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Traduzindo às gargalhadas

A esperta e petulante Ivy Pocket segundo o tradutor Cláudio Figueiredo
15 de maio de 2017


 Traduzir pode ser um ofício solitário – meio melancólico, às vezes. Rir sozinho não costuma ser muito frequente. Gargalhar, então, muito menos. Portanto, quando minha filha me ouviu rindo enquanto eu batucava no teclado, ficou intrigada. Afinal, não se espera que alguém dê gargalhadas enquanto traduz tabelas comparativas de conteúdos curriculares de escolas de Cingapura e do México.Pois, que ela soubesse, eu andava atracado com um grosso volume altamente técnico, comparando políticas educacionais de países de várias partes do mundo. Mas já tinha terminado aquilo e andava agora ocupado com algo totalmente diferente. Curiosa, ela esticou o pescoço por cima do meu ombro para espiar o monitor.

Na tela, deu de cara com o olhar atrevido – petulante mesmo – de uma figurinha de nariz empinado, incrivelmente metida – Ivy Pocket – como aparece nas excelentes ilustrações de Barbara Cantini para o personagem criado por Caleb Krisp. Era ela – aquela pirralha – a culpada pelas minhas gargalhadas.

Entra ano, sai ano, as livrarias de todo o mundo são invadidas por novas levas de personagens disputando o mercado infantojuvenil. Essa trupe barulhenta tem pela frente uma missão quase impossível: capturar a atenção de um público esquivo e irrequieto, caprichoso e exigente. Mesmo baixinha, nossa Ivy Pocket – provavelmente dando pulinhos e abrindo caminho com os cotovelos, como seria do seu feitio – se sobressai com facilidade em meio a essa multidão de candidatos a herói. Na verdade, ela está mais para uma anti-heroína.

Sincera a ponto de ser inconveniente; tagarela e encrenqueira, ela não tem papas na língua. Apesar de ser uma criada a serviço de aristocratas, tato e diplomacia decididamente não são o seu forte. Ivy está longe de ser perfeita e não faz o tipo “boazinha”. Conta vantagens e mente a respeito de si mesma com a desenvoltura de uma mitômana de carteirinha.

Mas, apesar disso – ou, possivelmente, por isso mesmo – ela é irresistível. Ainda que ache – e seja – terrivelmente esperta, Ivy é ao mesmo tempo crédula no trato com os vilões que encontra pela frente. Essa improvável combinação de argúcia e ingenuidade seduz os leitores, fazendo com que acompanhem – aflitos e em suspense – as reviravoltas de uma trama que se estende de maneira engenhosa pelo território da magia e do sobrenatural.

Ivy é apenas a figura de maior destaque de uma galeria de tipos inesquecíveis criados por Caleb Krisp, caricaturas elaboradas por um autor que detém um dom raro para o humor, mas que também sabe comover sem recorrer à pieguice. Portanto, personagens da literatura juvenil, abram alas para o charme e a petulância – e os cotovelos – de Ivy Pocket, a pequena atrevida que conquista agora seu espaço, avisando que chegou para ficar.

*Cláudio Figueiredo é jornalista, tradutor e autor de Entre sem bater: a vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé (Casa da Palavra/Leya).

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