Em seu novo livro, Presa, Michael Crichton usa a ficção para fazer um alerta de suma importância: muitos cientistas prevêem que, ainda neste século, o homem criará uma nova classe de organismos, totalmente artificiais, mas verdadeiramente vivos e capazes de se reproduzir. Eles deverão evoluir num ritmo sem igual, aceleradíssimo, e terão um impacto sobre a humanidade e a biosfera que nem mesmo a Revolução Industrial, as armas nucleares e a poluição ambiental jamais tiveram. Acredita-se que esta será uma das conseqüências da interseção da biotecnologia com a tecnologia de computação e a nanotecnologia.
Através da nanotecnologia, que hoje se encontra em seus estágios iniciais, o homem busca criar máquinas extremamente pequenas, da ordem de 100 bilionésimos de um metro. Hoje, esta tecnologia já produz vidraças autolimpantes e tecidos resistentes a manchas. Mas acredita-se que, no futuro, ela viabilizará desde a cura de terríveis doenças, como o câncer, até a invenção de novas armas de guerra.
É com nanotecnologia que trabalha a Xymos Technology, empresa fictícia de fabricação molecular onde se passa a maior parte da nova história de Michael Crichton. A vice-presidente da companhia, Julia Forman, é mulher de Jack, o narrador do livro. Ela tem passado pouco tempo em casa, já não dedica muito tempo aos filhos e parece estar com uma aparência ligeiramente melhor, de modo que Jack começa a desconfiar de sua fidelidade. Mas ele não toca no assunto, apenas observa, pois acredita que talvez esteja só imaginando coisas, já que é um homem desempregado há seis meses e, por isso, ocupa-se exclusivamente da casa e da família, enquanto a esposa os sustenta.
Mas o comportamento de Julia não é a única coisa estranha ao seu redor ultimamente. Sua filha mais nova, um bebê de nove meses, é atacada por uma erupção cutânea assustadora que desaparece tão rapidamente quanto surgiu, sem que médico algum saiba explicar o que houve. No quarto da criança, ele encontra uma espécie de filtro de linha ligado a uma tomada escondida, objeto que ele tem certeza de nunca ter visto. E quando Julia sofre um acidente de carro e é internada, ela lhe diz algo muito esquisito: "Isso não envolve nossa família. As crianças vão ficar bem. Você vai ficar bem. Só fique fora, está bem?" Bem, talvez ela estivesse apenas delirando, ele pensa.
Enquanto Julia está internada, Jack é chamado para trabalhar na Xymos. Embora não fique claro qual será sua função, ele aceita, já que está desempregado há muito tempo. Em seu primeiro dia de trabalho, ele descobre o que terá de fazer: encontrar um meio de destruir um enxame de milhões de organismos vivos artificiais criados por nanotecnologia dentro da Xymos. Eles deveriam obedecer à programação feita por seus criadores, mas, por algum motivo, não obedecem. Pior: o enxame mata, reproduz-se, dá saltos evolutivos em questão de horas e é capaz de aprender com a experiência. E o que Jack tem a ver com isso? Os organismos foram criados com base num programa de computador desenvolvido por ele no passado, o PREDPRESA, que simula a relação presa/predador para que seus agentes nunca percam as metas de vista e sempre as atinjam. Só que algo deu errado na transposição dos princípios do programa para a fabricação nanotecnológica da Xymos, de modo que agora existe um enxame de organismos artificiais que se vêem como predadores. E a presa pode ser qualquer mamífero. Inclusive o homem.
Todos estes fatos estão interligados. No começo da história, que se passa ao longo de apenas sete dias, Jack tenta montar o quebra-cabeça, com o objetivo de salvar seu casamento. Depois, sua prioridade passa a ser a vida de seus filhos. Mas conforme o problema se agiganta, ele se dá conta de que o que está jogo é a sobrevivência de todas as formas de vida conhecidas do planeta. E é simplesmente impressionante o talento de Michael Crichton em prender o leitor da primeira à última das quase 500 páginas de seu novo romance.