A política em Clarice Lispector

por Silviano Santiago
31 de outubro de 2014


passeata clarice

Em torno de Clarice Lispector circulam duas imagens contraditórias. A primeira é divulgada por uma foto. Ladeada pelo pintor Carlos Scliar e o arquiteto Oscar Niemeyer, ambos conhecidos membros do Partido Comunista, Clarice participa em 1968 de uma passeata contra a ditadura militar. A outra nos chega através de um depoimento de Olga Borelli, que está no esboço para um quase retrato escrito pela amiga e confidente. Clarice, observa ela, “dizia que os problemas da justiça social despertavam nela um sentimento tão básico, tão essencial que não conseguia escrever sobre eles. Era algo óbvio. Não havia o que dizer. Bastava fazer…”

A ativista da passeata não se confunde politicamente com o texto na vitrina da livraria (a exceção – e esta confirma a regra – é o romance A hora da estrela, logo depois transformado em filme mais participante ainda). Se o ser humano arrisca a própria vida na rua, lutando contra a repressão militar, o texto ficcional é julgado pelos contemporâneos como “apolítico”. Numa literatura como a brasileira, escrita por zelosos (vale dizer: medrosos) funcionários públicos, como nos lembrou Carlos Drummond em crônica admirável, e concebida dentro dos padrões oitocentistas do realismo-naturalismo, o oposto é que é verdadeiro. O texto é sempre mais “revolucionário” do que o escritor. Este é conformista para que aquele possa ser radical.

Desde a Carta de Pero Vaz de Caminha até o mais recente Paulo Lins, a nossa literatura é mais elogiada quando se nutre deliberada e gulosamente de acontecimentos político-sociais da história do país. Qualquer truque retórico que vise a “mascarar” essa realidade é sempre visto pelos leitores vigilantes como um crime cometido pela arte. O gosto do leitor brasileiro é ratificado pelo do leitor estrangeiro da nossa literatura. Também ele está mais interessado em livros traduzidos que mantenham viva a chama do “exotismo” (a palavra não é descabida se ele for europeu). O estrangeiro exige a luxúria ou a miséria brasileiras — tanto faz uma como a outra, desde que confluam para a história do Brasil. Nesse sentido, Clarice é de novo uma exceção. Há alguns anos, seus livros são bem pouco tropicalientes e, no entanto, são muito consumidos mundo afora.

Clarice Lispector e Fernando Sabino

Clarice Lispector e Fernando Sabino

Em torno de Clarice circula outro par de imagens contraditórias. A primeira é a de uma criança judia que chega com a família imigrante ao nordeste do Brasil e, pouco a pouco, galga posição de destaque na sociedade carioca, na sociedade tradicional brasileira. Casa-se com um diplomata de carreira, gói. A segunda imagem, sugerida pela própria Clarice, é a de uma jovem e talentosa artista que se cerca de intelectuais confessadamente católicos, como Lúcio Cardoso, ou discretamente católicos, como Fernando Sabino, despertando num outro católico, Antônio Callado, a ideia de que tinha morrido cristã. Isso está em depoimento do escritor fluminense feito por ocasião do enterro do corpo de Clarice em cemitério judeu.

Esses dois pares de imagens, essas quatro imagens contraditórias talvez encontrem uma primeira chave de leitura nas grandes polêmicas que começaram a sacudir, pouco antes da Primeira Grande Guerra, o mundo judaico na Alemanha. Trata-se de uma coincidência? Coincidência, ou não, tomemos a questão como hipótese de trabalho e continuemos a crônica pelo lado religioso.

No início deste século, em reação ao anti-semitismo e ao espírito antiliberal que começa a grassar na alta burguesia alemã, os intelectuais judeus colocam uma questão candente: como continuar administrando a propriedade espiritual de uma nação, no caso a germânica, que estava negando aos judeus o direito e a habilidade para o fazer? Surgem três posturas básicas. Uma, de inspiração burguesa e tradicionalista, minimiza os recentes fatos que acentuam o anti-semitismo. O judeu deve prosseguir silenciosamente seu caminho de liderança espiritual, integrando-se mais e mais ao Estado alemão. A segunda, sionista, questiona a infindável errância do povo judeu e luta resolutamente pela criação imediata de um Estado nacional judeu, no caso Jerusalém. Defendida por jovens e rebeldes intelectuais como Ernst Bloch e Walter Benjamin, a terceira postura vai ser a responsável por “uma nova sensibilidade judia”, para usar as palavras do historiador e nosso guia Anson Rabinbach. Trata-se do aprimoramento duma sensibilidade radical, secular e messiânica, que entraria em evidente conflito com as duas primeiras posturas.

A jovem Clarice

A jovem Clarice

Em que a descrição rápida dessas três posturas pode nos ajudar a compreender certa coerência política na personalidade multifacetada de Clarice Lispector?

Vivendo num país de chocantes e incontornáveis problemas sociais, Clarice se sustenta em valores espirituais fortes e universalizantes. Vendo que o país de adoção acolhe simpaticamente os refugiados judeus que por aqui arribam, acaba por não ter de enfrentar no cotidiano o preconceito religioso. Clarice minimiza o poder do judaísmo na sua formação intelectual, ao mesmo tempo que se amolda suave e gradativamente aos contornos impostos pela outra pátria cristã. Em várias e repetidas vezes, confessa-se brasileira e diz pensar e sentir em português. Contraditoriamente, mais a imigrante judia se adapta sem rebeldia à nova moldura nacional, mais indignada e pessimista fica quanto ao mundo tal como ele se lhe apresenta.

O mergulho na especificidade brasileira é motivo para a crescente indignação contra a miséria em que vive nosso povo, seja ele o pobre nordestino seja ele o marginal assassinado pela polícia, como é o caso paradigmático do bandido Mineirinho (cf. A legião estrangeira). Se essa indignação, alimentada pela fome de justiça social, não robustece a reflexão e o fazer propriamente artísticos, aguça a necessidade de o artista entrar na luta coletiva contra o estado das coisas. “Quero entrar em guerra com o mundo”, anuncia o Apocalipse. A indignação participante, antes de ser matéria de arte ou de atitude política individual, torna-se matéria de sobrevivência, numa comunidade tutelada pelos militares.

O ativismo coletivo de Clarice (passeatas, reuniões semiclandestinas etc.) robustece a arte pelo avesso, liberando-a do compromisso que a literatura brasileira tradicional mantém com o acontecimento sócio-histórico. “Não pertencia a nenhum grupo e nenhum grupo a convidou para fazer parte dele”, escreve a amiga Olga Borelli. Na ficção de Clarice, apaga-se o relato das injustiças cometidas no Brasil e no mundo, para que sobressaia transbordante e feliz a utopia futura pelo seu viés presente e cotidiano. “Não pensar pessimisticamente no futuro”, anota a escritora. Os momentos privilegiados da vida humana, descritos até a exaustão pela escrita de Clarice, prefiguram de maneira mágica e involuntária, religiosa, uma esperança que só poderá concretizar-se com a destruição da velha e atual ordem mundial.

Na literatura brasileira, Clarice é a primeira a transferir para a linguagem o lugar central ocupado autoritariamente pela realidade histórica. “Minha ação é a das palavras”, anota. Só pela linguagem e através dela é que o indivíduo pode escapar de outra miséria, a da política nacional e internacional, a fim de que possa realçar no texto momentos privilegiados do dia-a-dia que utopicamente desenham o futuro promissor da raça humana. No sentido estreitíssimo da expressão, a prosa de Clarice pode ser dada como antipolítica. Se para o leitor comum a linguagem ficcional de Clarice é áspera e esotérica, ela o é porque dirigida contra a linguagem fácil do instrumentalismo político.

Nova e última contradição. Se a Clarice ativista é pessimista e apocalíptica, já o seu texto é otimista e utópico. “Tudo é passível de aperfeiçoamento…”, lê-se no conto “Amor”. Apenas aparentemente é que o texto de Clarice é antipolítico. Ele é altamente politizado na medida em que, como na filosofia de Ernst Bloch, opõe à imanência histórica a salvação.

Por isso, a grande contribuição de Clarice à literatura brasileira (e ao desenvolvimento do conhecimento filosófico no Brasil) é a de ter questionado o conceito de “experiência”, tal qual defendido por Kant e os neokantianos. Ao demarcar o território da experiência pela redução do real ao racional, e vice-versa, Kant configurou e nos transmitiu um conceito tacanho, cego à religião e ao irracional. A conceituação de Kant criou um vazio que só poderia ser redimido por um conceito mais alto e mais amplo de experiência. Nesse sentido, esclarecedora para se compreender a originalidade da proposta filosófica de Clarice é a leitura do ensaio do jovem Walter Benjamin, intitulado “Programa para a Filosofia futura” (1918). Nele o filósofo aponta para a necessidade de conceber a experiência como algo que também incorpora o pré-racional, o mágico e até mesmo a loucura.

Esse enriquecimento do conceito de experiência propiciou uma nefasta atitude conservadora por parte da crítica marxista ortodoxa no Brasil. Ela foi incapaz de compreender a política revolucionária do texto de Clarice, presa que se encontrava aos condicionamentos históricos impostos pelas verdades iluministas no nosso pensamento político.

 

Silviano Santiago é um dos mais prolíficos intelectuais brasileiros. Escritor, poeta, professor, crítico literário e ensaísta, foi três vezes vencedor do Jabuti – com Em liberdade (romance, 1982), Uma história de família (romance, 1993) e Keith Jarrett no Blue Note (contos, 1997).

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