Margaret Atwood: Diálogos entre Era Trump e República Gilead

Por Michelle Henriques e Juliana Leuenroth
16 de fevereiro de 2017


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Ler O conto da Aia em tempos de Donald Trump na presidência dos EUA torna a experiência um pouco mais assustadora. Há muitos paralelos entre ficção e realidade, e projetar a República de Gilead, ao pensar no futuro norte-americano, neste contexto não parece nenhum exagero. Após a posse de Trump, e suas primeiras medidas presidenciais, as vendas do romance distópico de Margaret Atwood ambientado num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão apresentaram um crescimento inesperado. Ainda que seja um clássico moderno, o movimento causou certa surpresa.

As respostas para isso podem ser variadas. A partir do novo governo, o país deu uma guinada conservadora, xenófoba, manipuladora de fatos e com fortes tendências à violência estatizada, o que gerou um estado de medo entre os cidadãos dos Estados Unidos, e apreensão de outros países. Soluções para o dilema podem surgir de diversos lugares. Dentre eles, a literatura. E a ficção científica se abre como um campo de hipóteses e previsões.

A ficção científica sempre foi notória por prever o futuro. George Orwell em seu famoso 1984 relata uma sociedade que muito se assemelha à nossa. Podemos dizer que o seriado Black Mirror nada mais é do que uma adaptação das clássicas distopias. O mesmo acontece com a obra de Atwood. Estamos vivendo uma era em que um grande magnata americano, com pouco conhecimento político, comanda a maior potência mundial. E como consequência disso, suas ações têm sido desastrosas.

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Em breve, o livro também ganhará uma adaptação audiovisual para o canal de streaming Hulu

Recentemente foi noticiado que o presidente pretende retirar as fronteiras entre o exercício político e a religião, liberando que bancadas religiosas tenham ainda mais poder, além do que já possuem nos bastidores da política. A laicidade do estado está assegurada pela Emenda Johnson, o que garante liberdade entre as esferas, e de liberdade da população em praticar outras religiões, além do protestantismo, que predominou durante a fundação do país. Ao ver a notícia é impossível não relacionar com o que a protagonista de Atwood, Offred, nos relata sobre Gilead.

Margaret Atwood afirma que seu livro O Conto da Aia foi inspirado por estudos que ela fez da América do século XVII e de seus valores puritanos. Trump quer restringir os direitos ao aborto e penalizar mulheres que passarem pelo procedimento. Além de segregar populações inteiras e proibir a entrada de pessoas de algumas nacionalidades que são consideradas uma ameaça em potencial. Isso é um claro retrocesso ao período a que a autora se refere.

Trump fala da criação de um muro que separe o México dos Estados Unidos, essa segregação racial já nos é familiar desde os tempos de Hitler. Atwood aborda isso em O Conto da Aia, em que as pessoas “indesejáveis” vão para as Colônias, onde vivem em regime de trabalho forçado.

A questão da mulher e do patriarcado está em boa parte da obra de Atwood. Em O Conto da Aia, toda a ação gira em torno da narradora, Offred, que sofre com limitações de liberdade e com a violência de gênero. Em seu livro Dançarinas, ela traz o conto “Betty”, em que aborda a mulher de classe média que leva aparentemente uma vida perfeita, de acordo com o esperado pela sociedade. Já no conto “O Marciano” ela nos traz a questão da mulher fora dos padrões que passa a ser assediada por um estranho homem, e como isso desencadeia questionamentos a respeito de alguém gostar dela, mesmo com uma aparência não como esperada.

Em seu livro recentemente lançado no Brasil Dicas de Imensidão, Atwood também traz questionamentos a respeito da mulher na sociedade patriarcal. No conto que fecha o livro, ironicamente intitulado “Quarta-feira inútil”, a autora nos apresenta uma mulher já mais madura, que vive a vida que seu marido impõe. Ela não questiona os costumes dele, ela não coloca as vontades dela acima das dele, apenas segue a vida como ele dita e se diz feliz ao sentar para fazer uma refeição (de acordo com o que ele julga bom) e apreciar uma taça de vinho.

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Ainda neste paralelo entre ficção e realidade, no dia 21 de janeiro de 2017, mais de 500.000 pessoas (a maioria mulheres) se reuniram em Washington para protestar a favor dos direitos humanos, principalmente os direitos das mulheres. O protesto também englobou as novas políticas de imigração, do sistema de saúde, os direitos LGBTQ, igualdade racial, liberdade de religião e direitos dos trabalhadores. Esse protesto ficou conhecido como Women’s March – em livre tradução – Marcha das Mulheres.

O protesto foi motivado pela eleição do Presidente Donald Trump e se mostrou contra as atitudes discriminatórias do mesmo contra as mulheres, imigrantes, pessoas negras e latinas. Foi o maior protesto ocorrido nos Estados Unidos em um único dia. Ao contrário do que vemos em O Conto da Aia, as mulheres se rebelaram, estão cansadas da opressão e saíram às ruas exigindo igualdade entre os sexos. Houve um levante imediato contra o Presidente recém-eleito, antes que fosse tarde para qualquer manifestação de descontentamento com suas políticas.

Neste momento mais que oportuno, em abril deste ano, estreará uma série de TV baseada em O Conto da Aia. Haverá algumas diferenças na série em relação ao livro, como por exemplo, a questão da supremacia branca. Enquanto que no livro apenas é citado que as minorias são enviadas para as Colônias, na série teremos uma protagonista negra.

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Submissão da mulher aparelhada pelo estado, segregação, estados totalitários e não laicos são temas recorrentes na obra de Atwood, e infelizmente uma realidade atual dos Estados Unidos. É um tanto quanto pessimista pensar que estamos regredindo tanto, mas é um tema atual que deve ser debatido e combatido. O pessimismo se faz presente, mas não anula a força das pessoas de se levantarem contra aquilo que julgam ser desastroso para a humanidade. E já tivemos provas de como esse tipo de governo pode dizimar populações inteiras.

Margaret Atwood nasceu em 1939 em Ontário, no Canadá. Ela já publicou mais de 15 romances, e também diversos livros de poesia e contos em revistas. Ela foi ganhadora do Arthur C. Clarke Award e do Prince of Asturias Award, já foi indicada ao Booker Prize cinco vezes, e ganhou uma.

Michelle Henriques e Juliana Leuenroth são mediadoras do Leia Mulheres São Paulo.

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