Num apartamento na Vieira Souto, Rio de Janeiro, tendo diante de si uma tela de computador e mais ao fundo o oceano Atlântico, o narrador de Heranças passa em revista seu passado de hábil empresário e maleável sedutor. O acúmulo de bens e mulheres perfaz o capital do relato, conduzido com lentidão e cinismo para dar conta das peripécias — melhor dizer negociatas — da alta burguesia brasileira nos últimos setenta anos.
Do fundo da tela, quando tudo em volta "começa a se esfumar" para quem escreve, vão surgindo traços de Belo Horizonte: o provinciano centro comercial nas décadas de 1940 e 1950 dobra-se à especulação imobiliária nos anos de chumbo e entra de sola na roleta financeira do final de milênio. O "olhar longitudinal", capaz de abranger largo período de tempo, concentra-se na história familiar do herdeiro. Após a morte do pai, dono dos Armarinhos S. José, planeja com sucesso a morte da irmã mais velha, toma posse da herança, lança-se de vez à promiscuidade dos negócios escusos, da política do favor e da alta rotatividade sexual.
O novo romance de Silviano Santiago opera um inesperado corte transversal na ficção brasileira contemporânea, ao apontar outras formas de enunciar questões relativas à burguesia nacional, pouco abordadas na sua radicalidade. Retoma a tradição cínica e jocosa que vem do realismo de Machado de Assis, e mistura com o melodrama de Nelson Rodrigues, para compor um texto que toma a via oposta àquela de heranças literárias mais recentes: banalização da linguagem, visão estereotipada do marginal, violência urbana tornada espetáculo.
No novo texto prevalece o "ritmo da agulha de costura", que o narrador resgata das fornecedoras de crochê e tricô da antiga loja de armarinhos do pai, agregando à trama mais ampla do processo econômico e social brasileiro a pontuação local. Alinhava passado e presente por dentro, abrindo espaço na história para o "comentário indireto", através do qual coloca em xeque os pontos de vista de uma burguesia que se revela por meio das trapaças discursivas que arma. A costura torna visíveis os arremates que lhe dão forma.
Por isso o novo milênio em Ipanema, representado pela imagem dolorida do Pico Dois Irmãos, é "cópia do vazio infinito da existência", que o protagonista de certo modo tenta salvar ao escolher um imprevisível herdeiro ao final da narrativa. Mas nada parece mudar. Sempre outro, sempre o mesmo: mar visto da janela, superfície líquida do computador — "a água empoçada metamorfoseou-se em frases", o leitor tem toda uma vida diante dos olhos.
Como no provérbio da epígrafe, o papel tudo agüenta, até que o fio da história seja rompido e mostre como as coisas "aparecem de maneira violenta e desesperadora". É a essa experiência liminar entre vida e morte que o leitor é chamado a participar; é ela que o novo romance de Silviano Santiago nos deixa como herança do futuro.
Wander Melo Miranda é professor titular de teoria da literatura na Universidade Federal de Minas Gerais, consultor do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e integrante do corpo editorial da Revista Margens/Márgenes.