A cidade privatizada

Por Samir Machado de Machado
15 de agosto de 2018


Henry Ford não acreditava em pesquisa, somente em experiências práticas. Ergueu uma perfeita cidade americana no meio da selva amazônica para extrair borracha, mas seus técnicos sequer sabiam como plantar seringueiras. Fordlândia terminaria abandonada.

A única coisa mais incrível em toda a história que envolve a criação e o fracasso de Fordlândia é o quão pouco conhecida sua história é no Brasil. O livro do norte-americano Greg Grandin, Fordlândia – Ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva, resgata não somente a história da cidade, mas a história do homem que a construiu sem nunca a conhecer — e que ajudou a moldar o século vinte.

Grandin habilmente separa três contextos: quem Henry Ford foi, o que fez, e por quê fez o que fez. Se você nunca ouviu falar dele antes: sim, é o mesmo Ford que criou os carros Ford — aquele que dizia que você poderia ter o Ford Modelo-T na cor que quisesse, “contanto que fosse preto”. Mais do que isso, criou o conceito da linha de montagem de fábrica, que revolucionou a produção industrial no começo do século vinte. Foi graças a isso que o automóvel deixou de ser um produto feito de modo artesanal, sob encomenda, e passou a ser produzido de forma massiva.

Porém, como muitos notaram (Chaplin dentre esses muitos, no seu Tempos Modernos), havia um problema: a alienação. A linha de montagem consistia em separar e individualizar cada parte do processo, de modo que o operário que torce aquele parafuso não faz ideia de como seu trabalho se encaixa no processo como um todo. Não é exagero quem nota o fio de pensamento alienante que conduz da linha de montagem ao campo de concentração nazista — a industrialização do assassinato, produzida por uma sociedade que cumpria ordens sem ter exata certeza do que estava fazendo. Ainda que Henry Ford fosse admirado por Hitler não apenas por sua visão industrial, mas também por seu aberto antissemitismo.

Construída no final da década de 1920, Fordlândia foi a união de duas visões de Ford — uma prática, e outra utópica. A prática era que, àquela altura, a indústria automobilística necessitava de borracha para seus pneus, e a borracha estava no Brasil. A região Norte vivia o auge do ciclo da extração da borracha, Manaus e Belém eram metrópoles de inspiração parisiense e centros culturais que abrigavam grandes casas de ópera, tudo graças às seringueiras amazônicas. Construir sua própria vila operária no meio da selva era uma forma de ter acesso direto à borracha, sem intermediários.

A visão utópica era que, a essas alturas, Ford começava a se tornar nostálgico das pequenas cidades americanas, anteriores à invenção do automóvel e das grandes fábricas. Ou, como seus críticos perceberam: sentia saudades de um mundo que ele próprio ajudou a encerrar.

Mas Ford não acreditava em pesquisas, aliás, as detestava. Como todo self made man, dava grande valor à sua própria capacidade autodidata, e impunha a experiência prática sobre a pesquisa. Seus técnicos chegaram ao Pará, escolheram um local sem grandes critérios, ergueram uma perfeita cidade americana no meio da selva amazônica, e só então se deram ao trabalho de pesquisar, afinal, como se planta uma seringueira.

Ao menos, Ford tinha dinheiro para comprar tempo. E Fordlândia oferecia salários acima da média, moradias de subúrbio norte-americano e serviços públicos de qualidade. O que deu errado?

O que deu errado foi que os técnicos da Ford não previram o clima do Pará, nem os insetos que atormentavam no meio da selva, nem a inacessibilidade do local, a nove horas de balsa pelo Rio Tapajós. O terreno escolhido não era o ideal para plantar seringueiras. A imposição de hambúrguer e batata frita no refeitório se mostrou impopular para operários que preferiam um bom arroz com feijão.

 

 

 

 

 

 

 

 

O comércio era estritamente controlado, e bebidas alcoólicas eram proibidas: nos EUA ainda vigorava a Lei Seca, que no Brasil não existia. Impor uma legislação estrangeira puritana em terras brasileiras se mostrou complicado. O “jeitinho brasileiro” foi burlar a lei de Fordlândia por meio de rio, balsas se incumbiam do comércio informal.

Mas o que se mostrou catastrófico foi a imposição do cartão-ponto: era praticamente impossível ir e voltar do meio da selva para bater o cartão ponto no horário de almoço, em meio ao calor amazônico e às dificuldades do terreno. E a intransigência da chefia em exigir que o ponto fosse batido com pontualidade gerou conflitos: a população de Fordlândia se revoltou e saiu à rua armada, aos gritos de “morte aos americanos”. A chefia precisou fugir da cidade às pressas.

Fordlândia é considerada hoje uma cidade-fantasma. O livro de Grandin, mais do que um resgate histórico de uma “cidade perdida” incrivelmente recente, é o retrato do resultado de uma mentalidade que ainda hoje nos assombra: o de tentar gerir uma sociedade civil com a mentalidade de uma empresa privada. Afinal, não se pode “demitir” um cidadão quando ele fica insatisfeito com o governo. A não ser, claro, quando já não se está falando de democracias.

TAGS: Fordlândia, Greg Grandin, Samir machado,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados *