Elas são Scarlett O’Hara

A herança da icônica protagonista de ...E o vento levou nas personagens femininas da atualidade
8 de dezembro de 2016


Por: Helena Gomes*

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Fã de clássicos do cinema com certeza já ouviu falar de Scarlett O’Hara, a protagonista de …E o vento levou, filme de 1939, uma adaptação para a telona de um livro com o mesmo título, escrito por Margareth Mitchell. Mas se você nunca ouviu falar da história nem da personagem, vale investir numa pesquisa em um site de buscas.

Comece pelo contexto em que viviam os Estados Unidos nos anos 1860, em especial o sul do país. Depois passe para a temática escravidão, os motivos que levaram à Guerra de Secessão e, por fim, descubra a saga épica que envolveu as filmagens de …E o vento levou, desde o tremendo desafio de escolher quem interpretaria Scarlett até as trocas de diretor, as disputas nos bastidores, um incêndio real, o mau hálito do galã… A eleita acabaria sendo a britânica Vivien Leigh, que por essa interpretação ganhou seu primeiro Oscar de melhor atriz. Daí você pensa: “O filme deve ter sido um desastre.” Ledo engano. Ele faturou vários Oscars, inclusive o de melhor filme, e foi uma das maiores bilheterias do cinema. É clássico dos bons, do tipo reverenciado por gerações. E muito desse sucesso se deve à sua protagonista.

Desde que surgiu primeiro nas páginas do livro, Scarlett O’Hara arrebatou admiradores por sua audácia, pela esperteza e força de vontade para vencer os piores desafios, mas também por seu egoísmo, pela frieza e por sua falta de escrúpulos, não importa por cima de quem precise passar. Polêmica a moça, não? Sim, muito. E por isso mesmo tão fascinante em sua complexidade, na mistura que a transforma mais na vilã a ser salva de si mesma do que na costumeira heroína doce e capaz de sacrifícios extremos por amor.

Scarlett permanece uma personagem tão forte que, mesmo oito décadas após sua estreia na literatura, ainda encontra versões de si mesma nas protagonistas da atualidade. Um exemplo é Judith Rashleigh, de Maestra, livro da inglesa L. S. Hilton. Sexy, calculista e muito inteligente, ela pode ser considerada uma versão bem radical da nossa antiga protagonista.

Se Scarlett não hesita em se casar com homens que despreza apenas para conseguir dinheiro e salvar sua fazenda, Judith usa o sexo como recurso para levar toda e qualquer vantagem, livrando-se de quem ameace suas conquistas. Isso significa até mesmo matar com uma frieza que só cresce depois do primeiro assassinato.

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Na história, Judith até que começa fazendo tudo certo, no papel da funcionária esforçada e trabalhadora que não desperdiça suas chances profissionais numa renomada casa de leilões em Londres. Porém, após ser injustamente demitida e perceber que foi a sua honestidade que a prejudicou, ela trilha um caminho próprio e ambíguo, utilizando para obter fortuna um precioso e vasto conhecimento sobre arte e, principalmente, sobre a elite milionária que circula pelos roteiros mais badalados do Mediterrâneo.

A protagonista de Maestra pensa em si mesma acima de tudo. De certo modo, assim também é a heroína criada por Jessica Knoll em Uma garota de muita sorte. Para receber o sobrenome de uma poderosa família tradicional, Ani FaNelli engana o noivo fingindo ser uma pessoa completamente diferente (aliás, a mesma tática de Scarlett). A cada dia, Ani trava uma luta contra a balança para manter a silhueta esguia, engole o conservadorismo e a intolerância do noivo preconceituoso, diz somente o que esperam que ela diga. Enquanto isso, sufoca lembranças dolorosas de sua adolescência que, se vierem à tona, podem estragar tudo pelo que tanto batalhou.

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Clique na imagem para assistir a uma entrevista com a autora de Uma garota de muita sorte

Gostei bastante da maneira como a autora intercala capítulos entre passado e presente, ligando fatos e personagens à medida que o livro avança. Desvendamos Ani pouco a pouco, questionamos suas decisões… Até que ponto uma adolescente pode ir para ser aceita pelos colegas em sua nova escola?

Já a personagem Nora Shaw, de Em um bosque muito escuro, de Ruth Ware, tem em comum com Scarlett a paixão por um homem inesquecível para ela. Reclusa e antissocial, Nora precisará confrontar seu passado numa trama de suspense, em que o ponto de partida é o convite que ela recebe para participar da despedida de solteira daquela que já foi sua melhor amiga. O local escolhido, no meio de um bosque, mal oferece comunicação com o mundo exterior: celulares raramente conseguem sinal, o telefone fixo não funciona, uma trilha de lama e vegetação é o único acesso à estrada.

O clima de impotência, claustrofóbico, amplia o medo e aquela gelada sensação de que algo terrível está prestes a acontecer. Haverá, claro, um assassinato a ser decifrado e um assassino muito mais parecido com a protagonista de …E o vento levou do que imaginamos a princípio…

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Clique na imagem para assistir ao booktrailer de Em um bosque muito escuro

Enfim, Scarlett O’Hara continua pairando como inspiração para muitos escritores. Por quê? Talvez a melhor pergunta seja “por que não?”. Se no coração humano existem tantos sentimentos contraditórios, se a nossa consciência se debate entre o certo e o errado, se nossas ações nem sempre vêm recheadas de bondade, faz todo o sentido do mundo termos personagens femininas que reflitam tal riqueza emocional. Alguém que coloque em xeque quem somos de verdade.

(*) Helena Gomes é jornalista, professora universitária e autora de mais de 40 livros, inclusive obras finalistas do Prêmio Jabuti e reconhecidas com o Selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Pela Rocco Jovens Leitores, já publicou Assassinato na Biblioteca, Lobo Alpha, Código Criatura e Conexão Magia (esse em coautoria). É autora também de uma das séries pioneiras da literatura fantástica brasileira, A Caverna de Cristais. Mais informações aqui.

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