Clarice com sotaque francês

Paulo Gurgel Valente, filho de Clarice Lispector, fala sobre o livro "Minhas queridas" em Paris
17 de março de 2015


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Edição francesa da revista do Odéon

Como parte da programação paralela do Salão do Livro de Paris, que começa na próxima sexta-feira, 20 de março, e tem o Brasil como convidado de honra e Clarice Lispector como grande homenageada, Paulo Gurgel Valente, filho da escritora, participou nesta terça-feira, 17, de um debate na sede da editora Éditions des femmes, sobre o lançamento na França de Minhas queridas, coletânea de cartas de Clarice para as irmãs Tania e Elisa nas décadas de 1940 e 1950, organizada por Teresa Montero.

Autor dos livros infantis O leão de tanto urrar desanimou e Pedro e a onça, além de obras de economia, Paulo estreou na ficção adulta em 2014 com Lealdade a si próprio, romance histórico que tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial. Economista por formação, o filho de Clarice e do diplomata Maury Gurgel Valente cresceu ouvindo histórias e aprendeu a contá-las com sua mãe. Para o lançamento de Minhas queridas em Paris, ele preparou um texto em que conta como seu deu o processo de reunião e seleção das 120 cartas do livro, que permitem ao leitor conhecer um pouco mais de perto o mundo de Clarice. Numa delas, por exemplo, encontrada no arquivo de Elisa Lispector em 2005, Paulo teve contato pela primeira vez com uma carta em que Clarice descreve o nascimento dele para a irmã.

Confira abaixo a apresentação de Paulo Valente, que dividiu a mesa com Rosiska Darcy de Oliveira, Nadia Gotlib e com os tradutores de Minhas queridas para o francês:

Foto Tania Elisa Clarice

As irmãs Tânia, Elisa e Clarice. [Acervo da família]

Boa noite a todos. Agradeço a presença de todos vocês e a oportunidade de vos relatar minha participação na edição original das cartas enviadas por Clarice Lispector, minha mãe, às suas irmãs, Elisa e Tania – nascidas na Ucrânia, respectivamente em 1920, 1911 e 1915. E emigradas para o Brasil, juntamente com o resto da família, em 1922, partindo para um país longínquo e de idioma desconhecido, na tentativa de escapar à tragédia dos pogroms.

Apesar da mudança a tragédia continuou a rondar a família, pois a mãe delas faleceu aos 41 anos de idade, em 1930, ao cabo de uma longa doença, quando Clarice tinha apenas 7 anos de idade. A imigração e a perda da mãe aproximaram ainda mais as três irmãs. Elisa, a mais velha, tinha nove anos a mais que Clarice e se tornou a mãe substituta das irmãs; ao passo que Tania era a irmã do meio, quatro anos mais nova que Elisa.

Após se casar com o diplomata Maury Gurgel Valente, meu pai, Clarice viveu no exterior entre 1943 e 1959, passando assim dezesseis anos longe de suas irmãs, em um período em que ainda não existiam as facilidades da vida atual, como as viagens rápidas, telefones celulares, computadores, correio eletrônico, etc. [Durante esse período, Clarice se correspondeu regularmente com as irmãs, sem jamais perder contato com elas, apesar das frequentes mudanças de país e de endereço, forçadas pela vida diplomática.]

Vou comentar agora o surgimento gradual dessas cartas. No final da década de 1990, Tania [Kaufmann] doou 12 cartas escritas por Clarice para a Biblioteca Nacional do Brasil, sendo esta a primeira vez em que foi possível ter acesso a esses textos tão íntimos.

Dez anos atrás, em 2005, minha prima Nicole encontrou uma pasta nos arquivos de minha tia Elisa [Lispector] contendo 30 cartas, muito bem conservadas, de Clarice às suas duas irmãs. Foi uma grande surpresa, sobretudo porque estas cartas me proporcionaram acesso à descrição de meu nascimento feita por minha própria mãe.

Tomei conhecimento destas cartas juntamente com a professora Teresa Montero, biógrafa de Clarice, com quem as transcrevi, com algumas correções e interpretações de algumas palavras quase ilegíveis. Quando tudo havia sido concluído, mostrei o trabalho a minha tia Tania que me retribuiu com outra surpresa: dizendo-se feliz com o excelente trabalho realizado ela me presenteou com 150 novas cartas que ela havia guardado para si.

Desta forma nosso trabalho foi multiplicado por cinco. A seleção final compreendeu um total de 120 cartas, que foram publicadas primeiro no Brasil, depois na Espanha[1], e agora na França[2]. Acredito que estas cartas ilustram muito bem a capacidade que Clarice tinha de expressar seus sentimentos com doçura, espontaneidade e total domínio da escrita.

O leitor internacional certamente se interessará em saber que tais cartas contêm mais de 300 menções a cidades estrangeiras, a maioria das quais europeias (Berna, 90 vezes; Roma, 50; Paris, 47, mais também Florença, Lisboa, Londres e Nápoles, bem como Nova York e Washington). O que corresponde a quase o mesmo número de vezes que Clarice cita a cidade do Rio de Janeiro.

[1] A tradutora e professora de Literatura Portuguesa, Elena Losada, ganhou o XII Premio de Traducción Giovanni Pontiero por sua tradução para o espanhol de Minhas Queridas, de Clarice Lispector.

[2] Tradutores: Didier Lamaison e Claudia Poncioni. O escritor francês Didider Lamaison é sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras desde 4 de junho de 2009. Claudia Poncioni é professora de Langue, Littérature et Civilisation Brésilienne na Université de la Sorbonne Nouvelle.

carta clairce

Carta de Clarice às irmãs. [Acervo da família]

 

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