A paisagem possível

por André de Leones
11 de dezembro de 2014


Caderno_2

Comecei a escrever Abaixo do paraíso em janeiro de 2013. Será o meu quinto romance. Ainda não o terminei e prevejo uns bons meses de trabalho pela frente, revisando, reescrevendo, trocando palavrinhas de lugar, quebrando parágrafos, apagando coisas, alongando outras, no que me lembro de um personagem d’O escritor fantasma, de Philip Roth, definindo o próprio trabalho como escritor: “Eu viro frases pelo avesso, e só.”

Gosto de escrever sobre o que escrevo. É algo que me mantém atento ao que estou buscando, e é imprescindível sobretudo nos estágios iniciais, quando tenho apenas uma ideia vaga da história que pretendo contar e de como farei isso. É um autoquestionamento que não consigo evitar e sem o qual o livro não sai. Antes de chegar às frases, lá estou eu me virando pelo avesso.

Tenho esse caderno no qual, há quase dois anos, comecei a fazer anotações sobre o projeto. Também estão lá os primeiros rascunhos, algumas escaletas, promessas não cumpridas (anotei em 14/5/2013: “Não há flashbacks, nada do tipo. A narrativa deve avançar, dura, sem muitas digressões.”), esboços de personagens, nomes e significados de nomes (Cristiano, Simone, Lázaro, Marta, Paulo, Saulo), citações bíblicas, sinopses, perguntas sem resposta e rasuras de todos os tipos e tamanhos.

As minhas rasuras são muito bonitas, aliás. Ninguém rasura como eu. Não me limito a rabiscar ou riscar, isso é para amadores e relapsos. Eu lanço mão de um pincel atômico preto e oblitero a palavra, frase ou parágrafo, com força, quase criando uma passagem para a Zona Negativa. Acho, inclusive, que escrever um romance equivale a rasurar outros quatro ou cinco que jamais serão terminados, e, no que diz respeito a Abaixo do paraíso, é impressionante como ele foi mudando até se transformar noutra coisa muito diferente da que planejara no começo. O mais incrível é que, nesse caso, a premissa inicial, aquilo que me levou à escrivaninha no dia 31 de janeiro de 2013, bem, ela foi pelos ares.

Sei de algumas histórias aterradoras lá da minha terra natal. Por exemplo, o caso de uma garota se aliando com um funcionário da fazenda para assassinar os pais dela. A ideia era ficcionalizar a partir disso, e trabalhei um bom tempo nesse sentido. Em setembro deste ano, a julgar pelo que anotava no caderno, eu ainda insistia no lance do parricídio. Foi quando o protagonista cuspiu de lado, mostrou o dedo médio para mim e foi noutra direção. Tentei entender o que mudara e, enquanto acompanhava, desfolegado, os novos rumos do personagem fujão, percebi que essa mudança se relaciona com o que eu tenho buscado por meio das histórias que escrevo de uns anos para cá.

Em Terra de casas vazias, no desfecho, o casal de personagens não enxerga a outra margem do Mar Morto. Ela está boiando por ali. O marido, parado à margem mais próxima, fotografa o nada. Ela o chama. Ele não a ouve. A surdez afetiva, acionada pelo luto, permanece. São como os dois lados de Jerusalém. Juntos, formariam uma cidade. Separados, são a lembrança constante e dolorosa do trauma.

Voltando a Abaixo do paraíso, pela forma como abandonei a premissa brutalista e tracei um retorno à casa do pai em vez da destruição desta, é como se eu investigasse a possibilidade de, afinal, quando um personagem chama, o outro conseguisse ouvi-lo. Fico pensando nos versos de uma canção de PJ Harvey: “Dear darkness / Now it’s your time to look after us”, e também “So now it’s your time, time to pay (…) / With the worldly goods you stashed away / With all the things you took from us”.

Nada disso é muito ensolarado, está certo, mas, aqui onde vivemos, tão abaixo do paraíso, acho que passou da hora de tentarmos reaver um pouco do que nos foi arrancado pela escuridão e, com sorte, enxergar o outro ali na margem, que ele possa nos ouvir e nós a ele, afinal. Talvez eu seja ingênuo ou esteja ficando velho e frouxo, mas, não sei, acho que não conseguiria escrever mais uma linha sequer se perdesse de vista essa paisagem possível.


André de Leones
(Goiânia, 1980) é autor dos romances Terra de casas vazias e Dentes negros (publicados pela Rocco), entre outros. Vive em São Paulo. Weblog: vicentemiguel.wordpress.com.

 

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