Artigo

Afinal, o que é esta tal de “sick-lit”?

Alexandre Moreira escreve sobre esse gênero que rompe com o silêncio dos traumas adolescentes
2 de agosto de 2017


Os livros desse gênero literário têm como público-alvo jovens e principalmente adolescentes. Em suas narrativas, personagens enfrentam diferentes dramas psicológicos. Em 13 reasons why, temos a questão do estupro e o suicídio; A culpa é das estrelas fala sobre romance e a situação delicada de jovens em doenças terminais; As vantagens de ser invisível, por exemplo, relaciona a depressão, os traumas da infância e a importância da amizade. Isso só para citar alguns exemplos mais famosos.

Esse tipo de tema também é brilhantemente trabalhada no novo lançamento da editora Rocco. É importante ressaltar um fato: o livro foi escrito por Adam Silvera, um jovem que mora no Bronx (EUA), ou seja, há um lugar de fala importante para pautas de representatividade. Lembra aquela vez conta a história de Aaron, um jovem que mora na periferia de Nova York. Muito além das críticas sociais presentes na obra, o livro nos leva a refletir sobre diversas questões latentes durante a adolescência, principalmente a construção da identidade de gênero.

No pulso, Aaron carrega a marca da sua tentativa de suicídio motivado pela morte do próprio pai. Já recuperado de uma fase pior, Aaron restabelece seu namoro com Genevieve, consegue um trabalho em uma loja do bairro e volta a se relacionar com seus vizinhos e amigos do conjunto habitacional onde mora.

Tudo muda quando entra no jogo o jovem Thomas por quem Aaron cria uma forte amizade. Essa aproximação e a própria personalidade de Thomas fazem com que Aaron redescubra sua sexualidade e em meio a tantos outros conflitos que começam a aparecer em sua vida ele pensa em recorrer ao Instituto Leteo para obter ajuda. Leteo, que tem seu nome do rio Léthê do mundo inferior grego, é uma organização médica que desenvolveu um procedimento capaz de alterar memórias de uma pessoa. É a partir do envolvimento com o Instituto que Aaron descobre já ter realizado o procedimento. Com isso, ele parte em busca de entender quem ele é realmente e principalmente entender como encontrar a felicidade em meio a tantos medos e incertezas.

Há quem questione a abordagem destes temas polêmicos e tabus para um público “tão jovem”, mas convenhamos: ninguém mais vive em uma bolha (e que bom que não!). A importância da literatura tocar nestas discussões é de vital importância para que, cada vez mais, esses assuntos sejam pautas de trabalho e pesquisas dentro de espaços educativos como escolas, clubes de leitura, centros culturais e outras instituições que recebem jovens e adolescentes para formações e atividades recreativas.

O gênero sick-lit rompe com um silêncio fatídico sobre diversas crises e questionamentos que jovens passam pela adolescência. Se os pais e a escola não falam sobre isso, é ótimo que alguém abra este canal de diálogo. E, se não outro, que seja a literatura. Ignorar estes problemas não faz com que eles sejam resolvidos, principalmente porque têm raízes sociais e médicas envolvidas.

Essas obras colocam em pauta o que para muitos é “frescura da idade”, de forma muito madura e delicada. Para isso, projetam o leitor no lugar desses jovens – muitas vezes sem ajuda alguma da família ou amigos. Com isso, temos não apenas uma representatividade importante do que de fato é “ser jovem” para muitos adolescentes, como começamos a olhar para uma lacuna na discussão de temas tidos como tabus na sociedade.

É complicado e muito mais desafiador exigir compreensão e respeito com a diversidade humana se essa diversidade não é evidenciada no dia a dia do jovem, se essa pluralidade de pessoas e situações não está no repertório cultural e social dele. E é por isso, principalmente, que livros deste gênero são cada vez mais necessários.

*Alexandre Moreira – educomunicador, potterhead, colunista do Portal Caneca, amante de livros e entusiasta de todas as formas de amor.

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