Conta aí

Aline Valek sabe de si?

Conta aí, com Pedro Martins
22 de fevereiro de 2017


A autora de As águas-vivas não sabem de si, Aline Valek, nasceu em Minas, cresceu em Brasília e hoje vive em São Paulo. Mas sua verdadeira casa não conhece limites geográficos: é a internet, onde escreve artigos de opinião, contos e até uma newsletter. Seja como for, seu papel é sempre o mesmo: “criar conexões entre ideias e pessoas”.

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Entre tantos escritos, As águas-vivas foi o seu primeiro livro a chegar às prateleiras. Nele, a mais de 300 metros de profundidade, suspense e ficção científica se fundem de forma minimalista à vida de cinco pesquisadores e ao desconhecido que habita o Oceano. “A ficção científica é muitas vezes vista como algo distante, complexo e frio demais. Mas muitos leitores me disseram que várias passagens do livro os tocaram de alguma forma”, conta a autora.

Seria ele, então, um cilindro de oxigênio de 300 páginas para um mergulho no íntimo de cada leitor?

“Se tem algo que este livro não é, é oxigênio. É uma asfixia, na realidade. O papel da literatura é nos tirar da zona de conforto. Com As águas-vivas não sabem de si eu realmente tentei fazer algo que sacuda o leitor, que o perturbe.”

“Se eu quisesse fazer algo para agradar, faria bolos – é mais fácil também.”

“Durante a escrita, eu ficava com medo. Eu nunca mergulhei, e aquele era um ambiente assustador, literalmente cheio de pressão”, relembra. Para ambientar a história em um lugar onde ninguém nunca esteve, é claro que Aline precisou de muita imaginação. Tal liberdade criativa, porém, só veio depois de muita pesquisa. Além das conversas com mergulhadores, foram anos de interesse pelo assunto e um repertório afiado de referências culturais.

Nas telas, a maior delas é O Segredo do Abismo (1989), de James Cameron, onde a equipe de uma plataforma de petróleo tem que resgatar um submarino nuclear que afundou misteriosamente. “Quando foi lançado, minha mãe não me deixou assistir. Tem aliens, você vai ficar com medo. Então eu só fui vê-lo adulta, quando já tinha começado a escrever As águas-vivas. Tive até que mudar algumas coisas da história, senão ia ficar muito parecido com o filme.”

As águas-vivas não sabem de si é, inclusive, um paralelo subaquático ao ganhador de sete Oscars Gravidade, de Alfonso Cuarón. A partir dessa comparação, surge a pergunta: seria possível uma adaptação cinematográfica do livro?

“James Cameron, se quiser dirigir, fique à vontade.”

“Eu gostaria de ver para descobrir o que sairia disso. Seria algo muito louco, e muito diferente do livro, também. E isso é legal. Acredito que o ponto de vista dos animais seria particularmente complicado de traduzir sem que ficasse algo muito Discovery Channel”, brinca.

Já na literatura, dois livros a inspiraram: Vinte mil léguas submarinas (1870), “por retratar o poder da ficção científica em prever questões sociais e tecnológicas”, e Moby Dick (1851), por tê-la influenciado a escrever sob o ponto de vista de animais. “Eu não tenho restrição de assuntos. Tento até não me rotular ao dizer que escrevo ficção científica. Eu escrevo maluquices!”, diz ela.

Depois de testar a ideia fabulesca na newsletter, sob o ponto de vista de uma baleia, e em um conto na revista Traços, sob a visão de – pasmem – um ácaro, Aline decidiu escrever mais dessas histórias em seu livro. Ainda que estejam conectadas à linha narrativa, elas atuam como contos, e podem até ser lidas separadamente.

“Era estranho se ver sozinha, não ser parte de nada, a solidão tão desesperadora quanto a própria morte. À medida que ela subia, apenas carregada pela água, pois seus membros não obedeciam aos seus instintos mais básicos, aquelas questões pareciam ganhar uma importância tão grande quanto um submarino que a arrancasse de seu caminho. Foi quando aconteceu algo bastante incomum para uma água-viva, algo que só um acidente tão trágico poderia desencadear: a consciência de que era um indivíduo.

Agora havia ela e o mundo, a separação entre duas coisas que talvez sempre tivessem sido distintas. (…) O que fazer com aquela informação?”


Mas com tantos rolos de pergaminho à mesa, como não se perder? Será que a inspiração nunca sai para passear?

Para início de conversa, nada de pergaminho! Afinal, Aline não gosta da gourmetização da escrita e do escritor. Para ela, é questão de sobrevivência: “Eu não sei fazer outra coisa. Se você sabe, faça; escrever dá muito trabalho. E a criatividade nada mais é do que um processo, que precisamos entender e viabilizar, onde a organização é a base de tudo.”

Tamanha é sua organização que, no NaNoWriMo, ela conseguiu cumprir a missão de escrever uma história de 50 mil palavras durante o mês de novembro. Acompanhando as atualizações que a autora enviava aos leitores de sua cartinha online, a Rocco convidou-a publicar pelo selo Fantástica. Aceito o convite, foram dois anos de reescrita e edição – alternando entre vários projetos, é claro:

“Apesar da rotina, nunca é a mesma coisa. Para a história da mergulhadora Corina, precisei de um romance. Às vezes, preciso de um conto; outras, de uma HQ. Sempre estou me desafiando, me adaptando e alternando entre projetos diferentes.”

Atualmente, Aline trabalha na migração da newsletter para uma revistinha mensal (zine) e em uma coletânea dos seus melhores textos dos últimos três anos. Quando e como será publicado, nem ela sabe. Afinal, a preocupação do momento é finalizar o trabalho: “A experiência que todos estes anos de internet me deu é que não preciso de autorização para publicar.”

Por fim… Aline Valek sabe de si?

“Mais ou menos. Ela tenta saber de si escrevendo. No fim das contas, escrevo para mim.”

pedromartinscontaaiPedro Martins, viciado em livros e filmes, descobriu a magia por meio dos escritos de J.K. Rowling aos oito anos. Essa paixão o tornou webmaster do Potterish.com e o possibilitou escrever sobre literatura para diversos portais, incluindo o britânico The Guardian. Mensalmente, ele conversa com nossos autores e escreve a coluna Conta aí.

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