A escrita no espelho

por Antônio Xerxenesky*
26 de novembro de 2014


O boxeador polaco_detalheHá um rótulo pernicioso que persegue os escritores que cometem o despautério de criar romances ou contos no qual outros romances e contos são mencionados com frequência, ou que, céus, colocam algum personagem a discutir literatura ou a criação literária. O rótulo é de “escritores de escritores”, ou variando a preposição, “escritores para escritores” – ou seja, gente que produz uma ficção que só interessaria aos seus pares. Dados estatísticos confiabilíssimos me informam que cerca de 37,2% da literatura contemporânea se encontra na faixa de risco de receber esse epíteto. Eduardo Halfon, em O boxeador polaco, poderia ser tachado desta maneira após a leitura de seus primeiros parágrafos. Ainda bem que a literatura – ao menos não a verdadeiramente interessante – não se deixa levar por rótulos bobos.

Sim, Halfon escreve metaliteratura, e demonstra grande parentesco com o chileno Roberto Bolaño. Seus contos não fingem que são os primeiros contos escritos na história da humanidade. Pelo contrário, estão cientes de que são inseridos numa tradição, de que uma história dialoga com outra história, um autor vivo se alimenta – às vezes de forma inconsciente – de uma série de fantasmas, escritores mortos que continuam existindo nas páginas dos livros ou na tela dos leitores de e-books.

Em toda escrita metaliterária, há o risco constante de se tornar chato: excessivamente cerebral, perdido em referências. O risco, portanto, de merecer o maldito rótulo. A única saída é usar a própria literatura como uma ponte para o humano – entender que a maneira como enxergamos o mundo é moldada pela ficção; entender que a ficção não é algo que está encerrado em volumes empoeirados na biblioteca, mas que causa um impacto em quem nós somos e como nos comportamos. Dessa forma, falar de livros é falar de pessoas. E os pontos de contato entre o literário e o “real”, as fricções das ficções, acabam se tornando um dos temas mais recorrentes de O boxeador polaco.

O boxeador polaco_capa pequenaComecemos pela epígrafe escolhida por Halfon: “Passei a máquina de escrever para o outro quarto, onde posso me ver no espelho enquanto escrevo”, afirmou Henry Miller. O ato de escrita no espelho como um caminho para uma forma radical do autoconhecimento.

O início do primeiro conto, “Distante”, é exemplar do que mencionei acima. Halfon começa a trama mergulhado em reflexões sobre a poética do conto, seguindo a teoria de Ricardo Piglia. A beleza e a simplicidade das ideias de Piglia cristalizadas em seu famoso ensaio logo são contrastadas com a realidade de uma sala de aula onde quase ninguém parece prestar atenção ao professor. “Desde o mais profundo mutismo me chegou um rumor de cochichos e risos contidos (…) me perguntei se essa merda valia mesmo a pena”, diz o narrador. O mundo literário, bem resolvido em seus romances e ensaios, enfrenta uma barreira para atravessar ao outro lado.

Logo descobrimos que o narrador é alguém chamado Eduardo Halfon, que possui muitas características em comum com o autor do livro que estamos lendo – e este é o narrador/personagem de todo O boxeador polaco. Ninguém será ingênuo de dizer que “o narrador é o autor” – todos sabemos que quando uma história chega ao papel, ela é ficção. O personagem Halfon, portanto, é este professor universitário, desiludido com o “viciado sistema acadêmico”, forçado a dar aula sobre temas que admira – Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant, James Joyce, Flannery O’Connor – para um grupo de estudantes cujos principais interesses são passar de ano, permanecer desperto durante toda a aula, ou seduzir o professor – como é o caso de Annie Castillo.

Este universo nada romantizado do ensino de literatura acaba servindo de contexto ideal para o centro da trama de “Distante”: a relação entre o professor e o aluno Juan Kalel, que se revela um poeta promissor, e que logo desaparece das aulas. Halfon vai em busca de Kalel e o localiza vivendo em condições precárias, em uma cidadezinha rural e pobre do interior. O encontro dos dois representa o maior choque do conto: de um lado está o professor blasé, desiludido com sua vida de escritor de classe média que tenta incutir em universitários o gosto pela literatura; de outro, o jovem poeta que não tem nada a perder, que escreve poesia movido por paixão e nada mais. A trama, que começa em uma chave extremamente racional, com as citações ao ensaio de Piglia, encerra em um tom quase místico. Halfon (o autor) parece reconhecer que as relações entre literatura e mundo não são nada simples, e que seu mergulho no estudo racional dos livros parece tê-lo afastado de algo primordial, que vive e pulsa na figura do jovem poeta.

“Twaineando” dá continuidade ao universo de ensino acadêmico de literatura, com todos seus vícios e problemas que o narrador de Halfon adora ressaltar. “Não gosto de beber com intelectuais”, fala, mas fica claro que isso é algo dito da boca para fora, pois ele parece se sentir entediado com qualquer coisa não literária. No colóquio sobre Mark Twain, Halfon lança um olhar de desprezo para toda uma comunidade científico-literária, mas, no fundo, parece lançar esse olhar principalmente para si mesmo, parte daquela engrenagem, figura impotente na hora de realizar qualquer mudança.

O trabalho que apresenta sobre Twain menciona uma chave de leitura do próprio O boxeador polaco: “Truque cervantino, senhores, de autorreferência por parte do autor.” Não há ilusões na prosa de Halfon; quando elas surgem, logo são explicitadas, desmascaradas.

Se, em “Distante”, o personagem Halfon mostra o afastamento que tem em relação aos alunos e tenta superar, em “Twaineando” exibe o abismo em relação aos colegas. Incapaz de juntar-se a discussões políticas ou de oferecer comentários interessantes sobre a obra de Twain na chave dos chamados estudos culturais, o narrador sente- se isolado, à margem. A literatura não é apenas produto de uma força desmedida, como parecia insinuar o jovem poeta do primeiro conto: ela passa por instrumentos de inserção e validação no meio acadêmico e cultural, instrumentos e atividades que parecem de outro planeta para o narrador.

escritor Halfon. PROHIBIDO SU USO Y REPRODUCCIÓN EN GUATEMALA.

A história curta “Fumaça branca” parece retomar um fio deixado solto no conto anterior: a questão política, da qual o narrador parece tentar fugir, mas que se revela inescapável. Neste conto, um jogo de sedução entre Halfon personagem e uma garota que recém-cumpriu serviço militar obrigatório no exército israelense é marcado por uma tensão político-sexual, em uma dança meticulosamente calculada de atração e rejeição.

“Epístrofe” muda o foco da literatura para a música, mas deixa claro que o assunto é o mesmo: a arte e o indizível. O final do conto, no qual o narrador guarda silêncio, e o seu interlocutor “não disse mais nada e acabamos a comida e as cervejas nesse mesmo prolongado silêncio, esgotados de tantas palavras”, retoma uma certa visão do literário como um espaço quase sagrado que opera de forma não verbal, e o conto como uma maneira de dizer, dizer muito, para chegar ao não dito, ao indizível. É o que Halfon-personagem busca em suas histórias, mas, como já foi mencionado e repetido, as relações entre literatura e mundo não são nada simples.

Por fim, chegamos ao conto que dá título ao livro, “O boxeador polaco”. A história já havia sido anunciada em contos anteriores, dando a impressão de que podemos ler esta antologia como uma espécie de romance fragmentado. “O boxeador polaco” narra um caso supostamente verídico de como o avô de Halfon escapou da morte em Auschwitz. O tom muda bastante, pois não há espaço para o humor recheado de autodesprezo e arrogância que dá a cor das narrativas anteriores em uma história sobre campos de concentração. O “indizível”, tão presente nos outros contos, reaparece aqui com força total – como muitos teóricos modernos apontaram, a Segunda Guerra Mundial foi prodigiosa em “dar fim à experiência”, produzindo horrores impossíveis de serem relatados. É como se o livro inteiro viesse caminhando até aqui, até o indizível máximo, mostrando os limites da ficção, os limites da literatura.

Por sua vez, o “Discurso de Póvoa” que segue é a maneira do próprio autor endereçar estas questões, e refletir com maestria sobre a relação entre realidade e ficção, sobre a tentativa de darmos conta de algo muito profundo por meio dos livros, e sobre o nosso constante fracasso, a única certeza desta tentativa.

* Reprodução do posfácio de O boxeador polaco.

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Antônio Xerxenesky nasceu em 1984, em Porto Alegre. É autor de Areia nos dentes (2008), A página assombrada por fantasmas (2011) e F (2014). Em 2012, foi eleito pela revista Granta um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros.

 

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