Um jogo de azar é uma espécie de rito sacrificial, desenvolvido num terreno em que o onírico e o primitivo se fundem ao racional e ao utilitário, o jogo do bicho está incrustado no cotidiano dos brasileiros. É o que nos mostra os antropólogos Roberto DaMatta e Elena Soárez em Águias, burros e borboletas — Um estudo antropológico do jogo do bicho, ensaio que ultrapassa a análise do jogo como objeto de poder dos bicheiros e apresenta um estudo mais amplo e mais específico de debate.
Embora o tema já tivesse sido abordado por DaMatta em livros anteriores, o antropólogo revisita o assunto a partir da tese de mestrado de Elena, então sua aluna no programa de pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional. Juntos, eles elaboraram um minucioso trabalho em que buscam dissecar a história e a sociologia do jogo do bicho, fugindo de um modelo de análise reducionista e revelando-o como "uma instituição total".
O resultado aponta, por exemplo, como essa loteria popular — criada em 1890 por João Baptista Vianna Drummond, o barão de Drummond, com o objetivo de angariar fundos para a manutenção do Jardim Zoológico do Rio — surge exatamente nos estertores da escravidão brasileira, quando a sociedade institui o trabalho livre. "Há uma profunda ligação entre as mudanças sociais ocorridas na virada do século e o alastramento da jogatina", observam os autores. Entre outras visões, está a do jogo do bicho como um instrumento para "promover a passagem entre categorias sociais".
Embasado por uma ampla pesquisa de campo, entrevistas com jogadores e dezenas de elucidativas notas de pé de página, o livro percorre a trajetória do jogo, posto na ilegalidade pelo governo em 1944; enumera os 25 animais da loteria; reúne as interpretações de alguns sonhos que são usados como palpites e traça paralelos com outras formas de totemismo, tanto dos Estados Unidos quanto da Europa. Não é um "alvará para o jogo e para os que dele tiram proveito", como frisa Roberto DaMatta na introdução. É, antes, importante obra de referência de uma instituição eminentemente popular, mas normalmente desprezada pelas análises sociológicas.