Oito filmes para o século dezoito

Samir Machado escreve sobre os filmes de época que serviram de referência em Homens elegantes
16 de fevereiro de 2017


Cinema é uma referência inescapável para qualquer um que não viva numa caverna hoje em dia. É difícil, quando penso numa determinada ação, não visualizar ela na minha cabeça com certos enquadramentos, cortes e travellings.

Mas também é uma boa fonte de detalhes que me interessam: pequenos gestos, movimentos e expressões dentro de um contexto específico. Felizmente, parece que há uma cota anual de filmes de época a ser preenchida no mundo, o que fez com que não me faltasse fontes onde buscar referências.

Perdi a conta de quantos filmes ambientados no século XVIII assisti enquanto escrevia Homens Elegantes, mas aqui listo alguns dos que mais diretamente me influenciaram, seja nos detalhes ou no todo.

scaramouche• Scaramouche (George Sydney, 1952)
Filmes de capa-e-espada como esse foram a resposta de Hollywood nos anos 50 ao avanço da TV: muita cor, ação, comédia, aventura e mais cor ainda. Scaramouche é uma típica história do gênero: nobre fútil na França pré-Revolução busca vingança pela morte de seu melhor amigo nas mãos de um marquês arrogante.
O duelo final dos dois, na Ópera de Paris, é a mais longa cena de duelo da história do cinema — começa nos corredores, salta pelas escadarias e avança pela plateia e pelo palco. A aventura de capa-e-espada nunca ficou maior que isso.

barrylyndon• Barry Lyndon (Stanley Kubrick, 1975)
É um fato: cada cena de Barry Lyndon poderia ser emoldurada, cada plano é enquadrado com o rigor de uma pintura. Na época, Kubrick desenvolveu lentes capazes de filmar sob iluminação natural à luz de velas, para captar melhor o visual do período. As lentes eram tão sensíveis que, diante da necessidade de permanecerem imóveis (para não borrar a imagem), cenas inteiras tem sua ação estabelecida através de jogos de olhares entre os personagens — como a sedução de Lady Lyndon num jogo de cartas.

amadeus• Amadeus (Milos Forman, 1984)
Além dos motivos habituais — considero esse um dos melhores filmes de todos os tempos — o que mais me faz gostar de Amadeus são os pequenos detalhes de personalidade. O modo como Salieri se relaciona com o mundo ao seu redor, por exemplo, sempre mundano e oportunista, mas nunca sem deixar de admirar o que o cerca. Ou como sua gula o conduz pelo enredo: é roubando um doce que ele conhece Mozart, e é com doces de marzipã (chamados capezzoli di venere, ou “peitinho de vênus”) que ele ludibria Constance Mozart.

farinelli• Farinelli, il Castrato (Gerard Corbieu, 1994)
É pouco conhecido hoje em dia que, por séculos, a presença de mulheres cantando em igrejas era considerada indecente. Para suprir a necessidade de vozes agudas e femininas, costumava-se castrar meninos antes que atingissem a puberdade — um hábito bem menos impróprio e indecente, aos olhos da Igreja. Os castrati arrastavam multidões ao teatro, e deles, Farinelli foi o equivalente barroco à um rockstar. Esse filme italiano, ainda que com enormes liberdades quanto aos fatos, capta bem o espírito dessa época, com direção de arte e figurinos espetaculares.

plunkettmacleane• Plunkett & MacLane (Jake Scott, 1999)
Caso típico de um filme que é melhor pelo que tenta ser do que pelo que de fato consegue. Dirigido pelo filho do Ridley Scott, tenta reproduzir o estilo dos filmes do Baz Lhurmann aplicado numa trama de ação com toques de Trainspotting. O filme romanceia a história real de dois assaltantes das estradas. Em Homens Elegantes, os personagens de Maria e Fribble foram inspirados, respectivamente, nas atuações de Liv Tyler e Alan Cumming nesse filme.

amanterainha• O Amante da Rainha (Nikolaj Arcel, 2012).
A figura política típica do século XVII foi a do “déspota esclarecido”. Johan Struensee foi o equivalente da Dinamarca ao nosso Marquês de Pombal: um governante esclarecido e autoritário, que tentou tirar se país do obscurantismo na marra, mas cometeu o erro de ter um caso com a própria rainha. O protagonista é interpretado pelo sensacional Mads Mikkelsen, e a rainha, pela oscarizada Alicia Vikander. Além disso, o filme também mostra a relação conturbada da época entre livros, censura e poder.

Belle• Belle (Amma Asante, 2013)
Uma história real peculiar: filha de um capitão naval e uma escrava, Dido Belle foi criada por seu tio, um dos homens mais poderosos da Inglaterra na época, como dama de companhia de sua prima. Pela cor de sua pele, era “baixa demais” no ranking social para sentar-se à mesa com a família, mas “alta demais” para juntar-se aos criados. A trama complica quando as duas primas se apaixonam pelo mesmo pretendente.

mestredosmares• Mestre dos Mares: O lado mais distante do mundo (Peter Weir, 2003)
Ok, esse foge um pouco: 1805 já saiu seis anos do século XVIII, mas a tecnologia naval e a vida na marinha ainda é a mesma. Além disso, esse filme tem as batalhas navais mais impressionantes e realisticamente filmadas que já assisti, uma óbvia referência que usei para o clímax de Homens Elegantes — inclusive a manobra executada por Russel Crowe no filme, o tiro de enfiada, é a mesma.

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