WALY SALOMÃO

O AUTOR

– O que é que você quer ser quando crescer?

– Poeta polifônico.

Waly Dias Salomão nasceu em 1943, em Jequié, Bahia, filho de pai sírio muçulmano e mãe beata sertaneja baiana. Sua obra Algaravias: Câmera de ecos ganhou o prêmio Alphonsus de Guimarães, da Biblioteca Nacional (1996), e o Jabuti, na categoria poesia, da Câmara Brasileira do Livro (1997). Preparou com Ana Duarte a obra póstuma do amigo e poeta piauiense Torquato Neto, morto em 1972, Últimos dias de Paupéria. Organizou e editou Alegria, alegria, de Caetano Veloso, e, com Lygia Pape e L. Figueiredo, Aspiro ao grande Labirinto, livro póstumo do artista plástico Hélio Oiticica, um de seus melhores amigos.

O primeiro livro de poemas, Me segura qu’eu vou dar um troço, foi lançado em 1971. Os poemas presentes no título de estréia foram escritos durante a temporada na prisão, rabiscados na cela que ocupava no Carandiru. A diagramação ficou por conta de Hélio Oiticica. A partir da década de 70, o poeta se tornou uma referência constante na produção artística do país. Criou, junto com Torquato Neto, a emblemática revista Navilouca (1974), marco da poesia alternativa (marginal) brasileira.

Também flertou diversas vezes com a MPB, realizando trabalhos em parcerias com nomes como Caetano Veloso, Antonio Cicero, Lulu Santos, João Bosco e, mais recentemente, Adriana Calcanhoto. De Gal Costa, dirigiu, em 1971, o espetáculo Fa-Tal Gal a todo vapor, marco na carreira da cantora. A voz de uma pessoa vitoriosa, Mel e Talismã tornaram-se grandes sucessos na voz de Maria Bethânia. Aproximou-se ainda do rock, produzindo, em 1997, o disco e o show Veneno Antimonotonia, para Cássia Eller. A canção Vapor barato, escrita por ele, e musicada por Jards Macalé, hino de uma geração na voz de Gal, virou sucesso novamente, impulsionada pelo filme Terra estrangeira, de Walter Salles (1995), e pela regravação da banda O Rappa, em seu segundo CD (1996). Uma de suas últimas composições foi Cobra coral, que Caetano gravou em Noites do Norte (2000) .

No cinema, em 2002, Waly viveu o poeta Gregório de Matos, em filme homônimo da diretora Ana Carolina. No elenco estavam também Rodolfo Bottino, Ruth Escobar, Marília Gabriela, Xuxa Lopes, entre outros. No início de 2003 foi nomeado Secretário do Livro e Leitura pelo ministro da cultura, Gilberto Gil. Inquieto e efervescente por natureza, estava cheio de planos para o setor que ajudara a criar. Mas só ficou a frente do cargo por quatro meses. Vítima de um câncer no intestino, ele morreu na manhã do dia 5 de maio daquele ano, no Rio de Janeiro, aos 59 anos. O corpo foi velado na Biblioteca Nacional e cremado no Cemitério do Caju, ambos no Rio de Janeiro. O poeta era casado com Marta Braga, com quem teve dois filhos: Khalid e Omar, este último também poeta.

Sempre provocador e remando contra a maré do consensual, gostava de entrar em choque com o que chamava de “vidinha literária”, e, a cada dia, continuava buscando o novo, de novo: “Criar é não se adequar à vida como ela é”. Afirmava que “a memória é uma ilha de edição”. Em Lábia, por exemplo, livro que marcou a estréia de Waly Salomão na Editora Rocco (1998), continuou a investir no trabalho de corte e colagem, através do qual fez um cuidadoso reprocessamento poético de diversos elementos: da violência à tecnologia, da catarse à serenidade. “Meus títulos sempre são uma provocação, uma isca para o leitor. Minha poesia está cada vez mais construída e elaborada – e menos montada sobre a verve verbal. Me considero quase a antítese da escritura automática dos surrealistas”, afirmava.

Do poeta, a Rocco já publicou, além de Lábia, os livros Tarifa de embarque (2000), O mel do melhor (2001), Hélio Oiticica – Qual é o parangolé? (2004, reedição), Pescados vivos (2004, inédito póstumo) e Armarinho de miudezas (2005, reedição póstuma), e, agora em 2007, reedita o livro Algaravias: Câmara de ecos.

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