A rainha dos vampiros e o retorno de Lestat

por Alexandre Sayd
10 de setembro de 2014


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Há seis mil anos uma rainha chamada Akasha, interessada em artes ocultas, sequestrou duas bruxas gêmeas. As bruxas então invocaram Amel, um espírito maligno, que passou a perseguir a rainha e os membros da corte, tentando ferir as pessoas para lhes beber o sangue. Perturbados pela presença do espírito um grupo de nobres apunhalou a rainha, matando-a. Entretanto, enquanto ela morria, Amel correu para beber seu sangue e no processo encontrou um meio de obter o que mais desejava:  carne. Fundiu-se com a alma de Akasha, que tentava deixar o corpo, e voltou para dentro dele transformado em outra coisa.

Assim surgiu o primeiro vampiro do universo de Anne Rice, a escritora americana que se tornou mundialmente famosa como a rainha dos vampiros. Qualquer um interessado no assunto deveria conhecer sua obra.

Em 1976 Anne publicou seu primeiro livro, Entrevista com o vampiro, que recebeu críticas controversas, mas foi um sucesso de público e tem Clarice Lispector como tradutora da edição brasileira. O livro é protagonizado por Louis, uma criatura particularmente sensível para um morto-vivo, que encara a imortalidade sobretudo como um fardo e uma maldição. Mas é seu progenitor e antagonista, Lestat de Lioncourt – orgulhoso, irrequieto, insensato – que acabou dominando a obra e o imaginário de Anne Rice. Entrevista com o vampiro foi adaptado para o cinema em 1994. O filme estrelou Brad Pitt, Tom Cruise, Antonio Banderas e Kirsten Dunst.

Ao contrário das narrativas clássicas do gênero, como o Drácula, Nosferatu e Carmilla, onde os vampiros são os antagonistas, na literatura de Anne Rice observamos o mundo através dos olhos mortos-vivos e imortais.

Talvez o grande trunfo da escritora seja a capacidade de equilibrar opostos tão extremos com tamanha verossimilhança. Os personagens de seus romances estão entre o horror e a beleza, entre a morte e a imortalidade, o homem e a fera, são seres sensuais tão frios quanto cadáveres; e no entanto, suas questões morais e existenciais são tão autênticas que é impossível não acreditar neles. Nas palavras do próprio Louis: “O mal é um ponto de vista. Somos imortais. E o que temos a nossa frente são os ricos festins que a consciência não pode julgar e que os homens mortais não podem conhecer sem culpa. Deus mata, assim como nós; indiscriminadamente. Nenhuma criatura sob os céus é como nós, nenhuma se parece tanto com Ele quanto nós mesmos, anjos negros não confinados aos parcos limites do inferno, mas perambulando por Sua terra e todos os Seus reinos.”

Filha de irlandeses e pertencente a uma família de escritores – sua irmã, marido e filho também são autores –, Anne Rice teve uma formação católica, mas abandonou a igreja nos primeiros anos da vida adulta quando se casou com o poeta Stan Rice e começou a escrever seus romances vampirescos. Entre 1976 e o início dos anos 2000 Anne publicou, algumas vezes sob pseudônimos, mais de vinte livros do gênero de horror e fantasia protagonizando não apenas vampiros, mas também fantasmas, bruxas, múmias e outros seres sobrenaturais.

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Filme Entrevista com o vampiro (1994)

Após a morte de Stan Rice, ela retornou ao catolicismo e deixou de lado o universo das Crônicas Vampirescas para se dedicar a livros de temática religiosa. Publicou Cristo Senhor: a saída do Egito em 2005 e a sequência Cristo Senhor: O caminho para Caná em 2008, sobre acontecimentos fictícios da vida de Jesus durante o misterioso período não coberto por nenhum dos testamentos. A mudança causou divisão entre os fãs, alguns dos quais se sentiram órfãos de suas histórias de vampiros.

Também em 2008, a escritora publicou uma autobiografia chamada Called Out of Darkness: A Spiritual Confession. (ainda sem tradução para o português), na qual fala sobre sua infância, sua família e sua relação com o cristianismo.

Mesmo durante a fase religiosa Anne manteve seu apoio a causas como a legalização do aborto e direitos civis LGBT. Em 2010, afirmando que permanecia fiel a Cristo, anunciou que havia deixado novamente a igreja católica.

A notícia alegrou os fãs das Crônicas Vampirescas, porém eles ainda precisariam esperar mais um pouco… voltando à temática do horror sobrenatural Anne Rice escreveu não sobre vampiros, mas lobisomens. Publicou A dádiva do lobo e Os lobos da invernia, dois volumes de uma nova série que acrescentam mais uma criatura à fauna de seu universo antes de finalmente voltar aos mortos-vivos.

Retomando seu personagem mais frequente após um afastamento de onze anos das Crônicas Vampirescas, a escritora publica em outubro Príncipe Lestat (que será lançado no Brasil em 2015). De acordo com a autora o livro é uma continuação de A rainha dos condenados, o terceiro livro da série, adaptado para o cinema em 2002.

Ainda inédito, não há muito que se possa adiantar sobre ele, mas tratando-se de Lestat, o “quebrador de regras”, devemos esperar uma história de proporções épicas e reviravoltas na trama, narrada no estilo ao mesmo tempo eloquente e sombrio de Anne Rice.

 

Alexandre Sayd é leitor assíduo de fantasia, jogador de RPG e jornalista.

TAGS: A dádiva do lobo, Anne Rice, CINEMA, Crônicas Vampirescas, Entrevista com o vampiro, Os lobos da invernia, vampiros,

Comentários sobre "A rainha dos vampiros e o retorno de Lestat"

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  3. As crônicas vampirescas são demais, sou cristão e adoro, acho que o que é bem feito é para ser apreciado. Conheci O Vampiro Lestat em 1994, e fiquei maravilhado com a escrita de Rice. Não vejo a hora de ler sua volta!

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