família, mas que vê seu projeto ruir já no altar: o noivo não foi ao seu encontro no dia do casamento. “Ligia é quase a encarnação do abandono, é a rejeição em seu estado bruto”, afirma Natália. Na entrevista abaixo, ela fala um pouco mais sobre o seu processo literário e sobre a construção de Ligia, protagonista que carrega o nome de uma das autoras favoritas de Natália.

Lígia é uma mulher marcada pelo não-afeto, pelo desamor. Qual foi sua inspiração para a criação da personagem?
A personagem leva o nome de uma autora que amo desde menina: Lygia Fagundes Telles, grande contadora de histórias cuja obra sempre esteve muito perto de mim. Um dos temas recorrentes é o desencontro amoroso. Minha Lígia, tão sofrida, encarna também esse desencontro presente na obra da grande Lygia. Daí a dupla homenagem.

A confusão entre o que é ilusão e o que é realidade – quase uma marca de certa loucura – ancora a história de Lígia. Pode falar mais sobre isso e como essa característica se relaciona com seus outros trabalhos?
Também em O contorno do sol a protagonista, Flávia, fica espremida entre o desejo de reinventar a realidade, fugindo, e o momento de ter a coragem de enfrentá-la. Quando o trauma é profundo, é grande a vontade de evitá-lo, de rodeá-lo de longe, como a um bicho feroz. Mas chega uma hora em que o enfrentamento é inadiável e é daí que vem a cura. A ilusão e a realidade podem formar um espaço híbrido, como os retalhos de uma colcha que acabam compondo um todo significativo, acabam se completando e até se auxiliando mutuamente, ao mesmo tempo ficando delimitados pela fronteira da costura. Tanto Flávia quanto Lígia sofreram, mas para ambas há esperança. No caso de Flávia, a mudança vem com a confissão do problema a um amigo, e no caso de Lígia vem com a escrita. É isso que espero que essas duas mulheres possam levar ao leitor: a esperança de mudança para melhor, ainda que após traumas dolorosos.

O abandono, a solidão e os conflitos psicológicos, por sinal, são outras características de A menina de véu. Por que aborda tanto esses sentimentos de desamor, da ausência de afeto?
O sofrimento humano é a grande inquietude do escritor, do artista que sofre buscando dar sentido ao que já o perdeu, como se tentasse redimensionar uma ferida. Quando eu era menina, ouvi uma história impressionante de uma senhora da minha cidade, Barra do Piraí. Ela tinha sido uma moça linda, rica, cheia de pretendentes. Um deles a pediu em casamento, e conta-se que o noivado dos dois foi cheio de preparativos, incluindo-se um belo enxoval. Num determinado momento, porém, o noivo desistiu do casamento e desfez todos os planos. Imagine você o horror, o choque daquela moça. É claro que podemos nos sentir sós e rejeitados sem uma humilhação dessa magnitude, mas o que acredito que sofreu aquela senhora e o que sofre Lígia é quase a encarnação do abandono, é a rejeição em seu estado bruto – se casamento é encontro, se é como, digamos, juntar duas metades de um coração para que ele pulse, então deixar uma das metades de pé aguardando quem não vem nunca mais é largar esse coração sangrando o resto da vida.

Por que a escolha de personagens femininas como protagonistas de sua obra?
Em A menina de véu, em paralelo à voz de Lígia, está a narração sob a perspectiva de uma personagem masculina: Amir. Trabalhar essa dualidade foi interessante, porque os pontos de vista muitas vezes são opostos, conforme nossa própria visão estereotipada do que é masculino e feminino. Lígia é apaixonada e maternal, Amir tem vários filhos e acha tudo muito trabalhoso, que “bebê é tudo igual”, acha normal homem ter amantes. São percepções um pouco estanques e o interessante é ver como essas personagens vão se desviar dos caminhos pré-determinados por seu gênero, sua cultura masculina ou feminina.

A memória é outro fator importante em seu trabalho.  As lembranças estão sempre vindo à tona, mas elas nem sempre são confiáveis… Pode falar mais sobre isso?
Numa de suas entrevistas, Lygia Fagundes Telles diz “A invenção e a memória se misturam muito. É impossível fazer uma separação fria, calculada. A memória é a invenção”. Gosto dessa linha imaginária (nos dois sentidos da palavra), desse limite nem sempre respeitado na vida e na ficção entre as “lembranças confiáveis” e as não tão confiáveis assim. É nessa ilha de lembranças que o escritor vai buscar o seu alimento, sejam elas reais ou inventadas. Penso nessa ilha num dia claro de sol, a maré baixa. Estamos sóbrios e dispostos a revisitar o passado em busca do real – doa a quem doer. Mas pense nessa mesma ilha no final da tarde, à hora da preamar… Essa maré cheia é a invenção invadindo a porção frágil da terra da memória. A memória ficcional está nesse fluxo e refluxo, oscila entre o esto e a vazante…

O sentimento de maternidade é forte e legítimo em Lígia.  Como materializou esse sentimento com tanta verdade?
Acho que a verdade ou a força estão justamente na ausência. Muitas vezes o que não temos é tão imaginado, tão desejado que passa a ser mais real do que o real. Lígia não foi mãe, como também Flávia não foi. No entanto essa lacuna permeia a narrativa das duas, com doses maiores ou menores de dor. Talvez em Flávia essa dor seja mais articulada, mais cheia de raiva e arrependimento os quais ela vai, em vários momentos, manifestar. Já em Lígia a dor é tão profunda que se transformou no outro – encarnou-se em Teresa. Lígia trabalha sua dor, como falei, com mais paciência do que Flávia. Daí a ausência ser mais visceral, transformar-se num ser não só de carne e osso, para ela, mas com personalidade, desejos e frustrações.

O amor é a âncora de A menina de véu. Pode falar mais de como esse sentimento poderoso norteia a criação literária e o seu próprio processo criativo?
Vinicius de Moraes fez um poema para uma fotografia de Luís Carlos Barreto, o “Namorados no Mirante” que diz assim: “Eles eram mais antigos que o silêncio (…) Como duas estrelas que gravitam / Juntas para, depois, num grande abraço / Rolarem pelo espaço e se perderem / Transformadas no magma incandescente / Que milênios mais tarde explode em amor / E da matéria reproduz o tempo / Nas galáxias da vida no infinito. / Eles eram mais antigos que o silêncio…” A foto de dois namorados num mirante, fugazes e eternos. Penso em Lígia e Amir como uma fotografia também – vejo os dois balançando na rede na casa dela em Petrópolis, ambos quase adolescentes, Amir com os planos dele de servir o Exército e ser bem-sucedido como os homens da família para poder ganhar a admiração de Lígia, e vejo Lígia com apenas dezoito anos, a cabecinha cheia de sonhos, mas todos esses sonhos gravitando em torno de Amir. Essa imagem chega a me assaltar o sono às vezes, como se Lígia viesse me cobrar, “E então?” Pois eles não conseguiram ser mais do que isso, essa imagem fugaz do amor perfeito da adolescência que ia durar séculos e séculos e que não escapou da voragem do tempo. Do véu do tempo.

 

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