Homens Elegantes

Por: Samir Machado de Machado
2 de setembro de 2016


homens-elegantes3Quando comecei a escrever esse que se tornou meu novo livro, tinha para mim duas ideias bem claras. A primeira: eu queria aproveitar materiais de pesquisas históricas sobre a sociedade do século XVIII e do Iluminismo, coisas que ficaram de fora do meu livro anterior, Quatro Soldados, pelo motivo de que meus protagonistas, estando no meio do mato, não tinham muita sociedade com o qual interagir. A outra era que meu protagonista, um espião e herói de capa e espada calcado em dezenas de romances de aventura e espionagem que já li na vida, seria gay. Uma ideia que surgiu de um lugar inusitado, uma passagem do romance As Horas, de Michael Cunningham, onde um ator e um produtor de cinema discutem se o público estaria preparado para aceitar um filme de ação com um protagonista gay. Curiosamente, os direitos para o cinema do meu livro acabaram sendo vendidos antes mesmo dele encontrar uma editora, o que tornou esse questionamento ainda mais pertinente.

A ideia da trama assumiu uma forma mais concreta quando conheci Londres pela primeira vez – a cidade que ambientava tantos dos meus livros e autores favoritos. Enquanto eu, brasileiro vindo de um estado periférico de um país em eterno atraso social, me deslumbrava feito caipira na cidade grande com uma cidade que fora o centro nervoso do mundo por tanto tempo, me ocorreu que também era sobre isso que meu livro trataria. Érico Borges, meu protagonista, é um fiscal de alfândega brasileiro e veterano da Guerra Guaranítica, que é enviado a Londres em 1760. Seu objetivo é investigar uma rede de contrabando de um dos artigos mais controlados no comércio brasileiro de então: livros. Assim, ele se vê saindo de um Brasil Colônia de mentalidade quase medieval, direto para um dos centros nervosos do Iluminismo.

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Pedir que o autor resuma sobre o que se trata o livro é sempre uma coisa dolorosa, pelo tanto que parece redutora. Meu livro é sobre assumir identidades, é sobre o impacto da leitura sobre o indivíduo, sobre o poder destruidor das certezas absolutas contra o questionamento. É também sobre confeitaria enquanto arte, arte enquanto comércio, comércio enquanto religião. Em cinema, há essa noção do filme high concept, um conceito que possa ser resumido em uma única frase direta, muitas vezes comparativa. Uma vez que o livro dialoga com várias dessas questões – catarse pública, a efetividade dos clichês, a linguagem de cinema e teatro – resumi-lo num high concept é uma tentação. E nesse caso eu diria que é uma cruza entre Barry Lyndon e James Bond, mas também poderia dizer que é como se Merchant/Ivory adaptasse Os Três Mosqueteiros. Por um longo tempo, e ao melhor estilo Tristam Shandy, pensei em chamar meu livro de “Os Acontecimentos e Sucessos de Homens Elegantes”, mas por fim fui acometido por uma onda de sensatez, e fiquei com a versão sucinta: Homens Elegantes.

Samir Machado de Machado é escritor

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