A madeleine suburbana

por Álvaro Costa e Silva
22 de maio de 2015


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Marcelo Moutinho é realista: “Os bares vão morrer”, diz ele, à mesa do Villarino, no Centro do Rio. É quase o título de um livro de crônicas de Paulo Mendes Campos, Os bares morrem numa quarta-feira. Felizmente, meu encontro com ele foi numa quinta.

No livro de PMC (um dos cronistas preferidos de Moutinho), há a referência a um compêndio que deveria ter sido escrito mas ainda não foi: “A história dos bares do Rio de Janeiro”. Seria mais ou menos como “A história dos subúrbios”, que Dom Casmurro pensa fazer enquanto relembra a vida de Bentinho e Capitu.

De certa maneira, com a publicação de Na dobra do dia, seleta de crônicas veiculadas no site Vida Breve e editada pela Rocco, Marcelo Moutinho dá o pontapé inicial tanto na história de nossos subúrbios como também na história de nossos bares ameaçados – não só de morte, também de desfiguração.

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Nesta entrevista, o escritor (fiel aos contos de A palavra ausente e Somos todos iguais nesta noite) discute a crônica hoje, a influência da música e do futebol, o apreço pela infância e memória, e aponta para o futuro da sua ficção.

Crônica

Sempre quis escrever crônica, mas precisava de um veículo. O site Vida Breve me deu essa oportunidade, e a regularidade do texto semanal.

Nos jornais impressos, o espaço da crônica hoje está ocupado mais pelo texto de opinião. O formato clássico da crônica brasileira, do qual me aproximo, sempre esteve mais compromissado com o flagrante urbano, pequenas cenas e personagens, modismos, mudanças de comportamento.

Embora eu também dê opinião nos textos do Vida Breve, preferi levar para o livro o caráter menos temporal, que é o que perdura. São cenas e personagens que não dariam notícia nos jornais, estão fora da pauta, e muitas vezes são mais reveladoras do que estas.

Mas, para fazer isso, o cronista há de bater perna.

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Música

Tenho muitos contos inspirados em canções ou versos de canções, ou mesmo na ambiência de certas sonoridades, e essa relação com a música também está presente nas minhas crônicas. Fica até mais evidente, porque posso falar direto daquele disco que acabei de ouvir ou daquele show a que fui assistir. Por isso você encontra no livro uma crônica inteira sobre rodas de samba, “Os mistérios da roda”, que parte dos tradicionais encontros no Bip-Bip.

Ou, então, surge a figura do Herivelto Martins, cujas composições aprendi a ouvir e apreciar, na minha adolescência, no toca-fitas do Corcel do meu pai. Mas naquela época não fazia nem ideia de quem era Herivelto Martins. Essas lembranças aparecem depois, e se tornam temas para crônicas, quando começo a ouvir de novo, adulto, as mesmas composições. Herivelto é minha “madeleine”.

Futebol

É abordado na crônica “A primeira traição”, episódio clássico de um filho que resolve não torcer pelo time do pai. O meu era Botafogo, a família inteira era, e eu me tornei Fluminense.

Bares

Escolhi para falar de bares que estão ameaçados ou cujo espírito de convivência você não encontra mais. O Villarino, onde nós estamos agora, é um exemplo, e não só porque foi aqui que Tom e Vinicius combinaram a parceria para o espetáculo “Orfeu da Conceição”. Tem características próprias e carrega um peso em sua história de que sinto falta nos bares novos, que são quase todos parecidos e anódinos.

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Da Lapa, escolhi o Bar Brasil, que consegue manter-se tradicional até nos preços em conta. Além do ótimo chope. Outro bar preferido, o Paulistinha, havia sido reaberto, e elogiei a iniciativa num texto. Não deu certo, ele voltou a fechar as portas antes de o livro sair. Mas fica o registro, e a lembrança.

Todos nós vamos morrer, os bares também.  Diante disso, a crônica é uma maneira de dar uma sacaneada na morte.

Memória

No meu caso, é uma quase uma obsessão. Meu primeiro livro se chama Memória dos barcos. A memória, a perda e a morte são os meus temas.

Na primeira parte de Na dobra do dia, reuni as crônicas que mais tem a ver com a memória, pois tratam do tempo em que vivi em Madureira, numa época em que a vida no subúrbio do Rio era bem diferente da de hoje. Um exemplo é a crônica “O braço do pai”.

Havia uma classe média ainda resistente, com um sentido de pertencimento ao lugar muito grande. Meu pai era dono de loja, sócio do Madureira e do Império Serrano. A convivência era total. Isso se perde quando essa mesma classe média vai morar na Zona Sul ou, mais especificamente, na Barra da Tijuca.  E com o êxodo, houve um esvaziamento econômico e cultural.

Eu mesmo fui morar na Barra, e lá era chamado de suburbano. Mas como insisti em continuar estudando no mesmo colégio no Méier, lá passei a ser chamado de play-boy.papo-2

Jornalismo

Aí está aí um personagem! Há quanto tempo você não abre um jornal e tem essa impressão? E a cidade está cheia deles. Nesse caso, a crônica pode ajudar a fazer um melhor jornalismo. E talvez seja uma saída para a crise. Fiz isso no texto “O homem na esquina”.

 Futuro

Quando comecei a publicar, eu tinha a preocupação de não soar tão pessoal, e também de não demarcar ou nomear territórios. Era uma característica da minha geração, que buscava ser mais universal. No fundo, era uma bobagem. Também havia, no meu caso, uma preocupação de “escrever bem” (põe aspas aí).

O livro de crônicas me deu mais liberdade. E já está influindo na minha ficção. Estou na metade de um novo livro de contos e me sinto mais solto.

Por exemplo: as pessoas vivem dizendo: futebol e samba em literatura não vendem. Mas eu gosto de escrever sobre isso. E hoje eu acho, ao contrário do que achava antes, que o escritor não deve embotar o seu desejo.

Três ou quatro cronistas do passado

Machado de Assis, João do Rio, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector.

Três ou quatro cronistas de hoje

Humberto Werneck, Joaquim Ferreira dos Santos, Antonio Prata, Luís Henrique Pellanda.

Álvaro Costa e Silva é jornalista.

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