O bom do amor segundo Chris Melo e Laís Soares

Rodrigo Casarin entrevista as autoras de O bom do amor
8 de maio de 2017


Qual é o bom do amor? É aumentar o volume do rádio quando a música preferida do outro toca. É saber que sempre vai ter um colo gostoso pra gente tirar um cochilo. É reconhecer no outro a paz que falta na gente e poder pegar um pouquinho dela para si. É saber conviver numa boa com o silêncio e com o barulho do outro.Para falar sobre o lado bom – e os momentos nem tão brilhantes assim – de estar em um relacionamento amoroso, a escritora Chris Melo, conhecida por livros como Sob a luz dos seus olhos e Sob um milhão de estrelas, e a ilustradora Laís Soares se juntaram em O bom do amor. O trabalho traz ilustrações ternas, feitas em aquarela, acompanhadas de frases breves, mas repletas de significado, que primeiro apareceram nas redes sociais da Rocco e agora viraram livro. Nas mídias onde algumas das artes já tinham sido compartilhadas, aliás, é possível perceber como elas vêm mexendo com o público: é comum encontrar com gente se declarando para seus companheiros e até aproveitando para pedir desculpas.

Para falar desse trabalho, estive com Chris e Laís em mais uma edição do Papo de Bar – que dessa vez, por conta das agendas, foi um Papo de Café no começo de uma tarde. Sentamos em uma mesa de canto no charmoso mirante da Avenida Nove de Julho, em São Paulo, e, claro, falamos sobre O bom do amor: Como surgiu a ideia? Como foi o trabalho a quatro mãos? De onde veio o gato impagável que muitas vezes rouba a cena da tira (uma tatuagem de pata de gato no braço esquerdo de Laís já dava uma dica para a resposta)? A dupla – que, para minha surpresa, se conheceu pessoalmente no dia da conversa – falou sobre tudo isso. Confira:

O bom do amor

Chris Melo: Existe amor no mundo, nem que seja por um momento. O mundo é uma droga, sempre foi. Em todo período da história um pedaço da humanidade sempre esteve fazendo barbáries, crueldades… Tudo isso é do humano. Mas o amor e a compaixão também são, não podemos esquecer disso. Falo de amor porque eu acho que de todas as ausências que o ser humano pode ter, essa é a que mais traz prejuízos. Por falar de sentimentos, tinha muito medo da minha literatura ser tachada de mulherzinha, mas falo que, no máximo, aqui é literatura de mulherão. Quando eu dou um laço afetivo para um personagem, aumento o peso das decisões dele. Se não tivesse isso, ele não teria nada a perder.

Laís Soares: É maravilhoso lembrarmos dessa importância do amor tanto pelo desenho quanto pela escrita. Dava um calorzinho quando eu fazia esse trabalho: são situações muito reais, típicas de relacionamentos saudáveis. Tudo ali realmente acontece, até as coisas que não são ideais, mas fazem parte de uma relação. Não tem nada daquela coisa batida, idealizada, por isso as pessoas realmente se identificam com os quadrinhos.

Personagens com gênero aberto

CM: Eu pedi para que os personagens tivessem gêneros abertos para que a pessoa olhasse e pudesse interpretar se são duas meninas, dois meninos ou um menino e uma menina. Nos textos não há nenhuma referência a isso, é sempre “o outro”, nada de ele ou ela. Queria que eles tivessem suas características próprias, mas sem definir o sexo. Tenho muito leitor homossexual e eu não escrevi um romance LGBT ainda porque não me sinto preparada, não quero que seja caricato. Aí, nesse projeto, quem olhar pode pensar “sou eu”.

LS: Nos comentários do Facebook tem muito casal de meninas. Tinha a orientação pra isso, na minha cabeça são sempre os personagens A e J, sem sequer nomes.

Gatinho

CM: O gato foi ela que colocou: o gato com calor estirado, o gato com dúvida… E achei isso incrível porque todo mundo ama gato. As pessoas ficaram apaixonadas pelo gato e eu nunca dei instrução para que ela o colocasse, então o mérito é todo da Laís. Ele é tão demais que até foi para a capa. Além disso, em alguns momentos, ele demonstra que em diversas situações só o casal consegue se entender, mais ninguém, nem mesmo quem mora com eles.

LS: Faço parte das pessoas que não têm namorado e achei que visualmente o gato poderia agregar. Tenho três gatinhas: a Chelly, a Polanka e a Tulipa, elas têm personalidades muito fortes, bem marcadas. Gato é um bicho que já é um personagem na vida real e há algumas coisas gerais na relação dos humanos com os gatos, como o ar superior com que eles nos olham. Como gato na internet bomba e eu conheço bem esses bichinhos, achei que encaixaria bem nos desenhos. E foi mesmo o que aconteceu.

Trabalho a quatro mãos

LS: Não foi um processo que poderia chamar exatamente de fácil, mas as descrições da Chris para cada quadrinho eram bem pontuais. Como já tínhamos aprovado as características dos personagens e ela me dava o norte da cena, eu estudava a composição, fazia rascunhos com o lápis – todo o processo foi extremamente manual –, realizava os ajustes necessários, passava para o papel de aquarela em uma mesa de luz improvisada e pintava tudo à mão para, na sequência, finalizar no computador. Foi uma ilustração atrás da outra, umas 80 em cerca de dois meses. Foi bem pauleira, mas trouxe algo que gosto muito no meu trabalho: usar o desenho para provocar emoção, e os textos da Chris já são cheios de emoção e sensibilidade.

CM: Tudo o que escrevo é baseado em vivência e observação, e em O bom do amor não foi diferente. Nesse trabalho, desenho e frase se completam. Tudo era muito novo, pensava em umas frases que depois falava: “Não dá pra transformar em um desenho, é muito abstrato”, aí eu trocava a frase. Parece que não, mas essas frases me deram muito mais trabalho do que um capítulo de um romance, por exemplo. Precisava condensar uma ideia em um espaço muito pequeno e tinha muito medo de ficar bobo. As frases precisavam ter senso de humor, algumas tinham que ser mais profundas, outras podiam trazer algo muito comum, mas muito bonito, há aquelas que remetem à minha escrita…

A ideia

CM – No ano passado eu publiquei meu romance Sob a luz dos seus olhos em janeiro e o de contos O livro delas com outras oito escritoras, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, e gostei muito dessa dinâmica. Pensei em cada ano fazer um romance e um projeto diferente; ideia maluca não falta. Imaginava escrever uma história em quadrinhos, que eu adoro, mas falando sobre pessoas, nada de super-heróis. O ser humano é muito vasto, complexo, não é porque escrevo romances que só sei fazer isso.

Falei com a editora, ela gostou e, para um primeiro projeto, nós pensamos em começar pela internet, que é um ambiente que me agrada demais, converso muito com meus leitores pelas redes sociais. Nisso eu nem pensava em ilustradora, ainda era só uma ideia, mas eu não desenho nem boneco de palito. Aí fiz umas ceninhas, um modelo, coloquei o nome provisório de O bom do amor – que a editora amou e acabou se tornando definitivo – e acertamos como seria o projeto, que deveria ter uma identidade única, algo original dentro do que se propunha a ser.

Eu e minha editora nascemos nos anos 1980 e sabe que isso é fogo, né!? Então, tem mesmo a influência das figurinhas do Amar é… lembra mesmo, mas lá os personagens ficavam sem roupinha e com uma parreirinha na frente, cobrindo o sexo. Enfim, aí começamos a caçar desenhistas pela internet, vimos desenhos de um milhão de artistas e chegamos na Laís.

Delicadezas que se complementam

LS: A editora da Rocco já tinha entrado em contato comigo pelo meu Tumblr para que eu fizesse uma capa para outro livro, mas acabei vendo a mensagem só depois de cinco meses, não andava acessando minha conta por lá. Fiquei doida, meu sonho era trabalhar com design editorial. Quando respondi, o projeto já tinha sido finalizado, mas ela falou “tenho esse aqui que talvez te interesse”. Nunca tinha feito nada em relação a quadrinhos, só ilustrado alguns textos meus e alguns de outras pessoas, nada muito sério. Mas aí mandei um teste e elas gostaram.

CM: A editora falou que o traço dela combinava muito com minha escrita por causa da delicadeza. E eu gostei por ser aquarela, algo que não vejo muito. É um primeiro projeto, mas gostaria de fazer outros em aquarela. Pra mim foi muito novo porque minha escrita é muito subjetiva e eu precisava dar um norte para que ela desenhasse. Mandei uma planilha pronta com as frases e as ideias de ilustrações, quando a Laís chegou já estava com o projeto praticamente todo pronto, faltavam mesmo os desenhos.

* Rodrigo Casarin é jornalista

TAGS: #OBomDoAmor, amar é, Amor, Chris Melo, Laís Soares, O bom do amor, Papo de bar, tirinhas,

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