Bem-vindos a Orïsha

4 de outubro de 2018


Há algum tempo os leitores têm sentido uma mudança significativa tanto nas estantes das livrarias como nas listas dos mais vendidos. Ainda é tímida essa mudança, mas cada vez mais mostra a tendência a uma maior diversidade. Personagens gays, lésbicas, transexuais, gordas começam a povoar as páginas dos livros classificados como young adult. E uma nova “onda”, que na verdade é antiga, mas chega até nós com certo atraso, são os livros que trazem protagonistas negras. Nomes como Octavia Butler, N. K. Jemesin, Nnedi Okorafor começam a pipocar nas estantes, e uma nova geração chega com tudo mostrando que veio para conquistar o público jovem adulto. Angie Thomas é um exemplo, cujo livro, O ódio que você semeia (trad. Regiane Winarski para a Galera Record), em breve estreará no cinema. E Tomi Adeyemi aterrissa no Brasil com seu Filhos de sangue e osso, o primeiro livro da série O legado de Orïsha, uma aventura com tudo o que temos direito: lutas, magia, reis, animais estranhos e… divindades inspiradas nos orixás.
É isso mesmo: deuses negros.
A Nigéria dos pais de Tomi Adeyemi deu à escritora de 24 anos a inspiração necessária para a criação de Orïsha, um mundo imaginário governado por um rei que varre do mundo a magia, e com ela seus guardiões, os maji. Essas mulheres e homens têm poderes que compartilham com seus deuses-irmãos, cujos nomes não são estranhos ao público brasileiro: Oya, Iemanjá, Xangô, Oxumaré, entre outros. Em seu sangue corre o às̩e̩, a energia vital e mística responsável pela ligação dos humanos com os deuses. Porém, em uma ação chamada a Ofensiva, o rei extermina com a maioria dos maji já desenvolvidos e rompe o elo que une seres humanos e deuses, desaparecendo com três elementos mágicos. Onze anos depois da Ofensiva, no entanto, um desses objetos mágicos reaparece, um pergaminho antigo que consegue despertar o poder dos divinais, os descendentes diretos dos maji.
Mas não foi especificamente na Nigéria que Tomi teve a ideia para a trilogia “O legado de Orïsha”: “Eu estava em Salvador quando descobri os orixás. Iemanjá, Xangô, Oxóssi e Oxum, diante de mim em azulejos pintados, lindos, sagrados e negros. Instantaneamente, minha mente foi transformada. É uma honra ter meu livro publicado no lugar onde esta aventura começou para mim, e minha única esperança é que o incrível povo brasileiro curta o livro!”. Esse contato com a mitologia da África Ocidental deu à autora as ferramentas necessárias para uma grande aventura com duas mulheres protagonistas e um antagonista.
Em Filhos de sangue e osso, acompanharemos as aventuras de Zélie Adebola, filha de pescadores que teve a mãe, uma poderosa maji de Oya, assassinada durante a Ofensiva, quando ela ainda era criança. Onze anos depois, ela se vê às voltas com aulas de defesa pessoal, com os cuidados com o pai doente e a batalha diária pela sobrevivência junto de seu irmão, Tzain. Temperamental, Zélie acaba causando problemas na aldeia e precisa ir até Lagos, a capital do reino de Orïsha. Lá encontra Amari em um momento muito atípico: a princesa de Orïsha está em fuga. E quem está atrás dela? O príncipe Inan, herdeiro legítimo do trono e capitão da guarda real. Aqui está montado o trio que conheceremos no livro, cada qual com suas características e vozes, e esse foi um desafio para a tradução.

 

Cada passo, uma decisão

Filhos de sangue e osso é um daqueles livros que escolhem quem vai trabalhar com ele. No meu caso, ele foi um presente. Sou negro, adepto não iniciado do candomblé e amo a mitologia iorubá, com seus deuses e simbologias que personificam a natureza e suas forças, que são a base do candomblé. E o livro de Tomi Adeyemi traz a essência dessas forças em suas páginas. Porém, não foi uma tarefa fácil, apesar de o livro não ter dificuldades além das já conhecidas por mim ao lidar com outros livros de fantasia: a construção de um mundo diferente do nosso (worldbuilding), com animais, plantas, acidentes geográficos, intempéries e outros elementos que não existem em nosso planeta.
No entanto, houve duas características do livro que exigiram uma estratégia bem pensada: os trechos e palavras em iorubá, a língua compartilhada pelo povo de Orïsha antes da Ofensiva (e também língua oficial na Nigéria e língua ritual do candomblé), e as três vozes que se revezam no livro: a de Zélie, Amari e Inan.

O iorubá

A primeira característica pareceu, num primeiro momento, fácil de resolver: eu copiaria os trechos em iorubá e deixaria as palavras estranhas ao nosso idioma do jeito que estão, sem nenhum destaque, como parte integrante do restante do texto. Até que deparei com a palavra ashê, uma transliteração da palavra iorubá. Em português, chegaríamos facilmente à “axé”, mas as acepções mais populares da palavra remetem ao estilo musical baiano e também a energias boas, ou as famosas “good vibes”. Mas axé é mais que isso, inclusive no livro de Tomi. É a energia vital que liga os seres humanos aos deuses, necessária não apenas à vida, mas também a todo ritual que envolva as divindades. Então, percebi que outras palavras tinham transliterações vindas da santeria cubana e mesmo do iorubá simplificado (como Ochumare, Ochosi etc.).

Assim, resolvi padronizar tudo que estivesse em iorubá no livro da forma como se grafa na língua oficial. Mas não sem antes consultar a editora e a autora: ambas foram extremamente compreensivas e apoiaram minha decisão. Assim, me lancei sem medo nessa língua tão exótica, que por vezes me tocou o coração, pois algumas dessas palavras eu já conhecia da religião. Aprendi tantas outras e, por mais que essa decisão tivesse aumentado um pouco a dificuldade da tradução – dificuldade física mesmo em buscar os caracteres adequados para o texto, copiá-los e colá-los onde havia mudanças –, acredito que trouxe ao livro mais um toque de verossimilhança, um sabor diferente. Para quem tiver interesse, incluímos um guia de pronúncia do iorubá ao fim do livro.

As três vozes do livro

Como já mencionado, três vozes dividem espaço no livro: a da protagonista, Zélie Adebola, a temperamental filha de pescador; a da segunda protagonista, Amari, a delicada e frustrada princesa de Orïsha; e a de Inan, o ambicioso príncipe-herdeiro dessa terra, que não mede esforços para agradar a seu pai. Não são apenas três vozes, mas também três visões de mundo, expectativas, agruras e dúvidas distintas que permeiam o texto. Por isso eu precisava de alguma forma diferenciar esses três personagens de forma que a pessoa que leia não sinta uma padronização do texto que Tomi trabalhou tão bem. E isso exigiu algumas decisões, não muitas, mas cruciais para o bom andamento da tradução.
Busquei essa dicção diferente de uma forma simples: a escolha de estruturas sintáticas e vocabulário dos personagens e de alguns cacoetes dentro do texto. Um exemplo: Zélie é a filha de um pescador, logo seu entorno é muito mais informal. Assim, optei por manter um vocabulário e estruturas mais simples nas partes de Zélie e de todos que estavam ao seu redor, no mesmo nível social. Já Amari e Inan, princesa e príncipe, tiveram uma educação mais rígida e formal, e enfatizei esse fato com o uso de um vocabulário um pouco mais elevado, mas não a ponto de se tornar empolado demais.
Uma regra básica de toda tradução de livros para jovens é: não subestime o leitor. Nunca simplifique o texto tendo em vista o público-alvo menos experiente, pois, se o autor usou palavras ou expressões mais difíceis em um determinado momento do texto, ele teve motivos para isso, e nada mais justo que respeitarmos essa decisão. Nem pratique censura prévia com base em suas concepções de mundo. A tradução em si já constitui uma mudança radical do texto, é muito mais que a transposição de um idioma ao outro; antes, uma transposição cultural, por vezes geracional. Em muitos pontos de Filhos de sangue e osso, por exemplo, há violência em níveis bem elevados. Foi a maneira que Tomi criou para representar a violência contra o povo negro norte-americano e mundial, os abusos e desmandos das classes dominantes. Não é gratuito, por isso nosso esforço precisa ser de emulação dessa realidade.

A experiência

Toda leitura é uma vivência que levamos ao leitor, e, para que ela seja bem-sucedida, precisamos nos atentar em recriar a experiência mais próxima à do leitor da língua-fonte, ou original. No caso de Filhos de sangue e osso, o estranhamento para o público brasileiro será muito semelhante àquele do público norte-americano: um ambiente negro com uma aventura de tirar o fôlego, um idioma estranho e situações muito diferentes retratadas em um livro. Pois também estamos acostumados àquela visão eurocêntrica das fantasias. Por isso será um choque ter uma realidade de inspiração africana povoando esse livro, que já é um sucesso mundial. Espero de coração que o público brasileiro também acolha a trilogia com o carinho e a empolgação que o restante do mundo o tem recebido.

Petê Rissatti nasceu no propício Dia Nacional do Livro. Bacharel em Letras com Habilitação em Tradução Interpretação Inglês-Português (UNIBERO) e especialista em Tradução Alemão-Português (USP), traduziu mais de setenta obras de ficção e não ficção. Para a Rocco Jovens Leitores traduziu Nuvens de ketchup, de Annabel Pitcher, Meu coração e outros buracos negros, de Jasmine Warga, e Crave a marca, de Veronica Roth, entre outros.
[Este texto é uma versão do texto publicado na revista Literatura ¬– Conhecimento Prático, ed. 79 – Editora Escala]

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