A mulher selvagem que se revelou em mim

por Marianna Portela
26 de fevereiro de 2018


Minha primeira lembrança do livro “Mulheres que Correm com os Lobos” é de vê-lo na criado mudo ao lado da cama de minha mãe em meados dos anos 90, quando eu ainda era criança. A capa me intrigava, com suas cores claras e título chamativo. Lembro de pegá-lo em minhas mãos mais de uma vez e folheá-lo, mesmo que fosse um livro “de adultos”. Minha mãe já havia me dito que dentro dele havia contos de fadas, mas que eu ainda era muito jovem para entender o restante. Por ser sobre contos de fadas, ele me atraía ainda mais, pois desde cedo a vocação de ouvir e contar histórias já despontava em mim.

Minha primeira leitura foi há quase dez anos, aos 22 anos de idade. Foi um primeiro encontro bonito, poderoso. Entendi grande parte do que a Dra. Clarissa Pinkola Estés queria dizer, mas ainda não tão profundamente quanto entenderia alguns anos mais tarde. Naquele momento, o livro serviu para algumas questões fundamentais da minha vida, principalmente no que dizia respeito a relacionamentos afetivos e familiares. Eu, como jovem mulher, ainda não havia experimentado muito do que a autora chama de arquétipo primordial: a Mulher Selvagem.

Pintura de Dimitra Milan

A Mulher Selvagem se revelou em minha vida após uma perda significativa, quando minha primeira gravidez se encerrou abruptamente. As imagens do livro retornaram com toda a força nos momentos mais difíceis e a partir daquele momento o livro virou um guia espiritual e prático, para superação pessoal e autoconhecimento. Nunca imaginei que um livro pudesse ter tanto poder e continuar se revelando a cada leitura. A dinâmica e força dos lobos descrita pela autora passou a ser uma forma de viver.

A partir dessas leituras e das minhas autorrealizações através delas, nasceu o meu projeto de vida. Psicanalista junguiana, Clarissa adentra profundamente nos contos de fada como simbologia para entendermos a alma feminina e os caminhos da individuação. E foi com ajuda das palavras desta grande mestra que entendi que minha missão era levar para outras mulheres as minhas descobertas. Eu já participava de grupos de ajuda mútua para mulheres, de grupos de ativismo para o bem estar e direito da mulher e já estava no caminho da contação de histórias há muitos anos. Depois de muito estudo, preparação e uma longa gestação com o apoio da ONG Casa de Lua, em 2015 nasceu oficialmente o projeto “Histórias Curativas”.

Desde então venho promovendo Encontros de Mulheres, sempre em formato de círculo, misturando a contação de histórias e a minhas experiências terapêuticas para ajudar mulheres a acessar seus mundos interiores, suas dores e fantasmas internos e a elaborar melhor seus entraves, medos e venenos interiores. Os temas abordados nos encontros são inspirados no livro, mas cada vez com conteúdos novos e vivências diversas – desde a busca da criatividade até o combate aos chamados predadores internos e a dependência emocional. As Histórias Curativas são parte de algo importante, que necessariamente perpassa pela colaboração e apoio mútuo entre mulheres: uma ouve a outra e compartilhando histórias conseguimos chegar a resultados poderosos de mudança verdadeira. Sempre acabo “receitando” um capítulo ou história do livro individualmente, como um verdadeiro remédio psíquico. O “Mulheres que Correm com os Lobos” representa exatamente isso para mim e para milhares de outras mulheres: um bálsamo para a alma. Escuto de muitas mulheres que mudanças foram promovidas em suas vidas a partir da leitura.

Não é à toa que cada dia surgem mais trabalhos e grupos de leitura ao redor deste livro e de seus temas: é urgente o resgate que ele propõe. Quem trabalha com e junto às mulheres, sabe o quão necessário é esse “empoderamento feminino” que tanto está em evidência no momento atual, (mas pelo qual lutamos desde sempre) e o quão mal compreendido é o significado dessa retomada do poder da mulher. Esse livro e a partilha da experiência feminina a partir dele permitem que entendamos o real significado do que é a Mulher Selvagem que a autora nos traz, tanto individualmente quanto no coletivo.

Com o passar do tempo, compreendi que este não é um livro que a mulher encontra: ele se encontra com ela. Seja por meio de uma indicação, pelas mãos de outra mulher, como um presente inesperado, lendo um texto que se refira a ele, seja entrando em uma livraria no momento certo e se deparando com ele – talvez não pela primeira vez, mas na hora certa. E isso acontece porque é um livro que não precisa ser só compreendido com nossas capacidades racionais (apesar de sua linguagem às vezes acadêmica, às vezes poética), mas sim com as nossas capacidades emocionais. E essas capacidades tem seu momento certo na vida de cada pessoa (afinal os homens também deveriam permitir a chegada deste livro em suas vidas).

É um livro que, como minha mãe já sabia, deve ser mantido no criado mudo, para consultas repetidas, quase como um oráculo. É impressionante como podemos abri-lo em qualquer passagem e encontrar o conselho necessário para o momento em que vivemos. É impressionante ler uma história e deixá-la agir em nossas vidas aos poucos, mas de forma certeira e profunda. É um livro de longa vida, para a vida inteira.

*Marianna Portela é contadora de histórias, atriz, facilitadora de grupos de mulheres, pesquisadora e estudiosa do feminino sob a perspectiva junguiana. Reside em Berlim, onde conduz seu projeto de Histórias Curativas, além de outras iniciativas para mulheres.

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