Diálogos legendados

O desafio de representar dois idiomas em um livro escrito todo em português - Por: Samir de Machado
3 de fevereiro de 2017


Em Homens Elegantes, a ideia de um protagonista bilíngue impôs algumas questões. Érico Borges é brasileiro numa época em que isso significava necessariamente ser também português, e é meio-inglês por parte de mãe, o que reforça a noção de sua personalidade “compartimentada” em várias identidades. Parecia natural, então, que ele fosse fluente em inglês desde o berço.

Essa ideia evoluiu através de conversas com amigos e conhecidos ao longo do tempo. O escritor Christopher Kastensmidt — autor das aventuras históricas de A Bandeira do Elefante e da Arara, texano natural de Houston e vivendo em Porto Alegre, no Brasil, há mais de dez anos —, me contou que seu filho, quando pequeno, falava em inglês com o pai e em português com a mãe e o mundo.

Mas quando recebia visita dos parentes norte-americanos, se intimidava e ficava desconfiado daquelas outras pessoas falando a língua que até então era exclusiva dele e do pai. De modo inverso, o mesmo me contou uma conhecida que, filha de pai alemão e mãe brasileira, acreditou até certa idade que o português fosse uma língua “secreta” entre ela e a mãe.

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A ideia da língua enquanto “código secreto”, numa história de espionagem, me pareceu tentadora. E como a ação do meu livro gira em torno da embaixada portuguesa em Londres no ano de 1760, me pareceu importante que o leitor soubesse qual língua está sendo falada em qual momento, já que enganos, trocadilhos e erros de tradução são parte essencial da trama. Mas, eis o problema técnico: como fazer isso?

Lembro nessas horas do filme Caçada ao Outubro Vermelho, onde os diálogos em russo trocam sutilmente para o inglês quando um personagem, lendo a Bíblia, pronuncia a palavra “armagedom”. Dali em diante, sempre quando estão em si, os russos falam em inglês (para que o espectador compreenda), mas quando se confrontam com os americanos, seus diálogos voltam a ser em russo, com legendas em inglês (para que os personagens americanos não compreendam, mas o público sim).

Isso fez com que eu me desse conta do óbvio: o livro é para o leitor brasileiro, e ninguém deveria ter a obrigação de saber uma língua estrangeira para ler algo que foi originalmente escrito na sua própria — fazer o contrário, nesse contexto, seria esnobe e hermético. E usar notas de rodapé estava fora de cogitação, são uma distração pedante que corta o ritmo da leitura.

A solução encontrada foi um misto de (re)invenção histórica: livros escritos em inglês usam aspas na marcação de diálogos, enquanto que em português, o mais comum é o uso do travessão. Uma rápida pesquisa em livros da época me fez notar que, com o surgimento do romance de ficção como gênero no início do século XVIII, impressores precisaram encontrar uma forma de marcar a novidade do diálogo direto.

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Legenda: Edição de 1797 do Dom Quixote, com aspas marcando cada linha.

Os ingleses optaram pelo uso das aspas comuns, que eram repetidas ao longo de cada linha de diálogo do parágrafo. Com o tempo, elas evoluíram marcando apenas o começo e o fim da fala. Na França e na Espanha, os impressores preferiram usar as aspas angulares, também chamadas de latinas ( ‹‹ ›› ).

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Legenda: Edição de 1785 de “Belisário”, de Jean-François Marmontel, com o uso de travessões marcando os diálogos.

Já Portugal custou a estabelecer uma tradição própria, mas o uso do “travessão M” (—) como marcação de diálogo começa a surgir no final do século XVIII e, ao menos no Brasil, se estabelece como sinal gráfico de marcação de diálogo.

Assim, determinei que quando Érico Borges conversasse em português, seus diálogos usariam o travessão, mas quando falasse em inglês, usaria as aspas. Com um rápido diálogo entre Érico e o embaixador no terceiro capítulo, a transição fica implícita — e segue o bonde.

Do ponto de vista do escritor, o mais interessante de optar por um ou outro, é que cada um determina relações diferentes na construção de diálogos com a voz do narrador, além de influenciar o ritmo das frases. Além de me possibilitar estabelecer um jogo de quem-entende-o-quê quando vários personagens conversam em línguas diferentes — o que foi, acima de tudo, muito divertido.

Por: Samir Machado de Machado é escritor, designer gráfico e roteirista. Autor de dois romances Quatro Soldados (Não Editora, 2013) e Homens Elegantes (Rocco, 2016).

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