A entrevista que não houve

Vivian Wyler sobre sua quase entrevista com Clarice Lispector
28 de março de 2017


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Eu era pouco mais que uma estagiária, uma jovem repórter do Caderno B, do Jornal do Brasil, que, aos 23 anos, gostava de música clássica, teatro e literatura. E que ficava exultante quando merecia a oportunidade de fazer qualquer coisa nessas áreas.

Na maior parte do tempo, as pautas que saíam para mim eram mais promissoras do que rentáveis, mais trabalhosas do que vistosas, mais sugestivas do que destacáveis. Às vezes, no entanto, acontecia o golpe do acaso. Quando o provável entrevistado era sabidamente difícil, e – quem sabe?- o repórter inexperiente tivesse a chamada sorte de principiante.

Foi assim que naquele distante 1977 me disseram para ligar para Clarice Lispector para falar sobre seu novo romance, A hora da estrela.

Eu? Logo eu que não conhecia tanto assim a obra da autora?

Era uma espécie de pegadinha. Outras pessoas tinham tentado recentes entrevistas, mas Clarice não tinha topado. Então, por que não arriscar comigo?

Com as pernas tremendo, voz hesitante, liguei.

Para minha surpresa ela veio logo ao telefone e, à medida que eu falava, ia tecendo comentários:

– Você é muito novinha, não é?
Tive que concordar.
– Você tem uma voz bonita, acho que você é bonitinha também, não é?
Achei estranho concordar.
Ela logo emendou.
-Vou dar a entrevista. Ela está marcada para o próximo sábado.

Sábado. Poucos dias para ler tudo que eu não havia lido, pesquisar – sem internet – tudo que eu não sabia, ler o livro propriamente dito e não decepcionar. E eu queria muito parecer inteligente.

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Na antevéspera da entrevista, eu já tinha lido o livro, elaborado o roteiro – ou pelo menos algumas perguntas que julguei razoáveis – e estava mais nervosa do que nunca. Agora, consciente da minha responsabilidade.

Foi quando o telefone da minha casa tocou.

Eu lembro bem daqueles tempos pré-celular, porque o nosso telefone, na inacreditável cor azul turquesa, ficava na copa da nossa casa na Barra da Tijuca, bem perto da mesa de madeira onde gostava de rabiscar, freneticamente, enquanto conversava.

– Vivian? Aqui é a irmã da Clarice. Eu estou vendo seu nome aqui na agenda dela, você tem uma entrevista marcada. Mas ela não vai poder dar essa entrevista, pois está hospitalizada.

Fiquei em estado de choque. A entrevista ali, na mão, e agora tão distante. Fiquei tão sem chão, que nem perguntei o motivo da hospitalização. Tudo pareceu, de repente, invasivo, fora de lugar, tremendo, premonitório, macabeico. A mesa de madeira cresceu à minha frente e eu fiquei olhando, sem fixar ponto algum, os tijolos aparentes, envernizados, da copa moderninha, tão Casa e Jardim.

O choque aumentaria ao saber da sua morte, pouco tempo depois, um dia depois do meu aniversário.

Estar na editora que publica Clarice e acompanhar sua vinda para essa casa editorial foi a escrita final que o acaso me reservaria.

A entrevista que não houve transmudou, quem diria, em participação, mesmo que tímida, no processo de tornar Clarice, muito mais do que uma voz incorpórea, calorosa e convidativa ao telefone, nessa estrela cuja hora é para sempre.

Vivian Wyler é Gerente Editorial da Rocco.

 

A hora da estrela ed_com

 

Um dos maiores clássicos da literatura brasileira, A hora da estrela completa 40 anos em 2017 e, em maio, ganha uma edição comemorativa com projeto gráfico sofisticado, com capa dura e sobrecapa em papel vegetal, e enriquecida por textos críticos assinados por Nadia Gotlib, Eduardo Portella, Clarisse Fukelman, o irlandês Colm Tóibín, a francesa Hélène Cixous e a argentina Florencia Garramuño. A nova edição traz ainda um caderno de 16 páginas reunindo reproduções em fac-símile do manuscrito original, bilhetes e anotações da autora, com texto de apresentação inédito assinado pela escritora, tradutora e pesquisadora Paloma Vidal.

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