P ALIGN="JUSTIFY">M. tem trinta e poucos anos, é um bem-sucedido editor, vive numa cidade grande qualquer e leva uma vida teoricamente feliz ao lado de Martha. Brilhante, bonita e sedutora, ela é sua principal referência e, sem motivos aparentes, desaparece de casa sem deixar qualquer vestígio. Sozinho, ele não sucumbe ao previsível desamparo e, com uma estranha determinação, resolve fazer uma violenta limpeza em todas as suas relações. Agindo friamente, parte para a destruição de amores, amizades e carreira numa tentativa de eliminar a emoção de sua vida.
No seu caminho estão as Paulas (uma delas a prostituta que costumava servi-lo e, a outra, a paixão devastadora longamente cultivada fora do casamento), o casal de amigos Pedro e Vera, a arrogante Beatriz que o chefiava, o pai velho abandonado num asilo, jovens escritores, conhecidos frívolos que sequer têm nome. A cada um deles, M. vai procurar ofender, humilhar e desprezar numa revolta sem objetivo ou moral — mas tão sutil que às vezes passa despercebida às suas próprias "vítimas".
Do amor ausente é a crônica desse desapaixonamento radical a partir de um diálogo indireto e irônico com Do amor, o ensaio clássico em que Stendhal teoriza sobre a sucessão de fascínios em que embarca um ser apaixonado. Os sete passos do apaixonamento descritos pelo autor de O vermelho e o negro — a admiração, o prazer, a esperança, o amor nasce, a primeira cristalização, a dúvida e a segunda cristalização — são vividos pelo avesso em cada esforço do personagem para livrar sua vida dos lugares-comuns que passaram a dominar o sexo, o casamento, o trabalho, a vida afetiva.
O protagonista do romance de estréia de Paulo Roberto Pires procura obsessiva e tortuosamente escapar dos lugares preestabelecidos na sociedade e nas relações pessoais para conquistar uma nova vida, ainda que ela signifique o isolamento do mundo num apartamento esvaziado de móveis e afetividade. "Por que o macho tem de calar-se, virar viúvo sem cadáver, estar enlutado sem drama, viver sem as facilidades da emoção, para se tornar progressivamente um outro, sem nenhuma conexão com aquele de onde partira? Para refletir sobre aquelas e essas questões, leiamos Do amor ausente, romance já maduro e assustadoramente atual no modo como dramatiza o estado do amor masculino em tempos feministas", observa o crítico Silviano Santiago na apresentação do livro.