Em primeira pessoa

Não dividam o grupo!

O medo e sua fascinante atração na literatura de terror
11 de agosto de 2014


por André Vianco

terror

[Créditos: www.picstopin.com]

O medo é essa coisa primitiva que nos deixa alerta. Não à toa, quando estamos lendo um bom livro de terror ou assistindo a um desses filmes, nos pegamos de olhos arregalados, batimentos cardíacos acelerados, mas, ainda assim, prisioneiros daquela trama, querendo ver como nossos heróis hão de escapar daquela enrascada. Essa excitação toda que o terror exerce sobre nós é legítima. Aprendemos com os livros e com os filmes do gênero. Levanta a mão aqui quem acha melhor se dividir quando o grupo sai para investigar um barulho ouvido na floresta? Cada um segue uma trilha e quem encontrar o monstro primeiro, grita. Não! Não dividam o grupo! Não vai dar tempo de chamar ninguém, acreditem em mim. Sigam todos juntos e, de preferência, munidos de bazucas e lança-chamas.

Uma coisa melhor que ler um livro de terror é escrever um. Nós, autores, usamos a melhor armadilha que a natureza inventou até hoje para levar esse sentimento ao extremo: o seu lindo, cheiroso e delicioso cérebro. Ao decodificar nossas palavras, você, leitor, melhor que um diretor de cinema, vai compondo o cenário e criando os detalhes que mais te apavoram e que eu jamais adivinharia, e vai incrementando toda aquela assombrosa visão adicionando elementos a narrativa que eu nem mesmo pensei. Se eu escrevo que existe um monstro debaixo da sua cama sem dizer o que é, você logo materializa ali o seu maior temor. Baratas, ratos, grilos, cobras, lagartos e palhaços passam a habitar quase que instantaneamente aquele mundo debaixo do seu colchão sem nenhuma vez você adivinhar, até que leia as minhas letras ajuntadas que o que se escondia ali debaixo era uma mão decepada que, de forma mística, tinha ganhado vida, se arrastado por ruas e calçadas, de alguma forma, escalado paredes e entrado por sua janela enquanto você, alheio, lia as atualizações do Facebook ou jogava o proibidão Flappy Bird. Pois é, agora, enquanto você dorme, a mão está lá, esperando a hora certa para deixar o esconderijo escuro, dedilhar ao seu lado e dar um bote agarrando o seu pescoço. Não há corpo para você lutar quando acordar assustado, sentindo o ar faltar no peito porque uma mão mágica e maldita se fecha em seu pescoço e teima em tomar-lhe a vida. Antes fosse a barata ou o palhaço. Se você vai conseguir se colocar de pé a tempo de alcançar uma chave de fenda e se livrar daquele membro premendo a sua traqueia é outra história.

clown

[Créditos: wallpaperpanda.com]

O bom da literatura de terror é que, quando a coisa fica feia e a gente não aguenta, é só fechar o livro. Tudo bem que nossa imaginação faminta vai começar a inventar um monte de coisas, a gente começa a escutar barulhos na sala, vozes vindas de dentro do armário e um quarto de hotel nunca mais vai ser só mais um quarto de hotel.

Há quem diga que sentir medo faz bem a alma, que esse instinto primitivo deixou nossos antepassados mais espertos e, graças ao medo da morte, prosperamos e estamos aqui hoje. Já que é pra se assustar, que seja de forma controlada, lendo uma boa literatura, engendrada na mente perversa de algum escritor como eu, que quer só fazer você se divertir e, se possível, refletir. Sejam todos bem-vindos à literatura nacional de terror.

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☛  Leia Tardis, vampiros e Sonserina: uma literatura apaixonante que reúne o inexistente, de Helena Gomes.

 

andre viancoAndré Vianco

André Vianco é um escritor paulistano e sua obra mistura terror, suspense e fantasia. Pela Rocco, publicou O caso Laura, Zumbi e Bruxa.

 

 

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Comentários sobre "Não dividam o grupo!"

  1. Muito legal, André! Adoro literatura de terror, mas nunca cheguei a ler nada do gênero que tenha sido publicado por um escritor brasileiro. Nem imagino como deve ser, por isso vou encomendar algum dos livros. Abraços!

    • Gabriel, recomendo para você um grande clássico do Vianco ou Os Setes, Conta a historia de 7 vampiros do Rio D’ouro em Portugal, que voltaram a vida aqui no Brasil (Osasco para ser exato).
      E recomendo “Bento”, que um certo dia varias pessoas adormeceram no mundo, e quando iam acordando, umas eram vampiros, outros eram humanos ainda, e alguns se tornavam bentos (Humanos super poderosos matadores de vampiros).
      Recomendo muito!

  2. Sou apaixonada por terror! Filmes ou livros… Tanto faz! Parabenizo seu trabalho porque é bom mostrar que o escritores nacionais também são capazes de fazerem o sangue de seus leitores congelarem. Continue nos passando seus pesadelos transformados em palavras!

  3. Adorei esse post. Parabéns André Vianco.
    Eu vivo dizendo que NUNCA mais vou assistir um filme de terror, mas sempre estou lá, assistindo e passando a noite em claro.
    Filmes e literatura de terror, a qual não tive a oportunidade de ler ainda, têm o poder de fazer todo mundo se entregar totalmente à trama, mesmo que esteja morrendo de medo. Até parece que nós somos movidos pelo medo, sempre buscando, relutantes, por mais.

  4. Pingback: Duplo pacto | Rocco

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