em primeira pessoa

Retornando ao fantástico Mundo Bruxo de J.K. Rowling

por Luiz Guilherme Boneto
5 de dezembro de 2016


Termina a minha sessão de Animais Fantásticos e Onde Habitam, e a única saída do cinema é por um corredor razoavelmente estreito que leva ao shopping já vazio – minha amiga e eu assistimos à sessão das 22h15. Sob o impacto do filme enquanto caminhamos em silêncio, entreouço a conversa de um casal sobre a obra. Eles especulavam sobre a breve participação do ator Johnny Depp e não tinham a menor ideia de quem era Grindelwald, o personagem que ele representava. Resisti firmemente ao ímpeto de me virar e explicar a eles e segui meu caminho, trocando olhares de cumplicidade com a minha amiga.

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É natural que as pessoas que não são ligadas ao universo de Harry Potter estejam sendo atraídas às salas de cinema para ver de que se trata Animais Fantásticos, e sob um ponto de vista comercial, o filme é adorável e compreensível inclusive para elas. No entanto, é curioso pensar que aquele universo que faz e fez parte das nossas vidas por tanto tempo não significa nada para elas. Tomo meu próprio caso como referência principal, é claro. Há poucos dias, me tatuei pela primeiríssima vez na minha vida, com uma frase marcante da série do lado esquerdo do peito – não haveria um local mais significativo. E lá ia eu, caminhando com a minha pele ainda dolorida pela tatuagem recente e guardando silêncio enquanto as pessoas ao meu redor claramente não tinham muita noção do que tinham acabado de assistir.  É notável o quanto as pessoas são diferentes.

animaisJá no caminho de volta para casa, comento com a minha amiga como J.K. Rowling pode ser possível. Uma mulher, uma humana, capaz de mobilizar multidões e encantar, mudar vidas. Ela vem fazendo isso há quase vinte anos, sabia, caro leitor? Este é o número de velinhas que Harry Potter e a Pedra Filosofal soprará no ano que vem. De fato, eu e você estamos envelhecendo, amadurecendo e notando com ternura que Harry Potter é uma série que transcende seu próprio momento. Houve a febre da história a cada lançamento na década passada, houve comentários na imprensa, colunas sociais, reportagens, números divulgados, entrevistas. A febre passou, mas a série não se foi com ela, como ocorre com tantas outras obras cinematográficas e literárias. Cada vez mais se assinala a certeza de que Harry Potter continuará a ser lido em décadas, talvez séculos.

Feito inspirado em um livro cujo objetivo inicial era ser apenas um apêndice da história, Animais Fantásticos cumpre um papel complementar sublime ao nascer como filme. Mostrar a nós como é o universo mágico nos Estados Unidos de algumas décadas atrás é um exercício encantador, que expande Harry Potter em pontos apenas mencionados de
maneira breve ao longo da série. As particularidades do povo norte-americano são sutilmente guardadas no filme, totalmente ambientado na cidade de Nova York. Em Animais Fantásticos, vemos de perto como é o sistema político-mágico dos Estados Unidos, equivalente ao Ministério da Magia britânico, com o qual estamos acostumados. Também ficamos sabendo que os bruxos de lá  não conhecem as pessoas não-mágicas como “trouxas”, e também temos a mostra de que os americanos também acham que sua escola de magia, Ilvemorny, é a melhor do mundo – lembrando que nós, brasileiros, temos Castelobruxo e devemos honrá-la. O universo de Animais Fantásticos abre uma grande curiosidade sobre como é o Mundo Bruxo no Brasil. Quero crer que o nosso governo mágico precise administrar menos crises que o governo trouxa – ou “não-maj”.

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Minha cara quando alguém diz que não conhece HP.

Ao assistir a esse filme, e ao me ver cercado de algumas pessoas que simplesmente não conhecem o universo de Harry Potter de forma profunda, me senti detentor de informações privilegiadas, quase um guru – que pretensão a minha! Era como se houvesse entre mim e a tela uma cumplicidade curiosa, guardada em segredo entre nós dois e que mais ninguém ao meu redor era capaz de detectar. Lá estava eu novamente no cinema, como um homem adulto, tendo desta feita guardado alguns dias de atraso em relação à pré-estreia. Mas novamente, me senti aquele adolescente do início dos anos 2000 que começava uma vida. Mais do que feliz, o filme me fez sentir contemplado, quase como se o que se passava na tela retratasse uma parte de mim. Mas ora, se pensarmos bem, não era exatamente isso?

Animais Fantásticos traz ao cinema a nossa magia, meus caros. Ali estamos você e eu, juntos fazendo a mágica acontecer de novo. É uma produção maravilhosa, que vale cada segundo. A paixão representada por Harry Potter segue muito bem viva. Vale rir, vale chorar, mas especialmente vale lembrar que Hogwarts, enquanto representar o Mundo Bruxo, estará sempre ali para nos dar as boas-vindas de volta à nossa casa.

Luiz Guilherme Boneto é paulista de Campinas e jornalista. Apaixonado por política, Harry Potter e sambas-enredo, formou-se em Castelobruxo e fez intercâmbio em Hogwarts entre 2006 e 2007. Também estagiou durante um ano no Profeta Diário. É colunista-chefe do Potterish desde 2012 e escreve artigos para diversos veículos impressos e online, dentre os quais o portal Carta Campinas. Ele não revela mais a sua idade.

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