A literatura fora de si

por Paloma Vidal
18 de junho de 2014


A coleção Entrecríticas partiu de noções como “literatura num campo expandido”, “literatura fora de si”, “literatura pós-autônoma”, “lugar de fora da literatura” – uma série que surgiu e proliferou no campo da crítica nos últimos anos, dispondo um terreno comum de reflexão sobre uma abertura da literatura.

Essa abertura se dá como trânsitoentre a escrita e outras práticas artísticas, como a fotografia ou as artes visuais; ela também renova um diálogo da literatura com o pensamento, numa multiplicidade de ficções-ensaio; e, sobretudo, ela apresenta, de maneira provocadora, o problema da inespecificidadedo literário, já não como falha a ser preenchida, mas como aquilo que poderia dar à literatura uma mobilidade nova para atravessar gêneros, campos, materiais, suportes…

Entrecríticas propõe, então, reunir ensaios de autores que estão pensando essa abertura, de diferentes pontos de vista, para criar um espaço crítico de convívio – e não necessariamente de consenso – que constitui laços entre aqueles que estão pensando a literatura na contemporaneidade.

É inegável a fertilidade desse pensamento na América Latina. Acreditamos que essa situação não se dá por acaso, mas está relacionada com o que Silviano Santiago chamou de “caráter anfíbio”, referindo-se à condição da arte num país como o Brasil; isto é, pensamos que o desafio que se apresenta, aqui, para boa parte dos artistas de fazer da arte, ao mesmo tempo, política está no cerne das saídas, dos deslocamentos, das indefinições – da abertura – que se refletem numa crítica intensamente comprometida com as mutações do presente.

A coleção se inaugura com quatro títulos: Frutos estranhos: Sobre a inespecificidade na estética contemporânea, de Florencia Garramuño; Poesia e escolhas afetivas: Edição e escrita na poesia contemporânea, de Luciana di Leone; Depois da fotografia: Uma literatura fora de si, de Natalia Brizuela; e Literatura e ética: da forma para a força, de Diana Klinger (os dois últimos com previsão de lançamento no segundo semestre de 2014). Cada um deles cria um pensamento próprio que desafia as fronteiras disciplinares: a poesia pensada a partir de uma reflexão sobre os afetos; a literatura vista como prática artística ao ser infiltrada pela fotografia; a teoria vista como campo de forças para pensar o que ainda pode a literatura; a especificidade artística posta em xeque para pensar, ainda, o potencial crítico da arte.

 

Paloma Vidal é escritora, tradutora e professora de Teoria Literária da Universidade Federal de São Paulo. É autora do romance Mar azul e organizadora da coleção Entrecríticas.

 

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