O desafio de ilustrar Clarice

Entrevista com Carla Irusta
10 de maio de 2014


Em 1974, Clarice Lispector conheceu um de seus grandes companheiros, Ulisses, um vira-lata carioca com pelo castanho cor de guaraná e olhar de gente. O cão que também deu nome ao personagem filósofo de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres é o narrador de Quase de verdade, livro infantil da escritora que acaba de ganhar nova edição com ilustrações de Carla Irusta.

Leitora de Clarice desde a infância, Carla levou seus esboços para uma casa de campo e deu vida ao doce e malandro Ulisses rodeada por árvores — entre elas uma grande figueira. Na entrevista abaixo, ela conta como sua paixão por livros a levou à ilustração, quais foram as obras que marcaram sua infância e os desafios de criar uma narrativa visual para um texto de Clarice Lispector.

Quando foi convidada para ilustrar Quase de verdade, você já conhecia a obra infantil de Clarice Lispector? O que mais chamou a sua atenção no texto da autora para crianças?
Adoro Clarice Lispector. O mistério do coelho pensante era um livro do coração na minha infância. Com o tempo, a Clarice sempre me acompanhou. Hoje, relendo a obra infantil dela, percebo que é uma leitura para todo mundo, de 0 a 100.

Conte um pouco sobre o processo de trabalho com o livro. Qual foi o maior desafio neste trabalho?
Em geral o processo foi bem fluido, tranquilo. Me identifico muito com o campo,  os animais, as plantas e os pomares. O desafio? Bem, ilustrar um livro da Clarice Lispector é um enorme desafio! Plasmar em imagens um texto tão precioso e perfeito foi o mais complicado.

Depois de ler e reler, levei tudo para uma casa de campo, cheia de árvores frutíferas entre elas uma grande figueira (cheia de figos), onde terminei os esboços. Uma vez terminada a criação dos personagens e da narrativa visual, a hora de finalizar colorindo foi só alegria.

Você é formada em jornalismo, certo? Como a ilustração surgiu em sua trajetória e quando decidiu dedicar-se exclusivamente a ela, trocando as letras pelo desenho?
Eu era apaixonada pelo jornalismo e ao contrário da maioria dos ilustradores eu não desenho desde pequena. A minha loucura era pelos livros, e foi assim que eu cheguei na ilustração.

Comecei a me interessar pela edição de livros para crianças e no meio do caminho fiz um curso na Universidade Autonoma de Barcelona, onde uma das matérias era pôr a mão na massa e ilustrar. Foi assim, devagar, meio sem querer, que acabei me transformando em ilustradora.

Infelizmente não dá tempo pro jornalismo, outra profissão que requer dedicação total. Quem sabe um dia eu volto…

Você nasceu no Brasil, morou na Argentina e atualmente vive em Barcelona. Por que escolheu a cidade? De que forma essas mudanças influenciam seu trabalho como ilustradora?
Na minha família viajar, migrar, está no sangue. Cada um é de um lado e viveu por todo canto. Então, não tinha outra saída pra mim…  Barcelona, como a ilustração, também foi coisa do acaso. Fui para ficar um par de meses e acabei ficando 10 anos!

Sei que a cidade me transformou. É um lugar de convivência entre gente muito diferente. Árabes, chineses, brasileiros, marroquinos, pobres e ricos, crianças e idosos convivendo todo o tempo em uma cidade viva, com as ruas cheias, poucos carros, muitas bicicletas, praia e montanha. Um lugar de contrastes e tolerância. Por isso, tento romper esquemas, sair da caixa, ser livre e colocar isso no meu trabalho sempre.

Que livros você gostava de ler quando criança e quais são as suas principais referências em seu trabalho como ilustradora?
Eu gostava de livros. Todos. Mas tem um que é o meu xodó e sempre foi. Dois idiotas sentados cada um no seu barril, texto da Ruth Rocha e ilustrações do Jaguar. É um livro superousado e irreverente que rompe maravilhosamente com o conceito de “isso não é para criança”.

Outra paixão é Monteiro Lobato, que ficou com horas e horas da minha infância. Passei grandes momentos com a Emília e tenho orgulho dessa obra brasileira.

Essa deve ter sido a primeira história contada (ou melhor, latida!!!) por um cachorro que você ilustrou! Como você chegou ao Ulisses do livro?
Quando comecei a conversar com a Manon (editora da Rocco), ela pediu para eu enviar algumas provas de personagem. Logo no primeiro esboço que fiz senti que era o Ulisses, esse cachorro doce e malandro ao mesmo tempo, alegre com olhar triste.  Pensei nos meus cachorros todos, pensei na Clarice Lispector escrevendo em casa com ele, e ele veio!

TAGS: Clarice Lispector, ilustração, livros infantis, Quase de verdade, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres,

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