Para
A. C. Gomes de Mattos, um carioca de 65 anos bem vividos,
cult é o próprio cinema. Principalmente
o cinema americano, do qual é profundo conhecedor.
Deu prova disso nos dois livros já publicados pela
Rocco na coleção Artemídia: O outro
lado da noite: filme noir, lançado em 2001, e
A outra face de Hollywood: filme B (2002) - textos
altamente estimulantes que vieram consolidar no seleto grupo
de críticos e historiadores do cinema a posição
desse estudioso e divulgador incansável. Antes de
mais nada e acima de tudo cabe ressaltar a marca inconfundível
de Gomes de Mattos: a escrita aliciadora que sabe transmitir
ao leitor o puro prazer inscrito no ato de ver um filme.
Isto significa um passo além da mera difusão
da informação, ainda que pertinente e necessária:
trata-se de um gesto que visa dividir com o leitor paixão
e prazer.
Essa
generosa disposição de espírito encontra-se
também no novo livro de Gomes de Mattos que a Rocco
está enviando às livrarias do país:
Publique-se a lenda: a história do western.
O título faz alusão à frase de um jornalista
na cena final de O homem que matou o facínora (1962),
um dos grandes westerns dirigidos por John Ford:
"No Oeste, quando a realidade se converte em lenda,
publicamos a lenda."
Publique-se
a lenda: a história do western compõe-se
fundamentalmente de duas partes: uma ampla Introdução
abarcando seis tópicos: 1) elementos do western;
2) primeiros filmes / grandes caubóis; 3) apogeu
do western clássico; 4) super-western;
5) influência do western italiano; 6) o novo
western; e uma Filmografia em que são arrolados
225 filmes com fichas técnicas, sinopses e comentários.
A
propósito deste novo livro a editoria da Artemídia
levou com Gomes de Mattos o papo transcrito a seguir:
Artemídia:
Por que escrever sobre o western?
GM: Porque é o meu gênero predileto.
O western é o cinema por excelência.
Reúne os dois elementos essenciais do cinema: a fotogenia
e o movimento. O sujeito tem que ser muito incompetente
para fazer um western ruim.
Artemídia:
Como assim?
GM: O western ajuda o diretor. Já é
cinema, já é movimento, já é
ar livre. Aliás, é um gênero que redime
qualquer diretor. E como está fazendo 100 anos, aproveitei
a oportunidade para abordar este tema.
Artemídia:
Mas o que se diz por aí é que o western morreu.
Hoje em dia quase não se fazem mais westerns.
GM: De fato caiu muito a produção de
westerns nas últimas décadas. Isto
ocorreu por vários motivos. Um deles foi a mudança
registrada no público. A partir do final dos anos
50 houve uma juvenilização das platéias
e os produtores resolveram então fazer filmes policiais,
de horror e de ficção científica, com
muitos efeitos especiais que, segundo eles, tinham mais
possibilidade de agradar aos jovens. O western estava
realmente desconectado com a época. A produção
jamais voltará a ser igual à da fase áurea
dos anos 50, mas sempre vão surgir alguns bons westerns,
como foi o caso recente de Dança com lobos
e Os imperdoáveis, que arrebataram o Oscar
de Melhor Filme. Acho que a temática e a estilística
do western ainda não se esgotaram.
Artemídia:
No livro você traça a evolução
do western clássico para o super-western.
Como diferenciar um do outro?
GM: Posso dizer, em síntese, que a partir
dos anos 40 o western fortificou suas ambições.
O gênero passou a dar mais atenção aos
aspectos psicológicos, morais, sociais, eróticos
etc. do que à ação propriamente dita,
à celebração da conquista do Oeste
e aos mitos. As situações e os personagens
tornaram-se mais complexos. O western perdeu um pouco
de sua aura e o caubói romântico desapareceu.
Em vez de ser somente uma diversão, o western
se tornou uma reflexão sobre o homem.
Artemídia:
Qual é sua opinião sobre o western
spaghetti?
GM: Eu não gosto. O principal argumento contra
os westerns italianos é que eles não tinham
"raízes culturais" na história ou
no folclore americano, constituindo-se em imitações
baratas e oportunistas. Talvez o julgamento mais justo do
western spaghetti seja considerá-lo como um
subgênero ou um gênero à parte, bem distinto
da forma original, uma maneira européia de interpretar
o western, uma crítica à reconstituição
do Oeste e de seu significado feita por Hollywood, ou uma
sátira, se você quiser. Eu não gosto
é do estilo. Zoom no western me deixa nervoso.
Close-up em western... O western é
a paisagem. No western italiano é tudo Zoom,
Zoom. Zoom é o pior movimento de câmera....
quer dizer, não é movimento porque é
um processo ótico... No cinema eu sou do tempo da
fusão, que é elegante, vai passando assim,
esfumaça, aquilo era lindo... Agora hoje é
pá, Zoom! E depois close, close...
Artemídia:
O ideal é o close só na hora do duelo, para
enfatizar a tensão, pegando o olho assim...
GM: Mas Era uma vez no Oeste tem meia hora
de close da mosca no... ah vá tomar banho! Quero
ver é paisagem, beleza, o índio lá
na montanha, cavalgando. Eu gosto dos cavalos. Eu gosto
disso... Mas não se pode negar a influência
que o western spaghetti exerceu sobre alguns diretores
americanos.
Artemídia:
Pois é, chegou até a renovar um pouco o interesse
pelo western...
GM: ...porque tornou a violência mais explícita.
Quando você vê Bonnie and Clyde (Uma rajada
de balas) e essas outras coisas, já é...
O western americano, por sua vez... isso eu descobri
por acaso, semana passada, quando vi o filme... influenciou
diretores italianos como, por exemplo, Pietro Germi em O
bandoleiro da cova do lobo [Il Brigante di Tacca del
Lupo], realizado em 1952. O próprio Germi reconheceu
essa influência. Ele era fã do Ford.
Artemídia:
No livro você comenta mais de 200 westerns.
Como conseguiu ver todos esses filmes?
GM: Vi recentemente cerca de 400 westerns
graças aos acervos de colecionadores nacionais e
estrangeiros. Já recebi filmes até de um colecionador
da Islândia. Os filmes mais recentes encontrei nas
locadoras de vídeo.
Artemídia:
Como obteve os títulos em português de filmes
tão antigos?
GM: Os títulos em português saíram
da pesquisa que fiz há muitos anos com meu amigo
Gil Araújo em bibliotecas do Rio de Janeiro e de
São Paulo, consultando as revistas antigas, Cinearte,
Cena muda, Seleta, Palcos e telas,
O malho, e as listas de filmes das distribuidoras
então existentes que nos foram gentilmente fornecidas
por diretores de publicidade como Gilberto Souto, que tinha
sido representante de Cinearte em Hollywood nos anos
30 e 40, e tinha uma coluna no Correio da Manhã
intitulada "Cinema, Ontem e Hoje", e Waldemar
Torres, que começou como boy em 1925 no escritório
recém-aberto pela Metro no Brasil e foi publicista
da empresa até os anos 70. Waldemar conhecia cinema,
me deu coisas raras, inclusive a lista de todos os filmes
da Metro. Consultamos também as relações,
publicadas no Diário Oficial da União, dos
filmes que passaram pela censura do DIP [Departamento de
Imprensa e Propaganda] entre 1939 e 1946, os jornais que
circulavam somente no âmbito dos exibidores (O
exibidor, Cine-repórter) e as filmografias
do Pery Ribas publicadas no Correio do Povo do Rio
Grande do Sul. Recebemos também a colaboração
de fãs de filmes de caubói como Antônio
Cardoso, português, feirante, e Danilo Diegues, alfaiate,
que registravam num caderno os westerns que viam.
Cardoso era fanático pelo Buck Jones, Danilo pelo
Tom Mix, e viviam se digladiando para saber quem tinha mais
filmes de seu ídolo. O Cardoso e o Danilo já
naquela época mandavam vir dos Estados Unidos filmes
em 8mm. No meu arquivo constam os títulos desde 1915.
Para títulos anteriores a esta data pedi ajuda ao
Hernani Heffner e Alice Gonzaga (Arquivo Cinédia).
O cineasta Ademar Gonzaga também anotava os títulos.
Artemídia:
Quem dava os títulos brasileiros aos filmes?
GM: Os títulos eram dados pelos distribuidores
aqui. Por isso é que quase nunca o título
original casa com o brasileiro. Aqueles títulos absurdos
eram dados por João Lepiani, que era vendedor de
filmes. Nos anos 30 e 40 ele percorreu o Brasil todo vendendo
filme. E dizia: "Eu sou vendedor, tenho que ver meu
interesse. Tava lá Gaslight, não vou
botar 'Luz de lampião', vou botar 'Morte e paixão',
porque se não botar, não vende." O pai
dele tinha um cinema numa cidade do interior de Minas. Quando
o pai acabava de passar um filme, o João cortava
um fotograma do filme para ficar com o retrato dos artistas.
Assim encheu vários álbuns de fotogramas.
Por falar nisso me lembro que o Gil Araújo comprou
de um sujeito do subúrbio os álbuns em que
ele colava todas as resenhas de filmes que saíam
nos jornais - álbuns de cinema inglês, cinema
americano, cinema francês... Esse tipo de fã
não existe mais.
Artemídia:
Na sua opinião quais são os maiores westerns
de todos os tempos?
GM: Os meus prediletos são Rastros de ódio
(The Searchers) e Paixão dos fortes
(My Darling Clementine), ambos de John Ford.
Artemídia:
E os grandes caubóis do cinema, quais foram?
GM: Dos antigos gosto de Buck Jones e Ken Maynard.
Buck era também um bom ator. Maynard fazia piruetas
sensacionais na sela de um cavalo. Dos mais novos, John
Wayne e Randolph Scott na sua fase madura, justamente aquela
dos westerns dirigidos por Budd Boetticher.
Artemídia:
O western é um gênero basicamente masculino,
mas houve algumas heroínas nos filmes.
GM: Houve, sim.
Artemídia:
Qual seria a atriz mais importante dentro dessas poucas
heroínas do faroeste?
GM: Tem uma que sempre fez papel de mulher poderosa,
forte, inclusive no noir, a Barbara Stanwyck. Ela
já era mulher fatal no noir, mas no western
trabalhou no filme de Samuel Fuller, Forty Guns (Dragões
da violência), que tem aliás uma apresentação
fantástica. O filme não é lá
essas coisas, mas na apresentação ela aparece
galopando com quarenta cavaleiros... Aliás, a Barbara
Stanwyck moça fez a atiradora Annie Oakley. No western
ela fez papéis de fazendeira poderosa ou malvada.
Em Almas em fúria, de Anthony Mann, ela briga
com o pai, rasga o rosto da madrasta com uma tesoura...
Em Johnny Guitar a Joan Crawford era a personagem
central... Mas em geral no western a mulher tem um
papel secundário, de mocinha, professorinha, ou dançarina
de saloon...
Artemídia:
E a Calamity Jane?
GM: O cinema romantizou a Calamity Jane, que não
era nada daquilo.
Artemídia:
Dos westerns que tentaram fazer justiça aos índios,
quais seriam os mais significativos?
GM: O primeiro foi Broken Arrow (Flechas
de fogo), de Delmer Daves, e depois Apache (O último
bravo), de Robert Aldrich. Há vários. Já
Little Big Man (O pequeno grande homem), de
Arthur Penn, é mais do que isso, é uma alusão
ao Vietnã. Parece que tem uma seqüência
inspirada no massacre de My Lai. Quando veio o western
adulto, psicológico, o pessoal antigo não
gostou, queria era o velho bangue-bangue, o comediante Milton
Berle deu esta definição: "western
adulto é aquele em que o herói no final continua
beijando o cavalo; só que desta vez ele se preocupa
com isso".
Artemídia:
No contexto do filme de ação você não
acha que o western influenciou os filmes de Kung Fu, por
exemplo?
GM: Ah sim, claro, porque é filme de ação.
Até Mad Max, aquele australiano, tem coisas
do filme de caubói. O western é um
gênero que influencia porque agrada universalmente.
Foi o primeiro gênero, desde a época do cinema
mudo. Todos os países fizeram filmes de caubói,
ou paródias. O faroeste influenciou bons diretores,
formou muito público.
Artemídia:
Existem westerns brasileiros?
GM: Durante o surto cinematográfico em Campinas
nos anos 20 tivemos Sofrer para gozar de E. C. Kerrigan,
um pseudônimo naturalmente. Na década de 50
houve um ciclo de aventura rural com nítida influência
do western americano, inaugurado por Antoninho Hossri
com Da terra nasce o ódio. Em seguida surgiram
Lei do sertão, também de Hossri, Dioguinho,
de Carlos Coimbra, O capanga, de Alberto Severi etc.
Nos anos 60 e 70 houve uma ressurreição do
gênero com Gregório 38, Quatro pistoleiros
em fúria etc. Os filmes de cangaceiro sofreram
influência do western americano. Há
ainda a paródia Matar ou correr, de Carlos
Manga, e No tempo dos bravos, de Wilson Silva, com
atores infantis.
Artemídia:
E em outros países?
GM: Posso citar a série francesa silenciosa,
Arizona Bill, com Joe Hamman. Nos anos 30 foram produzidos
westerns na Alemanha, inclusive aquele, muito conhecido,
O imperador da Califórnia, baseado na vida
do suíço Sutter, e mais tarde aqueles baseados
nas histórias de Karl May. No Japão, no final
da década de 50, o estúdio Nikkatsu realizou
uma série de paródias do western americano,
estreladas por Jo Shishido. A fortaleza escondida e Os sete
samurais, de Akira Kurosawa, por exemplo, são visivelmente
influenciados pelos westerns americanos, e Sete
homens e um destino (The Magnificent Seven) inspirou-se
por sua vez no segundo filme citado de Kurosawa. Na Austrália,
em 1946, fizeram The Overlanders que, se não
me falha a memória, chamou-se no Brasil A manada.
A influência do western é universal.
Artemídia:
Agora uma nota bem pessoal. Quando você começou
a ir ao cinema?
GM: Foi pra ver A vida de Cristo. Vocês
sabem que na Semana Santa os cinemas antigos passavam A
vida de Cristo na sexta-feira e as mães levavam
os filhos. O mais interessante que eu descobri é
que essa Vida de Cristo que até os anos 50
passava no Pirajá, em Ipanema, era muda. Aquela cópia
estragada era de 1905 ou 1906, e as pessoas iam ver e achavam
aquilo lindo. Comecei vendo a Vida de Cristo, Pinocchio
e coisas de Walt Disney. Mas até os anos 60 passava
na Semana Santa o Ben-Hur no Pirajá, o Ben-Hur
com Ramon Novarro, de 1926.
Artemídia:
Certamente você freqüentou cineclubes...
GM: Freqüentei os que havia...
Artemídia:
...e chegou até a fundar um, não é?
GM: Bom, o que aconteceu foi que eu e um primo que
também gostava de cinema fomos à Maison de
France pra ver se conseguíamos uns filmes emprestados.
Mas a Maison não emprestava a particular, tinha que
ser uma firma, uma pessoa jurídica. Então
eu e meu primo fundamos o Cineclube Jean Vigo, com sete
sócios etc. Com isso a gente podia trazer os filmes
pra casa. Mas não era aberto ao público. Era
só pra gente poder ver aquilo tudo. Eu sempre digo...
aliás, o Sérgio [Leemann], num desses prefácios
que fez para um dos meus livros, diz que eu sou insaciável.
A minha característica é fã... fã...
não quero ser crítico, nada disso... eu sou
fã de cinema insaciável. Eu quero ver tudo.
E isso é uma loucura. Por isso que eu não
vejo muito filme atual. Eu quero ver os filmes pra trás,
que eu não pude ver. Eu vou morrer, quero ver aqueles
filmes. Então saio por aí buscando filme alemão,
filme não sei de onde, principalmente das décadas
de 20, 30, 40, aquele raros que eu não pude ver quando
garoto.
Artemídia:
E a vanguarda, o cinema experimental?
GM: Quando era garoto vi os filmes de Bunüel,
Le chien andalou, por exemplo, que é genial.
Este aliás é uma exceção, não
é? Quando vi pela primeira vez achei fantástico,
mas eu era garoto. Depois me aburguesei, fiquei velho, conservador,
chato. Hoje eu acho que o cara pode fazer o filme que bem
quiser, é claro. Todo mundo tem liberdade, faz o
que quiser. Agora agüente as conseqüências,
é ou não é? Você não pode
fazer filme experimental e... Você diz assim: meu
filme é experimental porque eu estava tentando saber
se eu sabia fazer cinema. Peraí, você quer
experimentar e eu é que tenho de aturar? E ainda
por cima quer patrocínio? Não dá. Você
quer fazer o filme que você quer, você faz com
o seu dinheiro, não com o meu... O Lepiani, que também
foi produtor de cinema, dizia pra mim: "o pessoal quer
fazer filme com o meu dinheiro. Com o meu dinheiro eu quero
fazer o filme que vai me dar lucro; senão, não
me interessa. Quer fazer vanguarda, faça, mas com
seu dinheiro". Eu não gosto de vanguarda. Eu
reconheço que a vanguarda também impulsiona
a arte, pelas idéias novas, nisso ela é imprescindível.
Mas eu gosto da vanguarda depois que foi mastigada, depois
que já foi incorporada ao mainstream, vamos
dizer. Entendeu? Porque das vanguardas pouca coisa fica.
E as coisas boas depois são incorporadas no cinema
normal. Godard, por exemplo, eu acho um chato, aqueles filmes
eu acho chatíssimos... Um dia passaram no ginásio
da PUC-Rio, onde sou professor, A chinesa, do Godard.
Tava assim de gente. O primeiro rolo não veio com
as lentes do Cinemascope. O Cinemascope usa uma lente chamada
hipergonar. Você tem que botar essa lente. Ele é
todo charuto. Tem que botar essa lente. Passou a primeira
parte em charuto. E o pessoal: genial! genial! Depois, no
segundo rolo, charuto de novo. Aí eu falei: o que
é que é isso? Disse pra professora minha colega:
vou me deitar aqui nesse banco, vou dormir aqui até
acabar. Deitei no banco. Quando olhei, tava acabando e tava
charuto. Aí eu falei com a professora. Ela disse:
ah é, esqueci de botar a lente. E os caras achando
genial... Eu não agüento os filmes de Godard.
Agora ele é intelectual, dá aquelas citações.
Ele foi importante. Depois o próprio cinema americano
pegou algumas coisas do Godard e também da Nouvelle
Vague. Aproveitaram aquilo e botaram no cinema direitinho...
Aí eu gosto. Depois que a vanguarda é peneirada
pelo tempo, eu aproveito... Me lembro que uma vez um amigo,
achando que eu andava muito intelectualizado, só
ligado em filmes cabeça, me disse: você tá
perdendo o prazer de ver filmes, você perdeu esse
prazer. Mas tem que ter prazer. Volte pra trás, vá
ver um filme de Buck Jones. Aí eu vi. Depois de velho
voltei pra trás. Quando era jovem era metido a intelectual.
Agora eu quero prazer. Estou voltando à minha infância.
Artemídia:
Tem em mente algum projeto de livro?
GM: Estou preparando uma história do cinema
americano. Mas em vez de abordar o aspecto estético,
vou tratar dos aspectos tecnológico, econômico
e social. Não pretendo fazer uma avaliação
crítica dos filmes e dos diretores. Vai ser mais
uma história cultural. Título provisório:
Fábrica de sonhos: a velha e a nova Hollywood. Não
existe história do cinema americano escrita em língua
portuguesa, nem do cinema francês, inglês, italiano,
alemão, russo etc. O conhecimento da história
do cinema mundial faz parte da educação cinematográfica,
indispensável para que o espectador possa dominar
o filme em vez de ser dominado por ele.