O segredo de sobreviver

por Márcio André Sukman
15 de maio de 2017


O Holocausto transformou-se em um dos acontecimentos historiográficos mais importantes do Ocidente e atrai o fascínio de um grande público seja pela sua característica superlativa, seja por revelar o que é considerado a face do mal.  Esse interesse converge para a busca da compreensão desse complexo e intrigante fenômeno. À primeira impressão sempre nos leva a acreditar ser um acontecimento extraordinário, um momento da história singular que jamais ocorrerá novamente. O nazismo como um regime criado por monstros sanguinários, movidos por um ódio aos judeus, cujas raízes são frutos de uma eterna especulação.

No entanto inúmeros intelectuais, como fez Hannah Arendt, revelam que a máquina de extermínio foi resultado de um trabalho executada por pessoas ordinárias, seja nas posições de mando, seja nas tarefas mais comezinhas, cumprindo ordens dentro de uma organização. Zigmunt  Bauman impressionou ao sublinhar ser o Holocausto um produto gerado pelas próprias condições propiciadas pela Modernidade, na qual uma burocracia exerce a função para qual foi designada,  baseada na racionalidade técnica, sem qualquer compromisso ético.

Inúmeras indagações também surgem para compreender como as vítimas do Holocausto – pessoas comuns – conseguiram sobreviver nesse processo de desumanização criado pela engrenagem da morte nazista.  Muito se repete que jamais iremos saber, pois o universo concentracionário, seu clima, as condições sanitárias, o cheiro da morte, o paladar da sopa rala de raízes é algo impossível de traduzir: o indizível consagrado pelo sobrevivente e escritor Elie Wiesel. Nesse ponto a arte, a literatura, a emoção pode se apresentar com uma chave para nos aproximar ao menos do sentimento humano, da irrealidade dessa dor.

Isso é o que proporciona o romance Resistência escrito por Affinity Konar, baseado na história das gêmeas romenas Eva e Myriam Mozes e num trabalho de pesquisa bastante acurado. Nele tomamos contato com a história das irmãs Stasha e Pearl, de 12 anos de idade, a partir de sua chegada o campo de Auschwitz. Por serem gêmeas ganham o direito à vida no campo de extermínio, onde passam a fazer parte do “zoológico”, um antigo estábulo, no qual crianças são submetidas as terríveis experiências do médico, que se tornaria um dos criminosos de guerra mais procurados no mundo – Josef Mengele.

O livro nos leva para essa realidade de experimentação que transforma as gêmeas, desde seu primeiro momento, quando o resto da inocência infantil das meninas – ao se esconderem dos guardas sob o casaco do zeide (avô em idische) – é “barrada” nas mesas de seleção na entrada de Auschwitz. Após o desaparecimento do pai no gueto, das terríveis condições dos trens de deportação e da separação da família no campo ingressam definitivamente nesse novo mundo.  Em face do terror e da violência obrigatoriamente amadurecem e aprendem a esquecer o que é medo. Adotam um jogo paralelo, um certo faz de conta para suportar a situação real, para sobreviver.  Stasha, por exemplo, através das experiências, imagina ter obtido o poder da imortalidade. “…Era uma sensação boa acreditar em alguma coisa para variar. Fazia com que eu me sentisse real. Acreditando, eu era menos cobaia e mais menina”.

As experiências médicas, com retiradas de órgãos, perdas de audição e visão, destroçavam paulatinamente as irmãs, submetidas ao constante processo de coisificação.  Já se conscientizavam que Auschwitz, a sombra do “anjo da morte”, os números tatuados jamais desapareceriam de suas vidas. Assim Pearl definia sua sensação após ficar um longo tempo sob experiências: “ Soube que estava viva pois não havia paz nenhuma”. Nesse novo mundo a resistência parecia possível apenas por meio da adoção de uma finalidade para a vida: o sentimento de vingança da maldade exercida por Dr. Mengele.

Resistência constrói uma narrativa densa que consegue nos drenar para as macabras salas escuras dos laboratórios, para sentir a angústia da ausência, de sofrer junto a incerteza da sobrevivência. Ao mesmo tempo se revela com delicadeza, ao apresentar crianças que começam a descobrir a paixão, o valor da amizade, a solidariedade, a cumplicidade de irmãos em meio ao caos da vida concentracionária. Essa realidade dos sobreviventes, que em um interlúdio tiveram sua vida arrancada e que lutaram para retomá-las. Talvez aí tenhamos uma resposta: jamais perderam sua capacidade de amar e, assim, viver.

Márcio André Sukman é historiador e coordenador do Grupo de Estudos do Holocausto associado à Secretaria Municipal de Educação.

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