Maria Luísa é carioca, tem 19 anos e faz faculdade de História. Mas somente quando descobre, ao acaso, o diário de sua avó já falecida, é que Malu começa a entender verdadeiramente o sentido da palavra "História" em sua vida. A protagonista de Tempo das cerejas, de Márcia Maia Conforti, conduz o leitor por uma deliciosa viagem a Portugal, ao contar a história de sua família luso-brasileira. Misturando narrativa em primeira pessoa, passagens em forma de diário, bilhetinhos entre mãe e filha, crônicas e e-mails, o livro lembra uma colorida colcha de retalhos, daquelas bem costuradas, tal qual a usada pela avó de Malu em sua infância.
"Nossas camas são cobertas por colchas de retalhos, que minha mãe faz. São dezenas de rodelas de tecido dobradas, que ela chama de rosetas, e costuradas", escrevia Arminda em seu diário, em 25 de setembro de 1930. Já vivendo no Brasil, a menina, então com 15 anos, filha de pais portugueses, resolve passar para o papel um pouco do seu dia-a-dia, as alegrias e dificuldades de um tempo em que tudo parecia mais simples, apesar das privações materiais. Tocada pela morte da tia Florência e mergulhada nas lembranças da avó, Malu dá vazão à sua curiosidade e passa a colher mais informações sobre seus antepassados com a mãe, com quem divide um intenso sentimento de busca de raízes que vai levá-la a cruzar o oceano até as margens do Rio Douro e descobrir um segredo familiar jamais imaginado.
Determinada a ir atrás de mais informações sobre seus antepassados – contando com um empurrãozinho da sorte, Malu consegue uma bolsa de estudos na Universidade Católica de Portugal. Em meio às aulas, pesquisas e compromissos acadêmicos, ela visita bibliotecas, cartórios, igrejas, museus; viaja para pequenos vilarejos da região; deixa-se perder por entre as ruas da cidade do Porto; e conhece as caves de vinhos em Vila Nova de Gaia. Todas as cores, aromas e sabores de Portugal interessam a essa jovem carioca cidadã do mundo. E esse mergulho na História do país se transforma num mergulho ainda mais profundo para dentro de si mesma. Conhecendo um pouco mais de seus antepassados, Malu acaba se conhecendo melhor, e melhor entendendo sua família.
Cada descoberta de Malu sobre os hábitos e costumes de seus antepassados traz uma informação histórica, um dado curioso ou uma reflexão sobre a ligação entre os povos brasileiro e português, e o faz sem artificialismo, de forma totalmente integrada à trama. Com uma linguagem agradável e delicada, Márcia Conforti compartilha com o leitor o gosto pela História e pelo ato de viajar, e mostra que conhecer nossas raízes pode ser uma grande e emocionante aventura.