Entrevista com Alexandre Rampazo

Autor de A cor de Coraline fala sobre a técnica e as mensagens presentes em seu livro
28 de abril de 2017


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1. Como surgiu a ideia para trabalhar o assunto cor da pele em um livro infantil?
Mais do que simplesmente abordar o assunto, queria que houvesse um pensar sobre conceitos que são inseridos no nosso dia a dia, em nosso convívio, atitudes que temos no falar, no gestual, no agir que entram numa automaticidade e que nem nos apercebemos.

Em 2013, a Gabriela, minha filha, era voluntária num abrigo para crianças não assistidas. Ela sempre contava aqui em casa curiosidades sobre seu convívio com as crianças, sobre as desigualdades. Certa vez, num papo entre nós, ela colocou uma situação que havia causado estranheza e espanto. Numa atividade sobre identidade, as crianças se desenhavam. Um menino virou-se para ela e disse: “Tia, tem o lápis cor de pele?”, o relevante aqui é que era um menino negro, que procurava um lápis rosa, e que entre os lápis que ele revirava estava o lápis marrom.

A Gabriela então respondeu com outra pergunta: “Cor de pele? E qual é o lápis cor de pele você está falando?”. Ele ficou reticente com aquela colocação dela. Parecia que nunca havia passado este questionamento na cabeça dele. Penso que se ele tivesse tido mais acesso a discussões deste tipo, sobre sua identidade, talvez se sentisse legitimado em algum momento. Acho que tudo passa muito por isso: se sentir legitimado, ter um pensamento crítico e questionador. E isso depende de uma série de fatores. Educação é um deles.

A cor de Coraline é somente uma forma de apontar para o leitor, criança ou adulto, um olhar ao assunto. Principalmente porque questões sobre minorias devem sempre ser discutidas.

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2. Você se lembra de como coloria as figuras humanas e os animais de seus desenhos quando era criança? De que cor usava para pintá-los?

Confesso não recordar. A memória engana demais. Meu referencial é de algumas garatujas que eu fazia quando criança, que chegaram a ser guardadas pelo meu pai, e são as únicas referências que eu tenho do que eu fazia, como eu desenhava e pintava. Muito provavelmente meu “lápis cor de pele” era o rosa também, assim como o Pedrinho e como grande parte das crianças que fazem essa leitura.

Somos construídos pelo nosso entorno, pelo nossos acessos, os gostos e o repertório que criamos a partir dessas referências. Se na tevê, na mídia, na cultura geral é valorizado esteticamente um só tipo, uma etnia, uma estética, sem nos darmos conta passamos a olhar numa só direção. O referencial estético passa a ser praticamente um só.

A liberdade criativa, expressiva, imagética de uma criança é riquíssima. Ele pode pintar um girassol de lilás, um rinoceronte de amarelo ou uma nuvem de azul, mas o referencial de cor de pele quando elas pintam num desenho descompromissado, mesmo entre crianças negras, é a cor rosa que representa na leitura delas, a cor da pele branca.

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É evidente que uma criança branca que faz uma representação de si mesma num desenho, acaba por usar uma cor de lápis mais próxima de como ela se enxerga, porém uma criança negra não deveria ter como referencial representativo para si mesma, uma cor que não diz respeito ao que ela é, a sua identidade. E mesmo a criança branca não deve ter a ideia que de uma cor de pele seja única, que seja somente a dela.

Acho importante um olhar mais amplo para isso. E passa por uma discussão na escola, sociedade e principalmente em casa.

3. Fale um pouco do seu processo de criação de álbuns ilustrados. No caso de A cor de Coraline, o que veio primeiro: as imagens ou o texto?

Ilustracao2Eu realmente não tenho um padrão estabelecido dentro do meu processo criativo. Existem uns disparadores embrionários para uma ideia, mas não posso dizer que é um padrão definido. Às vezes as ideias surgem de um gesto, uma observação, uma frase. Outras, a partir de um desenho. O mais importante para mim é que a narrativa entre texto e imagem se combinem de uma forma que se tornem complementares, harmônicas e tornem o objeto livro único.

A primeira imagem do Pedrinho pedindo o lápis cor de pele para Coraline, com toda aquela certeza que havia neste pedido do personagem, ali parado com a mão estendida, me veio à mente logo depois refletir sobre este papo que eu tive com a minha filha, então posso dizer que neste caso o conceito, a ideia do livro e a imagem nasceram juntas em Coraline. Ao menos o início criativo deste processo.

4. Fale um pouco sobre essa espécie de dança entre as páginas quase brancas, as supercoloridas e o texto ao longo do livro.

Em todo o fazer criativo do livro, uma coisa para mim estava clara desde o início: nas reflexões de Coraline sobre o que seria um lápis cor de pele, o tempo estaria suspenso.

Eu precisava tratar isso de uma forma que fosse rica visualmente e que representasse esse instante da personagem.

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O Pedrinho congelado com a mão estendida sempre na mesma posição, no lado esquerdo da página, essa repetição era o contraponto que eu queria para o lado direito da página, com o pensamento imaginativo e questionador de uma criança como a Coraline.

O livro inicia num close, com um questionamento. Todo o miolo do livro é uma fração de segundo do pensamento de Coraline. No encerramento outro close, com uma resposta para aquela pergunta lá do começo da história.

A mágica que o livro proporciona também está no diálogo do leitor em poder determinar esse tempo suspenso no gesto do virar das páginas. Tem uma divisão clara ali entre um pensamento “congelado”, com a predominância do branco, e um pensamento questionador, rico, onde a ação do livro de desdobra e acontece.

5. A personagem Coraline tem em mãos uma caixa com 12 lápis cujas cores são como personagens da história. Fale um pouco sobre a técnica escolhida e o processo de ilustrar esse livro.

Arte_2Desde o início eu quis trabalhar com uma técnica seca para A cor de Coraline. A relação da personagem com sua caixa de lápis de cor para mim era determinante para fazer que o leitor tivesse uma experiência visual próxima com o que acontece na história, então, minha escolha foi por usar lápis para dialogar com a ação. Usei também pintura digital usando o mesmo recurso da estética do lápis colorido. Foi praticamente uma escolha natural.

Cada página do livro é uma reflexão de Coraline, que ela usa de forma muito imagética. O desafio maior para mim foi usar somente uma cor e seus variados tons para cada uma dessas cenas. Fazer uma página toda em azul e variar nuances, volumes e profundidades não foi tarefa das mais fáceis, mas acredito, a Coraline acabou criando boas imagens.

6. Os retratos multicoloridos de Coraline, no final do livro, são uma referência a Andy Wahrol? Se sim, comente essa escolha.

Sim, ali temos uma Coraline by Andy Warhol, um achado para o mundo das artes!
Precisávamos de mais uma dupla para fechar o livro, que fizesse parte da narrativa, mas ao mesmo tempo fosse um encerramento além do texto. Adoro usar referências de grandes artistas. Amo Klimt e Schiele, só pra citar dois gigantes. Gosto muito do trabalho de Andy Warhol, e achei que dialogava muito esteticamente com o livro. Colocar a Coraline ali, multicolorida, multiplicada, representando o quanto diferentes somos todos. mas, por detrás de tudo aquilo somos somente um, foi um fechamento que exemplifica um pouco do todo que há em A cor de Coraline.

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TAGS: A cor de Coraline, Alexandre Rampazo, branco, cor de pele, Coraline, descontrução, entrevista, naturalização, preconceito, preto,

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