30 e muitos anos e outra máquina no tempo

(ou "Como subi na ponte de Einstein-Rosen e me joguei no tempo, agarrado com meus discos") Por: Carlos Albuquerque
18 de janeiro de 2017


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Direto do túnel tempo: Carlos Albuquerque ouvindo um de seus vinis alguns (muitos) anos atrás

É tempo de mudança e de reencontros no Humaitá. Há pilhas de caixotes espalhados pela casa, técnicos entram e saem, paredes são furadas, a geladeira está queimada e a CEG tarda e falha. Sobre o calor, melhor nem esquentar mais com ele.

De repente, ao entrar no quarto, finalmente arrumado, ligar o som (e o ar-refrigerado) e começar a rever bons companheiros – meus antigos discos de vinil –, tenho a impressão de que se abriu uma fenda dimensional, igual àquela no quarto de Karl Bender, protagonista do livro 30 e poucos anos e uma máquina no tempo, delícia pop escrita por Mo Daviau. E, assim como Karl, viajo por ela – não ao encontro de shows perdidos no passado, não, infelizmente nada tão fantástico. Viajo apenas pelas memórias que cada um desses discos me traz. Isso já me basta.

Não ouvia (falar de) alguns desses companheiros havia bastante tempo, bem mais do que poderia imaginar, afinal, fomos muito ligados durante diferentes momentos da vida. Mas, por motivos variados, tenho tido mais contato com os novos, os recentes, os urgentes – Kendrick Lamar, Flying Lotus, Congo Natty, Russo Passapusso, Hollie Cook etc –, todos fresquinhos em seus encartes brilhantes e seus sulcos ainda pouco percorridos. Eles levam vantagem porque nostalgia nunca foi exatamente música para meus ouvidos. Sua desvantagem: pouca memória acoplada. Ainda não sonho através deles. Nem sei se vou sonhar um dia.

Encontro a velha guarda – quase toda prensada, digo nascida nos anos 70 – ainda em bom estado físico, apesar das embalagens, em vários casos, estarem em petição de miséria. Lembranças analógicas têm disso: acumulam poeira, perdem o viço, mas seguem rodando.

De cara, revejo Jean-Luc Ponty, francês de poucas palavras, mas cujo violino elétrico, em álbuns instrumentais como “Enigmatic ocean” (1977) e “A taste for passion” (1979), me transportava para direitas mágicas em alguma praia distante do Pacífico Sul, numa época em que a paixão pelo surfe era mais constante e a mente do garoto de 17/18 anos, olhos fechados e fones de ouvido, reproduzia imaginários print screens de páginas e mais páginas da Surfer magazine. Não temos mais tanto em comum – até porque minhas duas pranchas, transferidas para o quarto dos fundos, seguem acumulando poeira – mas me surpreendo ao ver que Jean-Luc tem poucas rugas. Ouço os dois discos inteiros, sem interrupções.

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Frase do livro ’30 e poucos anos e uma máquina do tempo’, de Mo Daviau

Nada de plásticas também em meu xará, Carlos Santana e seu “Abraxas” (1970), que nunca ficou, na verdade, desaparecido. Mesmo nos casos de superlotação de prateleiras, sempre soube onde o disco estava. Foi, possivelmente, aquele que mais ouvi na vida. A devoção por funk, soul, jazz e ritmos latinos veio dali, principalmente de tanto rodar o lado A, na sequência que ia de “Singing winds, crying beasts” a “Incident at Neshabur”: a guitarra gemendo, em longas notas, acompanhada por uma caliente camada percussiva, num groove sensual e pigmentado que eu não encontrava no rock em geral. Impresso atrás da hipnotizante capa, que traz o desenho surrealista do artista alemão Mati Klarwein (1932-2002), o slogan dá um importante recado ao futuro: “Disco é cultura”.

Disco era também um mergulho por cidades no fundo do mar (ah, a fantasia), filminho que sempre criava na mente – na época, intocada por qualquer substância alteradora – enquanto ouvia psicodélicas faixas como “Dança imaginária”, “Meu anjinho” e “Sonhos e delírios”, de “E agora para vocês… suingues tropicais” (1979), subestimado trabalho de Robertinho de Recife. Curiosamente, muito mais tarde, ao entrevistá-lo, já como jornalista profissional, descobri que ele também se chama Carlos Albuquerque. Mas não falei nada sobre cavalos marinhos. Carlos podia não entender o Albuquerque.

Avanço pelas profundezas da fenda com “Wish you were here” (1975), do Pink Floyd, outro antigo campeão de audiência, a bela capa branca com design do coletivo Hipgnosis já toda rasgada e suja. Ele traz mais lembranças de estranhos devaneios adolescentes – no caso, em torno de uma mitológica Califórnia, que hoje me parece ingênua, boba. Para esse disco – ainda excelente – acredito que o sonho acabou. Mas como foi bom o seu encanto.

Passo por “Stephen Stills live” (1975), “Led Zeppelin III” (1970), “Hotel California” (1976), dos Eagles, “Aja” (1977), do Steely Dan, e chego, enfim, às regiões abissais com a compilação “Gimme shelter” (1971), dos Rolling Stones, o primeiro disco de rock que entrou na minha casa. À medida que as músicas avançam nas MK2, de vez em quando tropeçando num arranhão, vou me sentindo como em uma cena alternativa de “Forrest Gump”. Ativada pela endorfina, a mente parece criar flashbacks, imagens granuladas, como saídas de um filme em Super-8. Curiosamente, encontro também uma antiga edição especial da revista científica New Scientist, dedicada à música, com um artigo que mostrava como ela é capaz de criar inúmeras ilusões no cérebro humano.

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“Gimme shelter”, dos Rolling Stones, entre os vinis que o jornalista reencontrou em meio à mudança

No meio desse blockbuster particular, vem à cabeça a figura de Nelsinho Laranjeiras, cabeludo baixista do cultuado grupo Veludo, que morava no terceiro andar do prédio onde cresci (duas janelas acima, no 501). Acreditava que ele tinha me dado “Gimme shelter”, fato que transformou minha vida para sempre. Agora, porém, começo a pensar que Nelsinho apenas me emprestou o disco.

Mas se pudesse, de fato, atravessar as pontes de Einstein-Rosen – hipotéticos atalhos no espaço-tempo, explicaria a física Lena Gedulgid, outra protagonista do livro – e voltar para devolvê-lo ao dono, que, aliás, nunca mais encontrei, bem, talvez não tivesse despertada a paixão pela música. Talvez não tivesse comprado tantos discos. Talvez não tivesse virado jornalista para escrever sobre música e discos. Talvez nem tivesse escrito tudo isso aqui, enquanto espero a menina chegar.

*Carlos Albuquerque é jornalista.

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