A primeira Bienal como autor

por André Gordirro
17 de setembro de 2015


A primeira Bienal do Livro como autor é que nem o tal do primeiro sutiã dos anos 1980: a pessoa jamais esquece. Eu já havia frequentado o evento como público, depois como jornalista, e a seguir como tradutor. Nas três condições, imaginava como seria estar lá como autor — a figura responsável pelor aquilo que movimenta a Bienal, o livro (claro que o livro não sai também sem o exército de editores, revisores, preparadores e outras várias peças do processo; porém, se o tal autor não escrever nada, não existe livro). Comprar livros pode ser feito em qualquer lugar, e até com promoções melhores e sem o perrengue de ir aonde Judas perdeu as meias, porém a Bienal permite a experiência única de vivenciar a literatura como um assalto a todos os sentidos (ok, a audição chega a ser a mais atacada por causa da algazarra infantil; paciência). Há livros por todos os lados, cheiro de livro no ar, novidades, tesouros, velharias. Porém, mais do que uma livraria gigante, a Bienal promove o encontro dos leitores com gente que faz livro — há muitos editores, tradutores, revisores circulando anonimamente para lá e para cá. É um prazer reconhecê-los, elogiar o trabalho, perguntar quando tal livro sai ou não. E há autores, em maior quantidade do que um badalado lançamento em uma livraria da moda. São muitos escritores por metro quadrado, em vários estandes, por vários dias, querendo divulgar suas obras. E na edição 2015, eu finalmente estava lá como autor, defendendo Os Portões do Inferno.

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É uma experiência totalmente diferente do lançamento propriamente dito. Lá o escritor, especialmente de primeira viagem, conta com os amigos — próximos, distantes, frequentes, sumidos —, conhecidos, agregados e quem mais a divulgação trouxer. Porém, na Bienal, todo dia é um enxame de gente nova, que nunca se viu na vida. Há desde aqueles que já sabiam do livro, que foram com o intuito de comprá-lo e se espantam em encontrar o autor ali, disposto a autografá-lo, até os leitores que precisam ser conquistados, que pegam o livro com algum interesse (a capa do Júlio Zartos cumpriu seu dever com louvor), acabam descobrindo o escritor presente e trocam algumas palavras com ele. Óbvio que cada venda é comemorada, representa mais um leitor conquistado, porém há ainda uma recompensa maior: falar da obra sem filtro, olho no olho, diretamente para quem o livro foi escrito. Sim, porque dizem que o autor escreve primeiro para si, mas eu acredito que também escreve para o mundo. Do leitor amigo ao anônimo, todo escritor quer ser lido.

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E foi um contingente especial de leitores que tornou a Bienal do Livro 2015 inesquecível para mim. Eram jogadores de RPG como eu, porém novinhos, todos naquela faixa dos vinte-e-muito-poucos-anos que deixei para trás lá no início nos anos 1990. Tinham o mesmo brilho no olhar, a mesma gana de contar aventuras e sonhar em vê-las publicadas como os grandes clássicos de fantasia. O mesmo sonho que eu tive, e que se realizou em Os Portões do Inferno — a velha campanha de Dungeons & Dragons que virou romance de fantasia épica. Eles queriam saber tudo sobre o livro, se entreolhavam quando ouviam sobre os personagens, se cutucavam comparando com os deles. Mais do que para mim e para os amigos próximos, eu escrevi Os Portões do Inferno para aquela rapaziada, na imodesta esperança que Baldur, Kalannar, Od-lanor, Agnor, Derek e Kyle figurassem na imaginação deles como Aragorn, Conan, Tyrion Lannister figuram na minha (e aposto que também na mente daqueles jovens jogadores). Uma leitora disse algumas palavras lindas e mágicas que não me permito repetir aqui porque ela fez um post privado sobre o livro, mas foram um alento para suportar a jornada de alguns dias de Bienal, bem como combustível para começar logo a escrever o livro dois da série Lendas de Baldúria.

Que venham mais Bienais como autor, com momentos bacanas como esses. Obrigado a quem foi, quem comprou, quem me ouviu, a todos da Rocco, incansáveis na batalha pelos Portões do Inferno (com certeza ralaram mais do que os seis protagonistas). Nos vemos na Bienal de São Paulo, e no Rio novamente em 2017.

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