“Releituras constantes e um imaginar sem fim”

A designer Izabel Barreto fala sobre o processo de criação da nova edição de A hora da estrela
16 de maio de 2017


Clarice Lispector não sabe, mas ela foi a grande mestra da designer Izabel Barreto em sua carreira na área de comunicação visual. Apaixonada pela literatura de Clarice desde que teve seu primeiro contato com ela, há mais de 20 anos, a designer carioca dedicou seu projeto de graduação no curso de Comunicação Visual da PUC-Rio a uma análise da relação entre texto e imagem na obra de Clarice que resultou numa interpretação do conto “Os desastres de Sofia”, da coletânea A legião estrangeira, posteriormente publicada pela Rocco em pequena tiragem especial fora de comércio, como parte das homenagens à escritora no ano em que ela faria 85 anos. Izabel ingressava ali, junto com Clarice, no mundo do design editorial. E, de lá pra cá, assinou diversos outros projetos de livros da autora, como Correio feminino e Só para mulheres e o volume de cartas Minhas queridas, sempre unindo olhar afetivo e entrega criativa.

Nada mais natural, então, que seu nome fosse o escolhido para dar forma à nova edição do clássico A hora da estrela, em capa dura e enriquecida com manuscritos originais e ensaios teóricos, neste 2017 em que ele completa 40 anos e que marca também os 40 anos da morte de Clarice. Responsável pela concepção visual e pelo projeto gráfico da nova – e belíssima – edição do romance, o último publicado pela escritora, Izabel revela, na entrevista abaixo, um pouco sobre sua relação com a obra de Clarice Lispector, seu processo de trabalho e os desafios envolvidos na criação do livro que acaba de chegar às lojas de todo o país.

 

 “Tudo no mundo começou com um sim.” O que você sentiu quando disse “sim” ao projeto A hora da estrela – Edição com manuscritos e ensaios inéditos?

A minha sensação é que esse “sim” foi dito quando li A hora da estrela pela primeira vez, há mais de 20 anos. A influência da literatura de Clarice Lispector desde então foi muito forte na minha formação e virou tema de análise da minha monografia – um exercício sobre a relação entre texto e imagem na obra de Clarice. Esse mesmo projeto foi o primeiro “sim” para o design editorial, e quando a edição manuscritos aconteceu, fez um enorme sentido pra mim.

Conte um pouco sobre o seu processo de trabalho, da concepção e desenvolvimento do projeto gráfico do livro ao resultado final. Que conceitos ou referências você utilizou para chegar à edição que os leitores encontram agora nas livrarias?

Foram dois meses, entre imersão, criação e finalização. Esse processo, que contempla análise e síntese em um espaço de tempo definido, é, ao mesmo tempo, o maior desafio e o maior aliado do design, porque é a partir desse dele que a criação alça voo e acontece com sentido.

Especialmente no caso de uma obra de Clarice Lispector, que permite releituras constantes e é um imaginar sem fim. No caso de A hora da estrela, um texto mais que consagrado, o objetivo foi trabalhar o conceito de “versões” para apresentar uma nova forma de se ler a história de Macabea.

Esse conceito está presente na sobrecapa em papel vegetal, que sendo translúcida, revela, ao mesmo tempo, uma foto inédita de Clarice e os grandes protagonistas dessa edição, os manuscritos. Também está presente nas intervenções que acompanham o maravilhoso prefácio de Paloma Vidal, que faz uma análise sobre o processo criativo, a obra final e a relação íntima com o leitor. E por fim, o caderno em quatro cores, apresenta manuscritos selecionados que fortalecem a “nova leitura” por meio das rasuras, da intensidade da cor do papel e da tinta da caneta, a forma das letras. Tem relevo, tem muito afeto.

E qual foi o maior desafio ao longo deste período?

O desafio sem dúvida foi sempre achar um equilibro entre o ineditismo e o consagrado. Eu diria que foi preciso respeito e intimidade com o texto para achar o tom final do projeto, para que  ele fosse valorizado na sua essência.

Para você, qual é o maior diferencial desta edição de A hora da estrela?

A sintonia entre o conteúdo, a forma e a edição de um vasto material para chegar a um livro que fizesse sentido na obra de Clarice Lispector. O projeto flui, acontece, e abre um imenso e consistente universo para quem ainda não conhece o texto e oferece aos fãs um item colecionável, saboreável. Uma nova experiência de ler A hora da estrela.

TAGS: A hora da estrela, Clarice Lispector, Edição comemorativa, entrevista,

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