Sofrimento plural ou a dor do duplo

O autor Carlos Eduardo Leal escreve sobre os sentimentos em Resistência, de Affinity Konar
25 de abril de 2017


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Primo Levi, no início de seu livro É isto um homem? afirma que ele não quer relatar o quanto os nazistas foram capazes de, com suas crueldades, massacrar o povo judeu. Ele está disposto, afirma, apenas em mostrar o que é possível um ser humano fazer com o outro. A crueldade sem fim está estampada nos livros que relatam e retratam os horrores do genocídio dos “loucos, dos negros macacos e dos judeus”, para retomar a odiosa expressão de Hitler em Mein Kampf.

Resistência ou, no título original, Mischling (mestiço), da escritora americana Affinity Konar (Editora Rocco), é um corajoso mergulho na bárbara história verídica de Stasha e Pearl, duas gêmeas que aos 12 anos são levadas como cobaias ao Zoológico do Dr. Josef Mengele em Auschwitz. Médico, Dr. Mengele ficou conhecido como o “Anjo da Morte” devido as atrocidades cometidas por ele em nome da “pesquisa científica”. Era um laboratório no qual o “monstro alemão” tinha como suas cobaias preferidas crianças que eram gêmeas ou trigêmeas.

Seu propósito era investigar qual seria a reação da outra irmã quando ele, por exemplo, perfurasse com uma seringa o olho da gêmea. Um sujeito perverso, um homem irônico diante da dor das crianças, um ser da maldade que não conhecia limites para fazer o outro sofrer.

Arte_7É diante deste quadro de horrores que a autora irá se debruçar para escrever o duro, difícil e corajoso livro sobre as duas meninas. O sentido de proteção, cumplicidade e “resistência” logo é quebrado para que temor e terror andem lado a lado e a fragilidade seja tão intensa que tudo fica sempre prestes a desmoronar. A vida é transitória, mas a dor não. Ela permanece, fere fundo e a cicatriz não fecha por determinação dos torturadores. A crueldade imposta pelo carrasco contrasta com o amor entre as duas irmãs. Amor e morte, dois extremos da condição humana são postos à prova como determinantes para a sobrevivência.

É possível o amor suplantar a dor de uma perda? Até onde se iria atrás da irmã perdida? Lembra-nos tantos relatos verdadeiros ou fictícios ao longo da história daqueles que deixaram tudo para trás em busca daquela pessoa amada que se perdeu. A literatura nos dá inúmeros exemplos da grandiosidade da força deste amor incansável. É a impossibilidade do luto enquanto houver esperança. Não há como elaborar uma perda enquanto houver a possibilidade de encontrar o que se perdeu. Portanto, só há luto quando há a constatação da morte. Mas para Stasha, Pearl que sumiu após ter ido para o laboratório do “Tio Mengele”, ainda pode estar viva. Por isso a esperança é o remédio, mesmo que seja amargo, para o luto.

Então eu conheci a violência”, diz Stasha. Esta é uma frase que poderia condensar todo o livro: o conhecimento abrupto da violência. O uso da violência premeditada está a serviço do poder de minar as forças de seu alvo. A violência, neste caso, mas em muitos outros, não está apenas interessada no corpo, mas visa a aniquilação do próprio ser. Um ser-para-morte como na expressão de Heidegger. A violência não visa necessariamente a morte, mas pequenas mortes: pedaços aviltados do corpo, partes arrancadas, seringas que cegam, bisturis que maceram a carne. Os cinco sentidos aviltados para que o contato com a realidade só seja feito através do que o mestre dos horrores mandar.

Arte_3O intuito do médico alemão, suas experiências com gêmeos e trigêmeos, não têm como objetivo necessariamente matar as crianças, mas sim tentar saber até que ponto um corpo e uma mente aguentam quando são submetidas a condições extremas. Produzir sofrimento sem matar, parece ser esta a tônica central do Anjo da Morte. Causar dor, retirar órgãos de um irmão para ver as reações do outro. O fenômeno do duplo nunca esteve tão macabramente presente quanto no relato de Affinity Konar.

Elevado a um grau insuportável, a experiência de confrontar um-com-outro na dor e na privação é com o que se delicia perversamente o carrasco. E o perverso é aquele que não consegue se conter mesmo sabendo o mal que irá provocar em seus semelhantes.
No fundo, este livro trata de um contraste brutal. De um lado, a fala das irmãs sobre a impossibilidade de “descrever o que tinha visto” e, por outro, a descrição minuciosa da autora sobre a sequência de torturas e manipulações.

Mas há alguma esperança no livro. Não há só perdas. Há reencontros dramáticos de quem já se julgava exterminado pela “solução final”. Resistência, que fique claro, não é uma história sobre os aliados contra os alemães nazistas. A verdadeira resistência é, sobretudo, do amor e da dignidade humana. Pequenas flores desenhadas na pele sujeita ao desaparecimento. Pequenas alegrias inventadas em sonhos infantis. O aniversário não partilhado. O barulho das bombas e o cheiro dos crematórios, reinventados como contos no meio da noite do trauma. E a devastação do que há de mais singular em cada sujeito era resgatado através de profundas e dolorosas amizades que se sustentam ao longo do livro.

ResistenciaPearl, uma das gêmeas, dá bem a noção disto quando resolve escrever na madeira de seu beliche: “guardiã do tempo e da memória”. Que amor maior pode existir do que querer preservar a lucidez da memória em tempos tão inóspitos e sombrios que desafiam o que há de mais humano em cada um de nós?

Carlos Eduardo Leal é psicanalista e escritor. Autor dos livros A última palavra e O céu da amarelinha lançados pela Rocco.

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