Em primeira pessoa

As vantagens invisíveis de ser você mesmo

por Helena Gomes
28 de julho de 2016


Suicídio.

Uma palavra temida e preocupante apenas por ela mesma.

Se na vida real traz sofrimento em tantos sentidos, na ficção é um recurso – e dos bons – para os autores. Que o diga Jasmine Warga em seu romance de estreia, Meu coração & outros buracos negros.

A autora norte-americana foi além da utilização do tema como costumeiro ponto de partida ou de encerramento ao transformá-lo em fio condutor e quase um personagem em sua história. Nela, a jovem e problemática Aysel não aguenta a própria existência e não consegue se comunicar nem consigo mesma.

Um dia, Aysel descobre um site de suicídio, onde pode encontrar um parceiro para ajudá-la na empreitada de tirar a própria vida. É quando conhece Roman, um rapaz que carrega uma tremenda culpa e que precisa da jovem para também se matar.

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Claro que a autora trilha um caminho de descobertas para os dois personagens, com um influenciando o outro e sendo valorizados nesse processo todo. Há uma história sensível e bem contada, a esperada corrida contra o tempo no final, reflexões sobre o cotidiano e as perguntas que nos perturbam desde o início da Humanidade: quem somos de verdade? Para que seguir padrões impostos nas escolhas que deveriam ser nossas? Por que a nossa individualidade não é respeitada?

Somos seres únicos, certo? Diversos entre si em contextos diferentes, culturas e personalidades próprias. Então por que a diversidade costuma ser tratada com intolerância e preconceito?

Não existem respostas simples. Aliás, sempre desconfiei de pessoas inflexíveis, que não se questionam, que acreditam ter opinião formada e certezas sobre tudo. Não há nada que desconheçam? Sério mesmo? Ou será que demonstrar tanta segurança só esconde inseguranças?

Por isso gostei tanto do Charlie, o adolescente sensível, questionador e considerado esquisito em As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky. Ao contrário da adaptação do livro para o cinema, a questão do suicídio não se faz tão presente na trama. Está lá, sim, mas como um detonador para as primeiras reações do personagem nas cartas que escreve a uma pessoa desconhecida. É, o livro só traz essas cartas, o que o torna no mínimo diferente e intrigante.

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Com essa estranha liberdade que temos com quem não pode nos ver nem interagir conosco, Charlie vai narrando sua vida, as dúvidas que o atormentam. Ele é ingênuo, vê as pessoas com olhos de criança muitas vezes, tem imensas dificuldades para se relacionar.

E é nesses momentos singelos, com suas perguntas e principalmente sua interpretação peculiar dos seres humanos, que o personagem nos mostra que sair do óbvio nos apresenta tantas possibilidades de nos conhecermos melhor e de compreendermos quem está ao nosso lado.

Porque descobrir quem somos e que marcas deixamos no mundo faz parte das ações humanas. E na literatura, essa forma de arte que expressa tanto sobre nós mesmos, o suicídio também encontra seu espaço como tema para nos fazer refletir sobre a nossa própria realidade.

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(*) Helena Gomes é jornalista, professora universitária e autora de mais de 40 livros, inclusive obras finalistas do Prêmio Jabuti e reconhecidas com o Selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Pela Rocco Jovens Leitores, já publicou Assassinato na Biblioteca, Lobo Alpha, Código Criatura e Conexão Magia (esse em coautoria). É autora também de uma das séries pioneiras da literatura fantástica brasileira, A Caverna de Cristais. Mais informações em http://helenagomes-livros.blogspot.com.br

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