A melodia mortal de Pedro Bandeira e Guido Levi

A construção de um romance policial a quatro mãos
10 de maio de 2017


Pedro Bandeira e Guido Carlos Levi são amigos há muitos anos. Tantos que o segundo livro infantil do consagrado escritor, É proibido miar, de 1983, foi inspirado num cachorrinho da família de Guido, à qual o livro está dedicado até hoje. Na entrevista abaixo, eles contam um pouco sobre o processo de criação de Melodia mortal, a primeira parceria profissional da dupla, suas referências e os desafios enfrentados pelo autor de livros infantojuvenis e pelo médico que assinam juntos seu primeiro romance policial.

De que forma surgiu Melodia mortal? Como foi o processo de escrita a quatro mãos?
Somos amigos há muitos anos, ambos gostamos de música e de literatura e, num de nossos papos intermináveis, nasceu a ideia de publicar um livro mostrando algumas descobertas sobre as causas-mortis de compositores famosos, que, à luz da medicina atual, poderiam apresentar diagnósticos bem diversos dos lavrados em suas épocas. E logo veio a ideia de utilizarmos um par de personagens ingleses, um médico e outro famoso detetive… Se essas mortes estão até hoje envoltas em mistério, precisamos de um detetive para dar clima a elas!

Há muitos casos possíveis para Sherlock Holmes. De onde veio a ideia de situá-los no mundo da música clássica?
Conan Doyle criou um detetive muito peculiar, intelectual, talentoso demais e violinista amador. Quem melhor do que ele para imiscuir-se nessa história? Na verdade, do modo como criamos o enredo, as aventuras dele e de Watson aí estão para criar uma introdução agradável às discussões dos médicos ingleses (eles também bem sofisticados e engraçados!) apresentando casos semelhantes às mortes dos compositores que abordamos.

Mais do que retomar os personagens de Conan Doyle, Melodia mortal traz outras referências ao universo da literatura policial e de mistério. Um dos personagens, por exemplo, se chama Montalbano, mesmo nome do investigador dos clássicos romances de Andrea Camilleri – autor para quem, aliás, a música também é um elemento muito importante. Podem contar um pouco de sua relação com o gênero, incluindo influências e preferências?

Ha, ha! Isso mesmo! Nosso livro está cheio de referências literárias, musicais e até cinematográficas! Montalbano é uma delas. Guido é filho de italianos, e desde criança leu inúmeros livros nessa língua. Uma década atrás ele teve seu primeiro contato com Andrea Camilleri, e foi amor à primeira vista. Leu muitos de seus livros não detetivescos, e praticamente todos do Montalbano, além de ter assistido a todos os filmes feitos com esse personagem. Daí a ideia de ter um médico com esse nome, com uma mãe que prepara deliciosos pratos sicilianos, regados por vinhos da ilha.

Mas quem ler com atenção, haverá de divertir-se com outras referências: o próprio título refere ao filme Melodia imortal, com Tyrone Power e Kim Novak, que mostrava a vida do compositor americano Eddie Dushin. E o nome do culpado da história é o nome do ator Cornel Wilde, que representou Chopin no filme À noite sonhamos, frase que o personagem repete em nossa história. E referências brincalhonas como essa não faltam em nosso livro; até os nomes das personagens da aventura na Irlanda (introdução a Tchaikovsky) são os nomes do elenco do filme Depois do vendaval, o filme “irlandês” do John Ford, com Maureen O’Hara e John Wayne. Isso além, é claro, de termos incluído Freud e Bernard Shaw nas aventuras! Notaram que Sherlock sugere a Shaw o enredo de Pigmalion, mais tarde My fair lady?

A popularidade de Sherlock Holmes e John Watson já dura 130 anos e é constantemente renovada – seja no cinema, com os filmes estrelados por Robert Downey Jr., na TV, com a cultuada série da BBC, e, claro, na literatura, com Melodia mortal. Qual seria o segredo dessa longevidade?
Sherlock e Watson, a nosso ver, são personagens clássicos como Don Quixote e Hamlet. E não são nem mais ingleses, são de todo mundo.

Ao fim da leitura, é impossível não pensar em outros encontros da Confraria dos Médios Sherlockianos. Será que o professor Hathaway não encontrou outros manuscritos inéditos de John H. Watson prontos para serem analisados durante fartas e bem regadas refeições em restaurantes europeus? Podemos ter alguma esperança?
E por que não? E por que não? Fazer literatura policial de mistério ambientada no Brasil de hoje é difícil, porque nossos crimes são “investigados” nas delegacias através de tortura, violência, pau-de-arara. E a literatura policial clássica baseia-se em deduções, pegadinhas, inteligência. Por isso, o ideal é continuar usando Sherlock, mas com uma pitada de humor e cinismo brasileiros. Adoraríamos continuar usando a criação do Conan Doyle em novas aventuras, com muito humor.

Agora, uma pergunta específica para o Pedro. Depois de quase 35 anos escrevendo para jovens, Melodia mortal é sua primeira obra de ficção destinada a adultos. Quais são as maiores diferenças e desafios desta nova empreitada?
Escrever é uma profissão e cada público é um desafio que tem de ser profissionalmente enfrentado. A diferença de escrever para diferentes idades é a mesma de falar com representantes dessas diferenças: quando você encontra uma menininha de 3 anos, você fala com ela cheio de diminutivos, de “que gracinha” pra cá, “cadê mamãe” pra lá; se for falar com um adolescente, você vai perguntar qual o time que ele torce, qual sua banda preferida e coisas assim; mas, se encontrar o reitor da universidade, você se empertigará e procurará não errar nas concordâncias e não esquecer os “vossa excelência”. Por sorte, não pretendemos escrever para as “excelências”, mas se elas quiserem ler Melodia mortal, aposto que vão gostar!

Esta vai especialmente para o Guido. Como foi o processo de pesquisa por trás do fascinante processo de dedução científica das causas das mortes dos grandes gênios da música?
Li muito, mas muito mesmo. E vi que havia muitas novidades em relação ao que havia aprendido com leituras passadas. Embora ótimos livros tenham sido de grande auxílio, nunca poderia ter escrito com mais profundidade sem o auxílio da internet. Pois se ela não existisse, dificilmente teria tido acesso à extraordinária gama de informações que ela me ofereceu, como, por exemplo, as descrições das autópsias de Beethoven e Bellini. Mas, confesso que não foi um aprendizado cansativo, pelo contrário, me diverti bastante. Espero que o mesmo ocorra com os leitores.

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